Arquivo de abril de 2009

O primeiro registro do sul do Maranhão

quarta-feira, 29 de abril de 2009

berford_roteiro_capaweb1Lançado em São Luís na última quinta-feira, 23, o livro Roteiro e mapa da viagem da cidade de São Luís do Maranhão até a Corte do Rio de Janeiro, de Sebastião Gomes da Silva Berfort, durante o seminário “O Maranhão oitocentista”, organizado por professores de história da UEMA e UFMA, que na sexta-feira, 24, lançaram a coletânea de artigos O Maranhão oitocentista. Os dois livros levam o selo da Ética Editora (o segundo, em coedição com a EDUEMA).

A viagem de Sebastião Gomes da Silva Berford – fidalgo também conhecido na historiografia como Belfort, família de origem portuguesa radicada no Maranhão –, de que trata a obra, foi realizada em cumprimento de uma carta régia de 1798, do então príncipe regente de Portugal dom João (depois dom João VI), é o registro inicial do povoamento dos sertões maranhenses, antecedendo em quase uma década os trabalhos do militar português Francisco de Paula Ribeiro, referência maior sobre o processo de ocupação dos sertões dos Pastos Bons.

Nesse seu itinerário de viagem, Berford registra nomes e distâncias das vilas, arraiais, freguesias, fazendas, rios, ribeirões e riachos; descreve as condições de caminhos e pastos, registrando léguas, braças e dias de viagem.

Visita e descreve o efêmero Arraial do Príncipe Regente, fundado por Paula Ribeiro  nas margens do rio Itapecuru, numa tentativa do governo da Província assegurar a “tranquilidade” aos criadores, que viviam em constante perigo de ataques indígenas.

Esse relato havia sido publicado pela Imprensa Régia no Brasil com data de 1810, não tendo depois disso nenhuma reimpressão. É, portanto, um dos maiores resgates editoriais para a historiografia maranhense.

Pode ser adquirido através da loja virtual da Ética Editora <www.eticaeditora.com.br>

“Maranhão oitocentista”, livro e simpósio em São Luís

terça-feira, 21 de abril de 2009

ma_oitocentista_capawebProfessores da Universidade Estadual do Maranhão (UEMA) e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) promovem, em São Luís, de 22 a 24 de abril, o “Simpósio de História do Maranhão oitocentista”, reunindo docentes e pesquisadores de diferentes instituições de ensino do Estado, além de um professor convidado, vinculado à Universidade Federal Fluminense, com o objetivo de debater pesquisas correlatas ao século XIX recentemente desenvolvidas no Maranhão.

A organização dos trabalhos tem como base os principais temas abordados pelas pesquisas, relacionadas às temáticas da construção do Estado; escravidão; religião; gênero e família; literatura, ensino, livro e leitura. Será ainda destacado o tema “Documentos e arquivos”, com o propósito de publicizar cada vez mais o acervo documental existente no Estado sobre o Oitocentos. 

Na tarde do dia 24, será lançado livro O Maranhão Oitocentista, publicado pela Ética  Editora em parceria com a Editora da Universidade Estadual do Maranhão (Eduema). Trata-se de uma coletânea de artigos científicos de quatorze professores mestres e doutores da UEMA e UFMA, coordenada pelos professores Marcelo Cheche Galves e Yuri Costa. A obra tem  407 páginas e será vendido a preço promocional durante o evento.

No dia anterior, 23, quinta-feira, acontecerá o lançamento do livro “Roteiro e viagem da cidade de São Luís do Maranhão até a Corte do Rio de Janeiro”, realizada em 1809 por Sebastião Gomes da Silva Berford, por ordem da Carta Régia de 1798, que manda descobrir o rio Tocantins no Maranhão e incentivar sua navegação. É o primeiro documento que descreve o povoamento do sul do Maranhão. A publicação e o selo são também da Ética Editora.

Post Scriptum (10.05.2009)

O lançamento ocorreu na data, horário e local previstos, com grande acorrência. Cheguei a São Luís ao meio-dia, retornando de Salvador, e tomei parte no evento, encerrado com um coquetel.

