Carlota Carvalho: de Imperatriz para o Brasil

20 de janeiro de 2010

No início desta noite, telefona-me de Teresina o professor João Renôr, recém-aposentado como docente do curso de Mestrado em História da UFPI, devendo vir até o final do ano residir em sua chácara no povoado Cumaru, a quarenta quilômetros de Imperatriz. É para dar “uma boa notícia”: o Conselho Editorial da UFPI acabava de eleger o livro que lhe cabe indicar anualmente para publicação na “Coleção Nordestina”, da ABEU (Associação das Editoras Universitárias Brasileiras). Trata-se de “O sertão: subsídios para a história e a geografia do Brasil”, de Carlota Carvalho, que teve sua primeira edição publicada no Rio de Janeiro, em 1924, quando a autora residia no território de Imperatriz.

Até 2000, quando eu e Renôr organizamos e publicamos a segunda edição desse livro, 76 anos após sua primeira edição, era ele uma obra considerada raríssima, mesmo porque em 1924 haviam sido impressos somente 500 exemplares. No Maranhão, conheciam-se apenas dois exemplares dele, em mãos de particulares. A partir dessa edição de 2000, o livro de Carlota começou a popularizar-se, inclusive no meio acadêmico, regional e brasileiro, já existindo diversos artigos científicos e dissertações de pós-gradução tratando dele.

Esgotada a segunda edição, resolvi, em 2006, organizar uma edição comentada, acrescida de um perfil biográfico da autora, um “índice onomástico explicativo-remissivo” e ainda 101 notas explicativas ao texto, num total de mais de 60 páginas, todas elaboradas por mim, mantendo ainda a Apresentação de João Renôr, feita para a segunda edição, com 52 páginas. O conjunto desses acréscimos deu a esse importante livro regional maior consistência, fazendo-o ainda mais estimado no meio acadêmico.  É exatamente esta terceira edição, da mesma forma em que foi publicada pela Ética, a versão escolhida para publicação pela ABEU.  Será mantida até mesmo a editoração, com 442 páginas, que coincide com o formato da “Coleção Nordestina”.

Com mais de 60 títulos publicados, a “Coleção Nordestina” reúne obras indicadas pelas instuições de ensino superior que integram a ABEU, que as difunde em livrarias universitárias e eventos literários em todo o país, como as bienais e feiras de livros. Dentre os autores publicados estão Joaquim Nabuco, Gilberto Freire, Pedro Américo, Adolfo Caminha, Manoel Correia de Andrade, Câmara Cascudo, Gilberto Amado, Patativa do Assaré, Francisco Julião, Miguel Arraes e muitos outros. João Renôr teve um trabalho seu editado em 2007, “Resistência indígena no Piauí colonial”, que também havia sido publicado antes pela Ética.

De acordo com informativo da Universidade Federal de Pernambuco, a “Coleção Nordestina” “foi lançada com o objetivo de publicar ou republicar obras representativas da produção intelectual do Norte e Nordeste do Brasil, nas áreas de Literatura, Ciências Sociais, Antropologia, Folclores e outras, de modo a constituir-se, no futuro, em repositório bibliográfico da Arte, da Cultura e da Ciência regionais, apto a preservar esse patrimônio e difundi-lo permanentemente em escala nacional.”

Meu encontro com Elomar

15 de janeiro de 2010

Como nesta noite resolvi não fazer nada, pus-me a escrever — para mim, escrever crônica é passatempo; serve como relaxamento, desopilação. Então, terminado o “post” anterior, resolvi continuar a história do Roberto, meu amigo baiano que não vejo há quase três décadas. Até porque estou com preguiça de continuar a revisar as 180 páginas que ainda restam de um livro de contos que estou editando.

A questão agora é meu encontro com Elomar.

Não, não foi um encontro pessoal com o menestrel, mas com a música dele.

Creio que estávamos em 1981. O Roberto me convocou: “Vamos lá em casa (ele morava sozinho num apartamento, na Getúlio Vargas, próximo à rua Ceará). Quero te mostrar uma coisa.” E nem disse o que era. Fomos.

