“O Sertão”, Carlota e Parsondas
O amigo historiador e blogueiro Carlos Hermes, autor de “Oeiras e as lutas pela Independência no Norte do Brasil”, comenta no blog o tópico “Três mapas, uma polêmica”, em que revelo a descoberta de um mapa desenhado pelo sertanista sul-maranhense Parsondas de Carvalho, que reabre a polêmica sobre a autoria do livro “O Sertão”, creditado à sua irmã Carlota Carvalho.
Diz ele que “Esses mapas me interessam muito conhecer. Nesse debate sobre a verdadeira autoria de O Sertão, faltou você se colocar também como defensor de Carlota, já que me lembro de ter lido algo de defesa tua contrapondo a Sálvio Dino. ”
A priori, nunca afirmei ser “O Sertão” de autoria de Carlota; sempre deixei margem em meus comentários para a possibilidade de ser esse livro alônimo (livro publicado com nome de outrem que não o verdadeiro autor). Em meu livro “Ofício das letras” (1995), dedico duas crônicas a essa obra e deixo clara essa possibilidade.
É Sálvio Dino (AIL e AML) verdadeiramente um dos maiores críticos de Carlota, a ponto de rechaçar sua (dela) capacidade cultural e até mesmo a chamá-la de semianalfabeta. No seu livro “Parsondas de Carvalho: um novo olhar sobre o Sertão” (Ética, 2007), chega a usar termos desonrosos para desqualificá-la. Waldir Braga (AIL), que ao lado de João Renôr F. de Carvalho (AIL e…) é um dos maiores defensores da tese de autoria de Carlota, assegura que os rompantes de Sálvio são preconceituosos, fruto de uma cultura machista que não admite ter uma mulher sertaneja escrevido um livro de tão elevada envergadura. Mas há muitas evidências em favor de Parsondas. Inclusive depoimentos de ex-alunos de Carlota denunciando possíveis limitações dessa enigmática mestra-escola.
Dois dos mais utilizados argumentos em favor de Carlota são: 1) Ela teria concluído o Curso Normal em Belém, no final do século XIX, com uma grade curricular de fazer inveja às atuais graduações de terceiro grau; 2) teria sido ela nomeada pelo governo do Pará, juntamente com seu irmão Emídio, primeira professora primária das ilhas de Bailique (no atual Amapá), região descrita com minúcias em “O Sertão”, enquanto Parsondas nunca teria estado no Amapá.
Outros argumentos contrários: Parsondas era reconhecidamente um grande intelectual, com atividades no Pará, em Goiás e no Rio de Janeiro, onde trabalhou no Jornal do Brasil quando era seu editor Rui Barbosa, fazia conferências na Capital Federal assistido por renomados intelectuais, enquanto não se tem notícia de qualquer outro trabalho de Carlota além de “O Sertão”.
A descoberta desse mapa, feito “à mão com bico de pena e lápis de cor” “pelo sertanista maranhense Parsondas de Carvalho”, em que detalha o Brasil desde o “Oiapoc, com especificações relativas as famosos lagos do Cabo do Norte” (Amapá), em poder da Biblioteca Nacional, derruba uma das principais argumentações dos defensores de Carlota. Depois de algumas tentativas, o professor Alan Kardec Pacheco, da UEMA, doutorando em História na Universidade Federal Fluminense, conseguiu, com dificuldades, com que fossem feitas algumas fotografias desse mapa, já um tanto estragado pelo tempo. Uma cópia em CD foi-me entregue por ele no mesmo dia em que esse material chegou a São Luís, na semana passada.
Dias atrás, numa reunião da AIL, Sálvio Dino me perguntou que avaliação fazia eu após a descoberta desse mapa, porque, estava agora provado que Parsondas conhecera o Amapá e as ilhas de Bailique. Disse-lhe então que eu estava formulando uma hipótese nova acerca disso, tendo como ponto de partida o fato de o livro “O Sertão” sequer citar o nome de Parsondas, quando se refere a todos os demais parentes de Carlota, e que esta teria trabalhado em Bailique com seu irmão Emídio. Concebo agora a possibilidade de não ter sido Emídio o companheiro de Carlota pelas ilhas da foz do Amazonas, e sim o próprio Parsondas. O irmão Emídio de “O Sertão” seria, portanto, o próprio Parsondas, mais uma vez camuflado em sua costumeira discrição. Mas isso é assunto para outras lucubrações.