Editor de Imperatriz debate questão do livro na Bienal de Salvador

quinta-feira, 16 de abril de 2009

O editor imperatrizense Adalberto Franklin, da Ética Editora, é um dos convidados para debater, na 9.ª Bienal Internacional do Livro de Salvador, que ocorre na segunda quinzena deste mês, a produção e distribuição do livro no Nordeste. 

No dia 22, ele será um dos expositores do painel “Breve panorama do livro no Nordeste”, do qual participarão mais oito editores nordestinos, com mediação de José Castilho, coordenador do Programa Nacional do Livro e da Leitura, do MEC. No dia seguinte, Adalberto Franklin fará um relato sobre sua experiência editorial, em mesa redonda que reúne, além dele, somente editores baianos, sob a mediação de Ricardo Oiticica, cátedra Unesco de Leitura e professor da PUC-Rio.

Essas exposições e debates fazem parte do “II Fórum da Rede Nordeste do Livro e da Leitura”, que nessa Bienal se reúne sob o tema “Reflexões sobre o livro na Bahia e no Nordeste”, sob promoção do Ministério da Cultura e da Secretaria de Estado da Cultura da Bahia.

Com o painel “Breve panorama do livro no Nordeste”, espera-se que seja apresentado “um  panorama  sintético  das  ações  que  acontecem  em cada  estado  quanto  ao  investimento  na  cadeia  produtiva  do  livro”  (criação,  edição,  distribuição, venda  e  recepção), com o  objetivo  “trocar,  criar  interlocução  entre  parceiros,  bem  como  equiparar as ações de  cada estado da  região, a partir de discussões que a Rede  se proponha a  realizar”. 

Na condição de debatedores, estarão Aurélio Schommer (CBal) e Lucia Carneiro (FPC), da Bahia; Mileide Flores, do Ceará; Cineas Santos, do Piauí; Adalberto Franklin (Etica Editora), do Maranhão; Arnaldo Afonso (Editora Bagaço), de Pernambuco;  Heitor, da Paraíba; Sergipe – Cláudia Stocker, de Sergipe; Wilma Nóbrega, de Alagoas; e Abimael Silva (Sebo Vermelho, do Rio Grande do Norte. 

As discussões têm como fim o efetivo desenvolvimento e redação dos Planos Estaduais do Livro  e  Leitura  que  garantam  a  formação  de  uma  frente nordestina sobre  o  tema,  bem  como  de  ações específicas em cada estado.

Por sua vez, a mesa redonda “Experiências editoriais” tem como objetivo discutir as experiências editoriais baianas e nordestinas com o sentido de encontrar diagnóstico para a situação do pouco desenvolvimento da indústria do livro no Nordeste, bem como propor soluções e sugestões para um Plano Estadual do Livro e da Leitura/Lei Estadual do Livro e da Leitura. Nesse debate, o único editor não baiano a participar da mesa é Adaberto Franklin.

A Ética Editora, dirigida por Adalberto Franklin, tem mais de 300 títulos publicados, e vem se destacando como uma das mais produtivas casas publicadoras do Nordeste.

O Progresso (Imperatriz, MA), 16 abr 2009

De Imperatriz para o Reino Unido

quarta-feira, 15 de abril de 2009

 

sararoberts_capaweb7cm1Está em fase de conclusão o terceiro livro em língua estrangeira produzido pela Ética Editora, o primeiro, porém, destinado a um público exclusivamente estrangeiro. Poems for an awesome God (literalmente, “Poemas para um Deus impressionante”), da inglesa Sara Roberts, deverá ser lançado ainda neste semestre na Inglaterra.

Por indicação de Henrique Barros, um missionário imperatrizense que há alguns anos vive com a família na Inglaterra, como missionário evangélico, a autora resolveu publicar seu primeiro trabalho literário pela Ética. 

Sara não fala português e nunca esteve no Brasil. Seu livro será lançado inicialmente em Harpenden, cidade onde reside, localizada no sudeste do país, considerada uma das oito mais ricas do Reino Unido e a de custo de vida mais elevado, depois de Londres.

A capa do livro, elaborada pelo novo design da Ética, Railson Santana, já está aprovada. A imagem é da região dos Lagos, em fotografia de Henrique Barros.