Ao entrarmos, disse: “Vou te mostrar um disco muito bom, de um cara lá de minha cidade.” E puxou o álbum duplo, LP, vinil, “Na quadrada das águas perdidas”, que colocou pra tocar. Ouvi então uma música totalmente diferente de tudo o que já tinha ouvido. Havia lamento sertanejo misturado com música medieval, acordes clássicos, palavras caboclas… Demorei a digerir o gênero. Mas percebi que era uma preciosidade artística.

Como disse Vinícius de Moraes, as composições de Elomar são “uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos cavalheiros e menestréis errantes [...]; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão [...]”.

Pois foi assim também que passei a ver a música de Elomar. Campo branco, que está nesse álbum, sempre digo, não precisa de letra; basta a música. Até melhor sem letra, porque, por si mesmo, essa música é bem superior a qualquer palavra que possa ser dita. Cabe bem aqui o que diz o apóstolo Paulo: “a letra mata”. Sim, a palavra limita. O espírito, a sonoridade, é lhe dá vida.

A propósito disso, um dia de julho de 2007, em Carolina, jantando frente a frente com o pianista Arthur Moreira Lima, que participou da gravação dessa música (só instrumental; sem a letra) para o disco “Consertão”, de Elomar, juntamente com dois outros grandes músicos, Paulo Moura e Heraldo Dumonte, mantivemos uma longa conversa, sobre vários assuntos, principalmente história, e, num momento, perguntei a ele sobre essa música. Ele, que conhece o mundo físico do globo terrestre e também o mundo imaterial da música, afirmou que compositor como Elomar, que junta com maestria cantigas medievais com a musicalidade nordestina, não existe outro. Anos depois, vi que esse disco “Consertão” era paixão de dois outros amigos: padre Cícero Marcelino e Edmilson Sanches.

Um outro fato: um dia, dei de presente à cantora evangélica Íris — minha vizinha no começo dos anos 70, a quem vi tocando violão ainda menina, com menos de dez anos – o LP “Elomar em concerto”, que contém diversos fragmentos de inspiração religiosa de sua Antifonaria Sertani. Uns quinze anos depois, Íris me afirmou que aquele disco foi decisivo em sua escolha para estudar violão clássico.

Outra música de Elomar eu coloco entre as minhas “top ten”: Cantiga de amigo. É um clássico que nos remete aos tempos de Gil Vicente. Nas vozes de Elomar e Xangai, juntos, é insuperável. Ou era, até eu assistir ao vídeo de um concerto realizado recentemente na Casa dos Carneiros, fazenda Gameleira, em que mora Elomar, no sertão baiano, quando essa música foi executada com grande orquestra, solistas líricos e vocais de Elomar, Xangai, Saulo Laranjeira e Décio Marques. Está no Youtube

Como Elomar é avesso a fazer shows, gosta mais de compor que de cantar em público, praticamente não aparece na grande mídia (à qual é ele também arredio), nunca tive esperança de vê-lo cantar um dia em Imperatriz. Mas há tempos vinha tentando conseguir partituras de sua obra, na expectativa de que alguém destas barrancas se atravesse a executá-las num hipotético concerto. Eis que agora (na verdade, no finalzinho de 2008) Elomar autoriza uma editora a publicar a obra “Elomar: cancioneiro”, um álbum com 14 cadernos, contendo 49 partituras de suas composições adaptadas para voz e violão.

Assim, ainda há chance!

No ano que vem fará 30 anos que conheci Elomar.

O que fazer quando não se tem o que fazer?

15 de janeiro de 2010

Sou viciado por trabalho. Perdi boa parte da minha infância e juventude por causa disso. Antes dos doze anos já dava oito horas de expediente por dia e estudava à noite. Desde então nunca mais parei. Até agora, 35 anos depois, não lembro ter tirado três férias de trinta dias. Virei então o que hoje chamam de wokaholic, pessoa que trabalha por compulsão, ou seja, é viciado em trabalho.

Tornei-me, com isso, inquieto, desassossegado, quando não estou fazendo nada. Quando assim, corro à minha biblioteca e escolho um livro para ler ou reler; ou então, sento à frente do notebook e fico pesquisando “novidades” ou “curiosidades” – o buscador Google tem sido meu parceiro de descobertas. Às vezes também escrevo uma crônica ou artigo.

