No mundo da lua (crônica)

Por vezes, e muitas vezes, viajo, me refugio, por dias inteiros, e noites adentro – vezes amanheço – num país sem fronteiras, sem barreiras, sem aduanas… ao mesmo tempo sem nome e com todos os nomes… sei lá… talvez a Pasárgada de Lobato, “onde a mais doida fantasia é o cotidiano do homem normal”, no dizer de Casais Monteiro.
Bêbedo de encanto e de encontros, atravesso o Parnaíba, rumo pelas veredas dos pastos bons, de mananciais de águas transparentes; sigo as pegadas de Paula Ribeiro pelo Manoel Alves Grande e ladeio o Tocantins até a Carolina; acompanho os viajantes pelo vieiro das Figuras; descortino os segredos do Baixão, vislumbro a serra da Desordem, a taba do Governador; reconheço os caminhos de Leão Leda, deparo-me com as escaramuças de Nicolau… emparelho-me com os vareiros do Grajaú…
Na Barra do Corda de Isaac Martins, me transformo no tipógrafo d’O Norte, qual Séchard na obra de Balzac, e aí, com Souza Bispo, Maranhão Sobrinho e Parsondas de Carvalho, publicamos literatura e fazemos libelos contra os tiranos.
Encontro Jasão e os argonautas singrando o Mearim, em expedição vingativa, em busca do velocino, levado pra ilha do Maranhão pelo pirata lord Cochrane… O duque de Caxias, cruel, mandando trucidar os balaios… Os sertanejos derramados pelas matas, em êxodo feito pela perversa polícia de Benedito Leite…
Personagens e lugares que povoam minha mente. Que vão e vêm, não exatamente nessa ordem… Geralmente sem cronologia ou lógica de tempo e espaço. O descendente antes do precedente, por que não? Ora, que é o tempo? E o espaço?
Reais ou imaginários?
Sinto-me como Vítor Gonçalves Neto, sempre viajante, em busca de sua cidade misteriosa nunca encontrada; a colcha de retalhos “feita de um bairro de Paris com uma rua de Codó e as gôndolas de Veneza deslizando no rio Itapecuru”; país sem fronteiras que “se limita com Jerusalém e o Jardim do Seridó”; ao mesmo tempo “Teresina e Alexandria”. Lugar onde “de um lado se fala hebraico e do outro a língua tupi com budistas de mãos dadas com a rainha Elizabeth cantando o Pisa na fulô”.
Onde o real e o imaginário?
Afinal, o que é a verdade? Não é ela também a fantasia?
Teria razão Lacan? Serei eu uma construção imaginária ou são esses instantes de loucura?

[Portado originalmente no dia 21.06.2008]

Deixe um comentário