Imperatriz no “Vídeo Show”

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Nesta segunda-feira, o programa Vídeo Show, da Rede Globo, estreou novo formato, agora ao vivo, com novos apresentadores e repórteres. Isso creio que não seja grande novidade, quase todo mundo sabe, porque esse é um programa de muita audiência, pois é apresentado antes das 14h, logo em seguida ao Jornal Hoje.  

O que quero dizer aqui é que, nos próximos dias, o Vídeo Show deve mostrar algo que é relevante para Imperatriz; um produto made in Imperatriz, que enaltecerá por certo a cidade no aspecto intelectual: uma das novas repórteres do programa, Geovanna Tominaga, uma japonesinha (mesmo com seus 29 anos, completados no domingo) que apresentava o TV Globinho, e que na estréia, hoje, fez uma longa entrevista com o ator e diretor de novelas Jorge Fernando, deverá “inaugurar” e mostrar no programa o seu site pessoal, produzido pela “S1 Soluções Inteligentes”, uma empresa de desenvolvimento de sistemas de Imperatriz composta e dirigida somente por jovens com idade abaixo de 30 anos, mas com um invejável portfolio de trabalhos prestados para empresas de várias regiões brasileiras. Vale a pena escrever aqui o nome deles: Bruno Gomes, Terry Laundos, Marcelo Paiva, Stefan Oliveira, Eduardo Franklin, Herson Leite, Rael Maxi e Elizeu Freitas. 

O site de Geovanna trará diversas inovações tecnológicas, ainda pouco utilizadas, tanto no campo da linguagem de programação quanto em dinâmica visual. A linguagem de programação utilizada foi a “Django”, escrito em “Python”, recentemente adotada pelo Google e também pela Rede Globo. Para a dinâmica de animação, foi empregada a biblioteca “Jquery”, escrita em “Java Script”.

Recentemente, Stefan Oliveira, um dos membros da equipe, apresentou sua tese de mestrado em Engenharia de Software, na Universidade Vale dos Sinos (Unisinos/RS), tendo como tema o processo de desenvolvimento de sistemas na “S1 Soluções”

Ainda nesta semana, o site, que já pode ser visto “em construção” no endereço definitivo (www.geovannatominaga.com.br), estará totalmente disponibilizado.

Uma vergonha, um desabafo

domingo, 12 de abril de 2009

A convite da Secretaria de Cultura da Bahia e da Rede Nordeste do Livro e da Leitura, deverei fazer uma breve palestra e participar de uma mesa-redonda na IX Bienal Internacional do Livro de Salvador, dias 22 e 23 deste mês, tratando da produção, difusão, distribuição e venda do livro produzido no Nordeste. As palestras e debates do evento servirão para subsidiar o “desenvolvimento e redação dos Planos Estaduais do Livro  e  Leitura”, especialmente o da Bahia. 

Pedem-me, porém, que no painel “Breve panorama do livro no Nordeste”, em que estarão oito outros editores (um de cada estado nordestino), sob a moderação do coordenador do Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), José Castilho, do MEC, devo apresentar, entre outras, respostas às seguintes perguntas: 1) a Secretaria de Educação adota, de alguma maneira, livros de autores locais? 2) O Estado tem política de bibliotecas públicas?

Exatamente aí estão questões que não poderei responder sem arranhar a imagem dos governos do Maranhão e de Imperatriz. 

Tenho consciência de que fui convidado porque a Ética Editora, fundada por mim há dezoite anos, vem se destacando no cenário editorial nordestino por seus mais de trezentos títulos publicados – mais de quarenta novos títulos somente no ano passado. Contraditoriamente, Imperatriz, a cidade que a sedia, não tem uma biblioteca pública.

Isso me foi “lembrado” publicamente, pela primeira vez, dois anos atrás, em Carolina, onde se realizava um fórum estadual de cultura, informando que este município não teria direito a recursos do MinC para ampliação de acervos, porque não possuía biblioteca em funcionamento, somente um “depósito de livros”. Vários outros municípios maranhenses foram contemplados. 