Foi assim que, sem tempo para tarefas maiores em momento de ócio, tive a idéia de procurar no Orkut um amigo de juventude que há quase três décadas deixou Imperatriz em retorno para a Bahia. Digitei o nome completo dele e apareceu a sua página logo em primeiro lugar. Figura fácil de reconhecer, mesmo depois de tanto tempo. Continua magro; o rosto pouco mudou… e continua na mesma profissão, só que em cargo público elevado. Mas verifiquei que separou-se da mulher com a qual e por causa da qual teve que sair “correndo”, ou melhor, “fugindo” de Imperatriz, porque a família dela não queria o namoro.

Foi ele, o Roberto, então um jovem contador, boêmio, na época radioamador PX como eu, responsável por duas boas novidades em minha vida. A primeira, ter me vendido, ainda lacrada, uma poderosa antena quadra cúbica para meu rádio Cobra 148 GTL, que me permitia falar com o mundo todo. Era a mais potente antena da “faixa cidadão” da região, o que fazia de mim um “tubarão”, termo que na linguagem desse ramo quer dizer “poderoso”. Até fundamos um clube de radiomadores, ao qual denominamos “Tubarões do Tocantins”, que se tornou conhecido em toda a América Latina e mesmo em outros continentes. Tínhamos quase duzentos sócios espalhados pelo Brasil e em outros países. Havia bate-papo todo dia, principalmente à noite. Rodadas de conversas numa linguagem codificada que, pelo nível de domínio dos códigos, percebia-se o “grau” do falante. Eu era o Beto, PX8C-0426, presidente do Grupo dos Tubarões do Tocantins.

Naquele tempo, quando ainda nem sonhávamos com Internet, a Faixa Cidadão do radioamador equivalia, nas proporções devidas, ao que é hoje o MSN. Conversávamos “ao vivo”, por voz, com pessoas das mais diferentes localidades; fazíamos amizades; éramos também “comunidade”. Podia ser um caminheiro em viagem pelas estradas brasileiras, um tripulante de um navio no Pacífico, um morador de uma remota localidade da Amazônia, ou mesmo alguém do outro lado da cidade. O Roberto foi um importante companheiro nessas peripécias.

A outra grande novidade que ele me trouxe, como bom baiano de Vitória da Conquista, foi apresentar-me Elomar, o cantador das árias sertânicas do rio Gavião, maior menestrel do mundo. Na quadrada das águas perdidas. Vi, ouvi e nunca mais deixei de escutar e apreciar. Mas isso é tema para outra crônica.

Colinas e o Arraial do Príncipe Regente

7 de janeiro de 2010

Dílson Guimarães, um leitor deste blog, informa que está escrevendo um livro sobre o antigo e extinto Arraial do Príncipe Regente, fundado pelo militar português Francisco de Paula Ribeiro na primeira década do século XIX, por ordem do Governo do Maranhão, com o fim de proteger os criadores que começavam a ocupar com fazendas os sertões do leste maranhense e favorecer a navegação do rio Itapecuru. O Arraial existiu por pouco tempo, sendo devassado pelos índios.

A questão que ainda indaga muitos pesquisadores é: onde ficava mesmo o Arraial?

Dílson afirma ter encontrado vestígios e artefatos de antigos moradores numa área no município de Mirador e acredita ter sido nesse local o antigo Arraial do Príncipe Regente.

A partir de pesquisas que venho fazendo há anos e de documentos cartográficos do século XIX que me chegaram às mãos ultimamente – o mapa do roteiro de Sebastião Gomes da Silva Berford, que publiquei no livro “Viagem da cidade de S. Luís do Maranhão até a Corte do Rio de Janeiro” (do mesmo Berford) e do “Mappa Geographico da Capitania do Maranham”, de 1919, primeiro mapa que descreve com detalhes a parte sul do Maranhão, desenhado por Francisco de Paula Ribeiro e que se imaginava desparecido (encontrado e digitalizado agora pela Biblioteca Nacional, em excelente estado) – posso afirmar que o velho Arraial localizava-se pouco abaixo da confluência dos rios Alpercatas e Itapecuru, exatamente onde fica hoje a cidade de Colinas.