“O Sertão” é mesmo um livro de repercussão. Em 2000, tão logo eu e o professor Joãoo Renôr publicação sua segunda edição (a primeira foi em 1924, no Rio), o professor Matthias Röhrig, da Universidade de Essex (Inglaterra), recomendou-o como leitura obrigatória do curso de Mestrado em História do Maranhão, que coordenou em São Luís. Diversos outros estudos e até teses foram desenvolvidos a partir dessa obras em distintas faculdades brasileiras. Em 2002, em Macapá, onde proferi uma palestra na II Conferência da Amazônia, durante um jantar a doze pessoas — na verdade, de personalidades, apenas eu de “penetra”: o ainda não presidente Lula, o governador Capiberibe e a vice Dalva Figueiredo, o governador Jorge Viana (AC), o hoje ministro Luiz Dulci, o poeta Pedro Tierra, o atual presidente da Funai Márcio Meira, Cláudio Arroyo e outros que não me recordo — no restaurante do trapiche sobre o rio Amazonas, ao sabor de caldeiradas de peixes e outras iguarias regionais, o então governador João Capiberibe me revelou que fazia pesquisas sobre as ilhas de Bailique e gostaria que lhe enviasse um exemplar de “O Sertão”, ao qual ainda não tivera acesso.
Para mim, no entanto, a questão da autoria de “O Sertão” é uma busca de ordem secundária diante da obra. Ou seja, a obra é maior que o(a) autor(a). Essa verdade histórica serviria mais para salvaguardar os méritos do autor, fazendo jus à sua biografia. Se chegarmos à conclusão de que foi Parsondas o autor de “O Sertão”, também teríamos que admitir que foi ele próprio quem quis alônimo o seu livro, em homenagem à irmã que o acompanhou durante toda a vida pelas fazendas dos sertões, matas e rios amazônicos, ensinando as primeiras letras aos jovens e publicando sentenças contra os poderosos, como era de seu estilo.
Seja qual for o resultado dessa questão, “O Sertão” sempre trará estampado o nome de Carlota Carvalho como autora, como desde o princípio. Ela, que se tornou conhecida através dessa obra, o será sempre, alônima ou não.
10 de abril de 2009 às 17:53
Adalberto, muito interessante esse teu post sobre o livro O Sertão.
Também acho uma questão menor ficar preocupado com o autor, já que a na minha opinião um ou outro, de propósito ou não, quisera que ficasse na família Carvalho. E isso basta.
O importante é o conteúdo do livro, que é muito importante e ainda pouca gente conhece no nosso sul-maranhense.
A propósito, gostaria de sugerir que as cidades do centro e do sul-maranhense tivessem exemplares à venda. Também os professores de história e geografia tivessem acesso a esse livro.
Logicamente por um preço justo. Em São Luís, O Sertão é vendido por um preço astrônomico. Assim é exploração das brabas. Vide àquela livraria no “reviver”.
É isso!
10 de abril de 2009 às 20:56
Agradeçço pela aula, Adalberto. Mais uma que te devo. kkkkkkkkkk.
Quanto ao livro Heider, compre barato na livraria virutal. O preço é camarada.
Ética editora na net.
Abraço.
26 de abril de 2009 às 19:49
caro confrade Adalberto,
li e gostei das reflexões sobre os enigmaticos irmãos Parsondas/Carlota,os quais à luz da historia oral sertaneja tinham um caso incestuoso.Isso não é relevante e nem tão pouco nos interessa a vida amorosa deles.O que é relevante e o que nos interessa realmente é a vida do grande sertanista/historiador/poeta/jornalista e escritor Parsondas que tanto enobrece e em engrandece o nosso tão sonhado estado maranhão do sul.Por isso tentei resgatar a sua memoria.Procurei afundo nos arquivos publicos de Bélem o ato de nomeação da ilustrada para professora nas ilhas de Bailique.Nada encontrei.Gostaria que o nosso querido confrade Renor,profundo conhecedor da vida dos fatos importantes ocorridos na amazonia,nos desse uma valiosa ajuda a respeito.
26 de abril de 2009 às 20:02
a resopeito do mapa,preceso de uma copia dessa joia rara e valiosa.Para ilustrar a segunda edição do nosso já esgotado PARSONDAS DE CARVALHO,UM NOVO OLHAR SOBRE O SERTÃO.
30 de agosto de 2009 às 20:39
Sou adepto da idéia de que uma professora intinerante que palmou o sertão maranhense e detalhou seu espaço, sua cultura, sua economia, seus traços étnicos e cortou com palavras afiadas os potentos da política regional num majestos livro com uma narrativa invejável. É tão invejável que os doutos de hoje ainda se preocupam em repuduá-la, delatá-la como praticante de amores espúrios e de poucas letras. Mas não aprofundam e nem mesmo dão continuidade a uma obra histórica necessária ao enriquecimento da cultura científica regional a altura do Ela realizou. Um estudioso não pode estabelecer parâmetros de conteúdos para julgar uma autoria de um trabalho, mas vários outros fatores como os problemas levantados, as metodologias utilizadas, a abordagem da narrativa do trtabalho produzido.
Querem se aprofundar na iníqua polêmica busquem peritos em grafologia para averiguação de rascunhos. Ou façam uma leitura de textos comparados das obras que levam os nomes de ambos. Se isso não satisfazer aqueles que procuram entender o sertão pelo preconceito, só resta entender o sertão pelo SERTÃO que jamais deixará de ser DA AUTORA CARLOTA CARVALHO, mesmo desmerecendo-a e naltecendo seu mui amodo irmão.