Cabe lembrar que o prédio da “biblioteca” pública de Imperatriz foi desativado em 2002, na administração do prefeito Jomar Fernandes, transferindo-a para uma sala do prédio da Secretaria de Educação, também provisório, nas proximidades do Centro de Convenções. Era intenção construir outro prédio para a biblioteca, o que não ocorreu. O governo seguinte, de Ildon Marques, promoveu muita algazarra criticando na imprensa o “abandono” da biblioteca, mas nada fez. Já no final de seu governo, o movimento “Ocuparte” ocupou o prédio abandonado da biblioteca e transformou-o em espaço cultural, ganhando com isso protestos e ações judiciais patrocinadas pela administração municipal. Estamos sob um novo governo municipal, mas não ouvi falar ainda em biblioteca… Desde a desativação da biblioteca, já se construiu um centro de artesanato, um “restaurante popular”, uma ponte sobre o rio Tocantins, retomou-se a construção da rodoviária (abandonada há mais de uma década), está sendo reformado o estádio municipal… E não se falou em biblioteca, esse equipamento ao que tudo indica descartável para uma cidade como esta, de 230 mil habitantes e quase cem mil estudantes.

Que direi, então?

Verdade é que desses mais de trezentos títulos, grande parte tratando de questões locais ou regionais, a Secretaria de Educação de Imperatriz nunca comprou sequer um exemplar da Ética Editora, nem mesmo quando a biblioteca municipal funcionava. Creio até que em nenhum tempo a Prefeitura de Imperatriz tenha realizado uma licitação para compra de livros. 

Um outro vexame: Com ar de galhofa, um livreiro que veio expor na Semana do Livro de Imperatriz, ano passado, revelou-me que recebera a visita do então secretário municipal de Educação do município e este, depois de mais de meia hora olhando livros, perguntou o preço de um e, obtendo a resposta, disparou: “Livro é muito caro”. E nada comprou. “Parece que o cara nunca comprou um livro”, disse-me o livreiro. 

E a Secretaria de Estado da Educação? Bem, essa licitou mais de dez milhões de reais em livros somente no ano passado, mas quase nenhum de autor maranhense, a não ser que editado nas grandes editoras do sul-sudeste. No final de 2007, essa secretaria publicou um edital de compra de livros em que constavam 42 títulos da Ética Editora, que foram retirados do lote, sem qualquer explicação, uma semana antes da licitação. Outras editoras do Maranhão? Não há! 

Faça-se justiça à Secretaria de Estado da Cultura, única que tem adquirido, mesmo com muito menor poder de compra, livros de autores maranhenses. E até patrocinado a publicação de várias obras.

Assim, as bibliotecas escolares e os “faróis” da educação devem estar repletos de livros alienígenas, de literatura estrangeira, e poucas obras maranhenses (mesmo dos “consagrados”). Exatamente o contrário do que estão fazendo outros estados, que reservaram por lei 30% das compras de livros destinados às bibliotecas públicas e escolares para a literatura regional. E assim decidiu também a Secretaria de Cultura do Maranhão, que deverá coordenar as compras para o PNLL, a partir de agora, nessa proporção.

A despeito de termos ou não uma biblioca pública ou uma política municipal ou estadual para o livro e a leitura, a Ética Editora lança em abril mais de dez novos títulos – cinco em São Luís, quatro em Teresina e três ou quatro em Imperatriz.  

Ah!, acaba de chegar-me um e-mail da Marla Silveira, coordenadora do PNLL no Maranhão, informando sobre uma “capacitação para gestores e auxiliares de bibliotecas”, na próxima semana, em São Luís. Será de interesse?…

O circo-teatro nos anos 70 em Imperatriz

domingo, 12 de abril de 2009

 

No começo dos anos 70, em Imperatriz, ainda não havia sinal de TV. Nós, adolescentes, divertíamo-nos à noite sentado nas calçadas recontando histórias de assombração e lendas que nossos avós contaram a nossos pais. Também, correndo pelas calçadas e ruas ainda não asfaltadas em brincadeiras de barra-bandeira ou outras estripulias de “homens”. Tínhamos, pelo menos, quatro a cinco cinemas, onde íamos, eu e muitos de meus amigos, nos finais de semana: Muiraquitã, Marabá, Brasil, Celimar… e depois o Fides e o Imperatriz, na Nova Imperatriz, único que não estive. Tornei-me um cinéfilo. Ficava praticamente doente se não assistisse a pelo menos dois filmes por semana.