Destaquei, em resposta a recente comentário de Dílson Guimarães feito a postagem que fiz meses atrás neste blogo, o argumento abaixo:

“Para mim, [...] depois de avaliar o mapa elaborado por Francisco de Paula Ribeiro  (fundador do Arraial), recentemente digitalizado pela Biblioteca Nacional, fica evidente que o Arraial do Príncipe Regente ficava pouco abaixo da confluência dos rios Alpercatas e Itapecuru, próximo à margem deste rio, praticamente o mesmo local em que a cartografia atual indica a cidade de Colinas.

“Também, pelo relatório de Sebastião Berford, que esteve no Arraial de 26 de outubro a 2 de novembro de 1809 e fez um relato detalhado do lugar, verifica-se que a distância que ele contabiliza, saindo daí até chegar a Pastos Bons, é de cerca de 20 léguas, a distância aproximada hoje entre Colinas e Pastos Bons, enquanto a distância para Mirador é menos que a metade disso.

“Outra evidência é que no dia 3 de novembro Berford anota que chegou ao riacho “Minador”, quando já teria viajado oito léguas desde a saída do Arraial do Príncipe Regente. Essa é a distância aproximada entre Colinas e Mirador. E a grafia “Minador”, constante no roteiro de Berford impresso pela Imprensa Régia, em 1810, na verdade, pode ser um equívoco de leitura do revisor, visto que a grafia do “r” e do “n” eram muitos parecidas.

“Assim, não tenho nenhum medo em afirmar hoje que o Arraial do Príncipe Regente fica no mesmo local em que hoje é a cidade de Colinas.”

Quem é imperatrizense, afinal?

29 de dezembro de 2009

Fui hoje indagado por uma acadêmica em fase de elaboração de seu trabalho de conclusão de curso que queria minha delimitação sobre o que é “literatura imperatrizense”. À primeira vista, sem maior reflexão, pareceu-me uma pergunta óbvia, merecedora de uma resposta óbvia. Logo, porém, detive-me em responder. Verifiquei que há muitas possibilidades para a resposta. E uma resposta a essa indagação delimita também essa adjetivação em muitas outras áreas, inclusive o uso do próprio gentílico: “imperatrizense”.

Ora, quem pode ser chamado “imperatrizense” numa cidade em que mais de 70% dos habitantes com mais de quarenta anos nasceram em outros municípios? Em que a maioria dos seus dirigentes sociais, empresariais e políticos não nasceram aqui? Em que mais da metade dos professores vieram de outras cidades? Em que a maior parte dos artistas, escritores, fazedores culturais são “de fora”?

Quem é imperatrizense, então? O que é ser imperatrizense, afinal?

Repassando à memória, constatei que dos atuais quarenta membros da Academia Imperatrizense de Letras, apenas cinco nasceram em Imperatriz: Tasso Assunção, Edna Ventura, Jucelino Pereira, José Herênio e Luiz Carlos Porto. E quantos dos hoje vereadores são imperatrizenses de nascimento? Qual o último prefeito nascido aqui? Algum deputado, representante de Imperatriz, nasceu aqui?

São, dessa forma, “imperatrizenses” os que comandam a cidade? Podemos afirmar que Imperatriz tem uma cultura “imperatrizense”, uma sociedade “imperatrizense”, uma política “imperatrizense”?

O que é, então, “cultura imperatrizense”, “literatura imperatrizense”?

O que é “imperatrizense”, quem é “imperatrizense”?

Há pouco tempo, um gesto polêmico do poeta Zeca Tocantins deixou chocada muita gente. Nascido em Xambioá, mas vivendo na cidade desde criança, e considerado um dos maiores artistas “imperatrizenses”, membro da Academia de Letras, em protesto contra o “descaso cultural”  do poder público municipal, resolveu devolver o título de “Cidadão Imperatrizense” que recebera em 1999. Deixou ele, entretanto, de ser menos cidadão de Imperatriz do que sempre foi, divulgando e contribuindo com a cultura local e regional? Não é ele mais imperatrizense que os ex-presidentes militares Castelo Branco e Garrastazu Médici e os ex-ministros César Cals e Camilo Calazans, que também têm o título de “Cidadão Imperatrizense”, concedidos pela Câmara Municipal?

O que legitima a utilização de um gentílico? A naturalidade, o envolvimento, a colaboração, a inspiração?

A música do paraense Neném Bragança, o mais conhecido dos cantores de Imperatriz, identificado como “imperatrizense” por todos os rincões nacionais onde venceu festivais, é menos “imperatrizense” que a de Lena Garcia, originária de uma família que vive no município desde o século XIX?