Mas quero aqui falar mesmo é de circo, essa novidade que suspendia nossa rotina cultural. Quando um circo chegava – e vinham sempre, muitos de razoável porte –,  juventude se animava. Também muitos adultos. Um dos espaços preferidos era a quadra onde hoje está o SESI, próxima ao Mercadinho, que naquele tempo tinha apenas o prédio da Escola Marly Sarney, na Aquiles Liboa. Na grande praça de chão, instalava-se o circo com todos os seus agregados: carros, animais, trailers etc. Foi nesses circos que pela primeira vez assisti a peças teatrais – a cada dia, apresentavam uma nova, o diferencial do espetáculo que fazia o público voltar, já que o restante da apresentação se repetia. Romances, comédias, dramas, principalmente estes, compunham o repertório. Atrizes, especialmente estas, faziam-se verdadeiras divas do público, algumas com direito até a distribuição de postais com fotografias delas, autografados e vendidos, é claro!, porque isso fazia parte do negócio do circo, que não possuía patrocinadores, como a televisão. E faziam sucesso sem apelação nem baixarias grotescas como se vê agora. 

Mas, por que falo do circo? 

Terminei de ler, agora, uma comovente entrevista de Sula Mavrudis, uma mineira filha de gregos que na juventude se apaixonou pelo circo e agora busca criar a “Cidade do Circo”, talvez em Minas Gerais, para “tentar manter viva essa tradição que está se perdendo”. Justamente quando ela fala do circo-teatro, toca-me essa recordação e o sentimento de pertença e compartilhamento de um tempo quase esquecido. 

Rememoro essa época, especialmente, quando ela diz que “O circo-teatro era assim: começava com pequenos números de acrobacia, saltos, malabares, trapézio, mais ou menos uma hora de duração, e depois mais uma hora com um drama ou uma comédia. Toda noite era uma história diferente, para que o público pudesse ir várias vezes. Eles tinham repertório para ficar na cidade dois meses, cada dia com uma peça diferente.” A maioria dessas peças nunca foram publicadas e se perderam. Sula já recuperou o texto de mais de cinquenta delas. E continua o trabalho.

Ah!, quem quiser ler a reportagem, está na Revista de História da Biblioteca Nacional n. 42, de março, ainda nas bancas.

“O Sertão”, Carlota e Parsondas

sexta-feira, 10 de abril de 2009

mapaparsondas_escritoO amigo historiador e blogueiro Carlos Hermes, autor de “Oeiras e as lutas pela Independência no Norte do Brasil”, comenta no blog o tópico “Três mapas, uma polêmica”, em que revelo a descoberta de um mapa desenhado pelo sertanista sul-maranhense Parsondas de Carvalho, que reabre a polêmica sobre a autoria do livro “O Sertão”, creditado à sua irmã Carlota Carvalho. 

Diz ele que “Esses mapas me interessam muito conhecer. Nesse debate sobre a verdadeira autoria de O Sertão, faltou você se colocar também como defensor de Carlota, já que me lembro de ter lido algo de defesa tua contrapondo a Sálvio Dino. ”

A priori, nunca afirmei ser “O Sertão” de autoria de Carlota; sempre deixei margem em meus comentários para a possibilidade de ser esse livro alônimo (livro publicado com nome de outrem que não o verdadeiro autor). Em meu livro “Ofício das letras” (1995), dedico duas crônicas a essa obra e deixo clara essa possibilidade. 

É Sálvio Dino (AIL e AML)  verdadeiramente um dos maiores críticos de Carlota, a ponto de rechaçar sua (dela) capacidade cultural e até mesmo a chamá-la de semianalfabeta. No seu livro “Parsondas de Carvalho: um novo olhar sobre o Sertão” (Ética, 2007), chega a usar termos desonrosos para desqualificá-la. Waldir Braga (AIL), que ao lado de João Renôr F. de Carvalho (AIL e…) é um dos maiores defensores da tese de autoria de Carlota, assegura que os rompantes de Sálvio são preconceituosos, fruto de uma cultura machista que não admite ter uma mulher sertaneja escrevido um livro de tão elevada envergadura. Mas há muitas evidências em favor de Parsondas. Inclusive depoimentos de ex-alunos de Carlota denunciando possíveis limitações dessa enigmática mestra-escola.

Dois dos mais utilizados argumentos em favor de Carlota são: 1) Ela teria concluído o Curso Normal em Belém, no final do século XIX, com uma grade curricular de fazer inveja às atuais graduações de terceiro grau; 2) teria sido ela nomeada pelo governo do Pará, juntamente com seu irmão Emídio, primeira professora primária das ilhas de Bailique (no atual Amapá), região descrita com minúcias em “O Sertão”, enquanto Parsondas nunca teria estado no Amapá.

Outros argumentos contrários: Parsondas era reconhecidamente um grande intelectual, com atividades no Pará, em Goiás e no Rio de Janeiro, onde trabalhou no Jornal do Brasil quando era seu editor Rui Barbosa, fazia conferências na Capital Federal assistido por renomados intelectuais, enquanto não se tem notícia de qualquer outro trabalho de Carlota além de “O Sertão”. 

A descoberta desse mapa, feito “à mão com bico de pena e lápis de cor” “pelo sertanista maranhense Parsondas de Carvalho”, em que detalha o Brasil desde o “Oiapoc, com especificações relativas as famosos lagos do Cabo do Norte” (Amapá), em poder da Biblioteca Nacional, derruba uma das principais argumentações dos defensores de Carlota. Depois de algumas tentativas, o professor Alan Kardec Pacheco, da UEMA, doutorando em História na Universidade Federal Fluminense, conseguiu, com dificuldades, com que fossem feitas algumas fotografias desse mapa, já um tanto estragado pelo tempo. Uma cópia em CD foi-me entregue por ele no mesmo dia em que esse material chegou a São Luís, na semana passada.

Dias atrás, numa reunião da AIL, Sálvio Dino me perguntou que avaliação fazia eu após a descoberta desse mapa, porque, estava agora provado que Parsondas conhecera o Amapá e as ilhas de Bailique. Disse-lhe então que eu estava formulando uma hipótese nova acerca disso, tendo como ponto de partida o fato de o livro “O Sertão” sequer citar o nome de Parsondas, quando se refere a todos os demais parentes de Carlota, e que esta teria trabalhado em Bailique com seu irmão Emídio. Concebo agora a possibilidade de não ter sido Emídio o companheiro de Carlota pelas ilhas da foz do Amazonas, e sim o próprio Parsondas. O irmão Emídio de “O Sertão” seria, portanto, o próprio Parsondas, mais uma vez camuflado em sua costumeira discrição. Mas isso é assunto para outras lucubrações.

“O Sertão” é mesmo um livro de repercussão. Em 2000, tão logo eu e o professor Joãoo Renôr publicação sua segunda edição (a primeira foi em 1924, no Rio), o professor Matthias Röhrig, da Universidade de Essex (Inglaterra), recomendou-o como leitura obrigatória do curso de Mestrado em História do Maranhão, que coordenou em São Luís. Diversos outros estudos e até teses foram desenvolvidos a partir dessa obras em distintas faculdades brasileiras. Em 2002, em Macapá, onde proferi uma palestra na II Conferência da Amazônia, durante um jantar a doze pessoas — na verdade, de personalidades, apenas eu de “penetra”: o ainda não presidente Lula, o governador Capiberibe e a vice Dalva Figueiredo, o governador Jorge Viana (AC), o hoje ministro Luiz Dulci, o poeta Pedro Tierra, o atual presidente da Funai Márcio Meira, Cláudio Arroyo e outros que não me recordo — no restaurante do trapiche sobre o rio Amazonas, ao sabor de caldeiradas de peixes e outras iguarias regionais, o então governador João Capiberibe me revelou que fazia pesquisas sobre as ilhas de Bailique e gostaria que lhe enviasse um exemplar de “O Sertão”, ao qual ainda não tivera acesso. 