Também eu, que escrevi vários livros sobre a história de Imperatriz, não nasci aqui, apesar de ter chegado criança e ter passado menos de dois meses na minha cidade de origem, contabilizando-se todas as três vezes em que lá estive… me considero tanto imperatrizense quanto os que aqui nasceram.

O que dizer de intelectuais literatos como Vito Milesi, que, sequer brasileiro, foi um dos maiores baluartes da educação, da cultura, da literatura e da inteligência de Imperatriz (sem falar sua condição de cidadão assumida com a determinação e a paixão de poucos)? E de um Edmilson Sanches, de um Livado Fregona, de um Ribamar Silva… todos escritores com vida e obra “locadas” em Imperatriz, apesar de provenientes de outras plagas?

Inversamente, poderíamos nos perguntar se se pode chamar “imperatrizense” a obra de Regina Sader, uma expoente geógrafa aposentada, ex-professora da USP, que tem uma obra sobre Imperatriz? Ou a do historiador João Renôr, apenas por ser ele membro da Academia Imperatrizense de Letras?

É mesmo imperatrizense a obra literária de Manoel de Sousa Lima, primeiro escritor nascido em Imperatriz, em 1889, que somente passou a publicar depois de não mais morar na cidade?

Chego à conclusão de que não é um título de cidadania, nem mesmo o registro de nascimento, que criam a “cidadania”, o que dá legitimidade a um gentílico.  Creio que este deve ser dado apenas àqueles que tenham participação ou motivação na vida, na cidadania ou na cultura da localidade.

Então, “literatura imperatrizense”, “arte imperatrizense”, “música imperatrizense” são as obras criadas com o sopro, com a inspiração, com o ar, com a motivação das circunstâncias da vida imperatrizense, seja qual for a temática. Sem esse “ar” local, o que justifica essa condição?

Basta um livro ter sido escrito ou publicado em Imperatriz para ser “imperatrizense”? Não concebo isso. Neste ano a Ética Editora publicou livros em língua estrangeira, de autores que sequer conhecem o Brasil. E também de autores de outras regiões e estados brasileiros, pessoas que nunca tiveram qualquer relação com esta cidade. Estes também não podem receber esse gentílico.

O que é “imperatrizense”? Quem é “imperatrizense”, afinal?

A questão está aberta.

João do Vale – documentário

27 de dezembro de 2009

Só agora assisti ao documentário “Muita gente desconhece”, sobre a vida e obra do compositor e cantor maranhense João do Vale, “a personalidade do século XX” no Maranhão. A produção, dirigida por Weriton Kermes, é de 2005, apesar de ter sido iniciada ainda no ano da morte do compositor, em 1996. Foi premiado no Festival de Gramado e exibido na TV Cultura, em 2006.

Através do depoimento de amigos de infância, familiares, parceiros e artistas que com ele conviveram, o filme faz uma retrospectiva da vida e da obra de João do Vale. Apresenta também sua convivência com os amigos de Pedreiras, sua cidade natal, onde foi viver depois do derrame sofrido, e reúne diversos momentos em que canta suas famosas composições que marcaram a música popular brasileira.

Num trecho, Miúcha, irmã de Chico Buarque e uma de suas parceiras, comete uma gafe pouco perceptível: diz que veio com João do Vale fazer alguns shows no interior do Maranhão, e citou uma cidade… “Sobral”… Creio que tenha sido “Bacabal”. Foi exatamente durante essa “turnê” que conheci João do Vale, em 1982.

Ele veio também a Imperatriz com Miúcha, e aqui ficou durante uns três dias, hospedado no Hotel Schalom, na rua Pará. Em frente, ficava a Gráfica Escriba, minha e de meu irmão Gilberto. Várias vezes ao dia, João saía sozinho, a pé, de chinelo, e ia até um bar ali perto, beber uma dose de cachaça. Passava desapercebido como personalidade.

Não lembro de ele ter voltado a Imperatriz outras vezes, senão quando foi homenageado pelos estudantes do CESI/UEMA, já muito doente e quase sem poder falar.Mas creio que hoje os admiradores da obra de João do Vale em Imperatriz seja muito maior do que quando ele era vivo.

Sobre o documentário, ele está no Youtube com o título “Muita gente desconhece”, divido em três partes. Vale a pena conferir.

O artista ‘prata da casa’ e a falta de público – I

24 de dezembro de 2009

Para um pequeno público, o cantor/compositor Lourival Tavares realizou ontem à noite uma apresentação no Teatro Ferreira Gullar, depois de três anos sem cantar nesta cidade, onde ele começou a despontar no meio musical no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, e onde residem seus pais e avós.

Estive lá e verifiquei que as poucas dezenas de presentes eram pessoas ligadas à cultura e à comunicação, em sua maioria amigos do artista. Daí me vieram alguns questionamentos: A cidade menospreza seus artistas? O gênero MPB tem pouco público na cidade? A obra de Lourival é desconhecida aqui? A data não era conveniente?

Bem, são tantas as variáveis para avaliação que cabe fazer algumas digressões sobre essa temática.

É inegável que de Imperatriz despontaram, nas últimas três décadas – que acompanhei, pois em janeiro completo quatro décadas nesta cidade –, diversos nomes que repercutiram no cenário da música regional, estadual e mesmo nacional. Temos aqui, insistindo e resistindo na difícil trincheira tocantina, muitos nomes que não fariam feio em nenhum palco nacional. Vozes como as de Neném Bragança, Lena Garcia (para falar só dos que aqui residem), e alguns outros que se destacaram posteriormente, nada devem à maioria dos grandes artistas internacionais. A diferença é que os outros têm a mídia e os degraus dos grandes palcos em seu favor.

Lourival Tavares – assim como Neném Bragança – tem timbre vocal que se iguala ao de um Alceu Valença, ao de um Zé Ramalho, ao de um Xangai… mesmo que menos lapidada. Lena não fica atrás das divas da MPB, e até supera muitas delas. E temos bons compositores: Zeca Tocantins, Neném Bragança, Henrique Guimarães… e tantos mais. E se incluirmos os que migraram, incluiremos artistas como Carlinhos Veloz, Erasmo Dibell, Chiquinho França (instrumental), Wilson Zara e outros mais.

Por que, então, eles não conseguem público em sua própria cidade?

O artista ‘prata da casa’ e a falta de público – II

24 de dezembro de 2009

Por que, então, eles não conseguem público em sua própria cidade?

Creio que as circunstâncias sejam muitas, mas cito apenas duas.

Primeiramente, há que considerarmos que o sucesso, atualmente, depende mais da mídia que da qualidade do trabalho do artista. Hoje, é a repetição exaustiva da música nas emissoras de rádo e TV quem fabrica o sucesso. Se os artistas não são tocados, também não serão conhecidos, nem seus trabalhos desejados.

Em segundo lugar, as emissoras de rádio especializaram-se em ser produtoras de shows, priorizando em sua programação diária a execução do trabalho dos artistas de seu próximo evento. E as emissoras de televisão, a não ser nos noticiários, quase nenhum espaço dão às expressões culturais locais.

Lembro que no comecinho dos anos ’80, em Imperatriz, o jovem Márcio Lee lançou um compacto simples (tempos do vinil) que passou a ser tocado diariamente no encerramento da programação da retransmissora local da Rede Globo (não era a Mirante ainda) – naquela época, as tevês não faziam exibição 24 horas; encerravam a programação nas primeiras horas da madrugada. Em vista disso, toda a cidade conhecia sua música e o disco esgotou rapidamente.

Não vou aqui, como muitos, colocar a culpa na falta de apoio público, na inexistência de políticas públicas eficientes para a cultura. Reconheça-se que dezenas de trabalhos – discos, livros etc. – foram patrocinados tanto pelos órgãos governamentais quanto pelo setor privado e, mesmo assim, não se fizeram conhecidos por si só. Não existindo notícias, comentários, críticas ao trabalho artístico na imprensa; se não é mostrado, exibido, praticamente ele não existe para o grande público.

Numa de suas composições, Neném Bragança resume o que creio ser a frustração dos artistas que sabem ter potencialidades para grandes vôos, já experimentaram algum sucesso fora, mas sequer são reconhecidos em sua terra: “Sou prata da casa, volto por voltar”.