Para mim, no entanto, a questão da autoria de “O Sertão” é uma busca de ordem secundária diante da obra. Ou seja, a obra é maior que o(a) autor(a). Essa verdade histórica serviria mais para salvaguardar os méritos do autor, fazendo jus à sua biografia. Se chegarmos à conclusão de que foi Parsondas o autor de “O Sertão”, também teríamos que admitir que foi ele próprio quem quis alônimo o seu livro, em homenagem à irmã que o acompanhou durante toda a vida pelas fazendas dos sertões, matas e rios amazônicos, ensinando as primeiras letras aos jovens e publicando sentenças contra os poderosos, como era de seu estilo. 

Seja qual for o resultado dessa questão, “O Sertão” sempre trará estampado o nome de Carlota Carvalho como autora, como desde o princípio. Ela, que se tornou conhecida através dessa obra, o será sempre, alônima ou não.

Imperatriz “desamazonizada”?

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O leitor Carlos Leen, ativo acadêmico de História do CESI/UEMA, questiona a respeito da opinião da professora doutora geógrafa Berta Becker (questão do tópico “Berta Becker, a Amazônia e Imperatriz”): “Imaginava que a opinião da professora Bertha era comungada por alguns agronegociantes da região que com a desculpa de dizer que não mais pertencermos à região amazônica , querem de vez retirar-nos dessa condição de pertencimento, para destruir o pouco que ainda existe de matas pré-amazônicas. Talvez um assunto por demais polêmico deveria ser fruto de mais pesquisas não só geográficas mas também etnograficamente, socialmente e antropologicamente.”

Esclarecendo: a professora Berta Becker está em andamento com uma pesquisa sobre a “conectividade” de cidades amazônicas, tendo escolhido seis cidades para trabalho de campo, três capitais e três cidades interioranas: Rio Branco, Manaus, Belém, Parintins, Santarém e Imperatriz. Uma equipe de pesquisadores está fazendo os levantamentos bibliográficos e as pesquisa de campo. Estiveram em Imperatriz, no início do mês passado, as professoras pesquisadoras Cláudia Romanelli Nogueira e Vânia Maria Salomon G. de Carvalho, do Laboratório de Gestão do Território (Laget) do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), visitando entidades, conversando com pesquisadores e levantando acervos bibliográficos para essa pesquisa.

Mas, quanto à possível concepção de Becker de que a região maranhense de Imperatriz deveria ser excluída da Amazônia, se deve às mudanças das características geográficas regionais, tanto paisagísticas quanto econômicas e sociais que, creio, ela pretenderá demonstrar com suas pesquisas.

Sousa Lima, educador e literato

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O advogado Sérgio Saboya Lima se apresenta em comentário do blog como neto de Manoel de Sousa Lima, um imperatrizense que migrou na primeira metade do século passado para Boa Vista (atual Tocantinópolis, TO), onde desenvolveu atividades docentes, tendo sido o mais renomado mestre daquela localidade, onde seu tio, o famoso padre João Lima, era, desde o final do século XIX, o mandatário maior. 

Sérgio refere-se a um livro meu em que cito Manoel de Sousa Lima, conhecido também como professor Sabóia, e diz que gostaria de adquiri-lo. E adianta que tem “várias informações interessantes sobre meu avô, que poderá enriquecer as próximas edições de seu livro”. 

Não sei a qual livro ele se refere, porque não cita o título e ainda porque eu escrevi sobre Sousa Lima em pelo menos três livros: “Ofício das Letras” (1995), “Imperatriz: 150 anos” (2002) e “Breve história de Imperatriz” (2006). Creio também que o tenha citado no meu último livro, “Apontamentos e fontes para a história econômica de Imperatriz” (2008). 

Certo é que Sousa Lima merece um livro biográfico. É ele o precursos da literatura imperatrizense. Nascido em 1889, escreveu sete obras, segundo afirma Carlota Carvalho em “O Sertão”; pertenceu à Academia dos Novos de São Luís, precursora da Academia Maranhense de Letras, e à Casa Humberto de Campos, uma “academia” sertaneja sediada em Carolina, então capital cultural sul-maranhense.