Em nossa cultura maranhense, de subvalorização própria e de baixa estima, é geralmente necessário, antes, fazer sucesso fora para se destacar em âmbito local. Há menos de dois meses, Wilson Zara fez um show na Romano’s Pizzaria para um público de aproximadamente duas mil pessoas, que de tão encantado fez com que o músico esticasse sua apresentação até as quatro da manhã. Quando cantava em seu Caneleiros (antiga e excelente casa em que se apresentavam diariamente os artistas locais e regionais), era também “prata da casa”, e tinha que “correr” muito para não fechar as portas, o que por fim não pôde evitar.

E nos tempos do Caneleiros, assisti ao Chiquinho França ser obrigado por numeroso público (mais que o máximo que cabia a casa) a alongar por mais de trinta minutos sua exibição instrumental, e só conseguiu terminá-la por força de muita determinação. Sua versão pop/rock da 5.a Sinfonia de Bethoven, se popularizada, certamente faria grande sucesso. E nem falemos de como ele toca Pink Floyd. Por méritos pessoais, mesmo sem ser conhecido nacionalmente, suas composições pessoais foram trilha sonora de reportagens do Fantástico e do Globo Repórter mais de vinte vezes.

Diante desses fatos, de ontem e de hoje, avalio que Imperatriz não menospreza seus artistas. Os que os conhecem, valorizam-nos; o grande público, que os desconhece e pouco contato têm com seu trabalho, não pode ser culpado por menosprezo.

Uma sociedade, um país, uma região, uma cidade eleva sua autoestima sobretudo pela força e destaque de sua arte. São Luís até hoje vive das glórias da antiga “Atenas maranhense”; a Europa tem como principal orgulho o seu tesouro artístico, que anualmente atrai milhões de pessoas.

É preciso que valorizemo-nos a nós mesmos se queremos que os outros nos reconheçam. E isso é responsabilidade de todos.

Abro aqui um post-scriptum para reconhecer também outros grandes artistas locais de outros gêneros musicais, como a música sertaneja nordestina, em que temos o Pedro Bispo, o Monteirinho do Acordeon e, mais recentemente, o grupo Cabrobó, de musicalidade mais moderna. Há muita gente aqui e daqui fazendo sucesso também com a música sertaneja da moda, essa do Centro-Oeste e Sudeste, tais como Juliano Reis & Jordão e César & Mateus. E incluamos também a música clássica e erudita, em que se deve destacar os corais do maestro Pietrini, a banda municipal, e agora, a dupla formada pelo violinista Junior Schubert e o violonista Marck Jhonnes, o primeiro, com estudo clássico de piano, que passou a dedicar-se ao violino, e o segundo, formado em música clássica.

O Natal e os vendilhões de Noel

23 de dezembro de 2009

Natal!

As ruas fervilham de veículos com pessoas apressadas, inquietas, dividindo espaço com pedestres que se atropelam nas calçadas desalinhadas, altas e baixas, ou mesmo nas pistas, fora das faixas, numa agitação alucinada e incomum fora dessa época. Automóveis, motocicletas, carroças, bicicletas e pedestres imitam uma incessante correição de formigas nesse inconsciente festejo de gastanças patroneado por um sorridente velhinho chamado Papai Noel.

Nesse período, contemplo-me com um invariável recesso de trabalho por, pelo menos, 15 dias, a começar das proximidades do dia de Natal, e isolo-me para apenas ler e escrever.

Há tempos fiz-me avesso a essas festas e promoções que visam apenas promover o consumo de bens supérfluos que, no restante do ano, as pessoas geralmente não sentem falta. Já nem sei quantos anos há que não atravesso o centro comercial nesse tempo de ofertas baratas e facilitadas de felicidade consumista com intenção de comprar algo.

Atravessei nesta semana o que restou do largo da praça de Fátima, frente à Catedral, e imediatamente me veio à mente a inevitável comparação com o cenário bíblico dos vendilhões do templo, uma algazarra típica de mercado público que costumeiramente ocorria frente ao Templo de Jerusalém no período da Páscoa judaica, uma vez desmantelada a pontapés por Jesus, indignado diante do desrespeito religioso e do oportunismo dos comerciantes. Não consegui evitar esse paralelismo. Talvez o fato de manter-me distante desses festejos comerciais tenha favorecido essa visão crítica.

Aprendi, na primeira infância, a olhar o Natal e outras datas religiosas com reverência. Mesmo na minha adolescência e juventude, quando não me aproximava muito de qualquer igreja, mantive um comportamento respeitoso diante dos valores e dos símbolos sagrados. Ainda na juventude, movido por valores/sentimentos de com/paixão humana, que se apossaram de mim a partir de então — creio que influenciado pelos livros e pelo cinema —, formou-se em mim uma personalidade desejosa de igualdade social, justiça e solidariedade, que mais tarde vim encontrar correspondência na Igreja profética da Teologia da Libertação. Passei a ter como ideal utópico (também acredito que não se vive sem sonhos, sem esperança, sem utopia!) o comunismo; não esse comunismo político, reducionista, emparedado por teorias estreitas e práticas ditatoriais, mas por comunismo sociológico, liberto; uma sociedade fraterna, sem riquezas extremas nem pobrezas excludentes, uma sociedade de direitos e oportunidades iguais, talvez a terra sem males.

Creio que minhas convicções me levaram à contraposição com a “normalidade” social, levando-me cada vez mais à oposição das alegrias e festividades momentâneas que atualmente se celebram.

Sob o prisma religioso do Natal, por exemplo, não consigo deixar de perceber que o pobre menino Jesus do presépio perdeu seu lugar para um velhinho gordo e bem nutrido chamado Papai Noel, para quem se arma tendas frente à Igreja e nas casas comerciais com a finalidade de promover as vendas e o consumismo.

O menino de Belém, que se tornou depois o homem de Nazaré, um galileu desprendido da riqueza, contrário à posse dos bens supérfluos e em excesso, não representa uma boa figura para o Natal dos tempos atuais. Por isso não tem mais espaço nem convite nessa festa. Esse menino sem realeza não é digno de um presépio diante da principal praça principal da cidade; aí, se instala a “casa” do novo rei dos festejos, o sorridente velhinho Noel, vestido em roupas brilhantes e cercado de luzes tremeluzentes, num ambiente mágico e ilusório que obscurece a mente das crianças e motiva a disposição de gastança dos pais.

Esse é o reflexo de uma sociedade que cultiva valores fugazes, que busca felicidade momentânea e tropeça em seus próprios valores, que conduzem ao egocentrismo, ao individualismo, à solidão e à frustração, males que devem marcam fortemente o século XXI, destruindo as pessoas e as sociedades.

Não é de se estranhar que na cúpula de Copenhague, nestes dias, Estados Unidos e China, as grandes potências de agora, mesmo sob a ameaça se ver comprometida a vida na terra, se mantenham indiferentes aos apelos do resto do mundo. Esse comportamento é fruto dessa cultura individualista e insensível ao outro, que coloca o dinheiro e o poder acima de tudo e de todos. É essa cultura que derruba Jesus de sua manjedoura de natal para em seu lugar construir a “casa” de Papai Noel.

Dói muito em mim essa percepção/concepção, mas nem minha mente nem minha consciência me permitem ficar calado nem retornar à inconsciência, à ingenuidade. Os ingênuos são mais felizes. Bem-aventurados os cegos…

E eu, sou obrigado a torturar-me com minhas convicções, das quais não consigo me arredar. E como o poeta nicaraguense Juan Gonzalo Rose, pergunto-me:

[...]

Por que não amei somente /as rosas repentinas, / as marcas de junho, /as luas sobre o mar?

Por que tive de amar /a rosa e a justiça, /o mar e a justiça, /a justiça e a luz?

Imperatriz, MA, 20 de dezembro de 2009

[Republicado com alterações, em 23.12.2009]

Salimp no Youtube

10 de novembro de 2009

Quem não teve oportunidade ter estado no 7.o Salão do Livro de Imperatriz (Salimp), tem a oportunidade de ver mais de uma dezenas de reportagens e vídeos desse evento no youtube. Fazendo uma busca nessa ferramenta da internet, encontra-se desde partes das palestras de Gabriel O Pensador e Caco Barcelos; execuções musicais de do violinista Júnior Schubert e do maestro e saxofonista Zé Neném (José de Ribamar da Paz, de Grajaú, MA); apresentações teatrais, de mágico; crianças de uma escola no trenzinho da alegria indo para o Salimp; entrevistas de TV etc.

Vale a pena conferir: www.youtube.com