Uma vergonha, um desabafo

A convite da Secretaria de Cultura da Bahia e da Rede Nordeste do Livro e da Leitura, deverei fazer uma breve palestra e participar de uma mesa-redonda na IX Bienal Internacional do Livro de Salvador, dias 22 e 23 deste mês, tratando da produção, difusão, distribuição e venda do livro produzido no Nordeste. As palestras e debates do evento servirão para subsidiar o “desenvolvimento e redação dos Planos Estaduais do Livro  e  Leitura”, especialmente o da Bahia. 

Pedem-me, porém, que no painel “Breve panorama do livro no Nordeste”, em que estarão oito outros editores (um de cada estado nordestino), sob a moderação do coordenador do Programa Nacional do Livro e da Leitura (PNLL), José Castilho, do MEC, devo apresentar, entre outras, respostas às seguintes perguntas: 1) a Secretaria de Educação adota, de alguma maneira, livros de autores locais? 2) O Estado tem política de bibliotecas públicas?

Exatamente aí estão questões que não poderei responder sem arranhar a imagem dos governos do Maranhão e de Imperatriz. 

Tenho consciência de que fui convidado porque a Ética Editora, fundada por mim há dezoite anos, vem se destacando no cenário editorial nordestino por seus mais de trezentos títulos publicados – mais de quarenta novos títulos somente no ano passado. Contraditoriamente, Imperatriz, a cidade que a sedia, não tem uma biblioteca pública.

Isso me foi “lembrado” publicamente, pela primeira vez, dois anos atrás, em Carolina, onde se realizava um fórum estadual de cultura, informando que este município não teria direito a recursos do MinC para ampliação de acervos, porque não possuía biblioteca em funcionamento, somente um “depósito de livros”. Vários outros municípios maranhenses foram contemplados. 

Cabe lembrar que o prédio da “biblioteca” pública de Imperatriz foi desativado em 2002, na administração do prefeito Jomar Fernandes, transferindo-a para uma sala do prédio da Secretaria de Educação, também provisório, nas proximidades do Centro de Convenções. Era intenção construir outro prédio para a biblioteca, o que não ocorreu. O governo seguinte, de Ildon Marques, promoveu muita algazarra criticando na imprensa o “abandono” da biblioteca, mas nada fez. Já no final de seu governo, o movimento “Ocuparte” ocupou o prédio abandonado da biblioteca e transformou-o em espaço cultural, ganhando com isso protestos e ações judiciais patrocinadas pela administração municipal. Estamos sob um novo governo municipal, mas não ouvi falar ainda em biblioteca… Desde a desativação da biblioteca, já se construiu um centro de artesanato, um “restaurante popular”, uma ponte sobre o rio Tocantins, retomou-se a construção da rodoviária (abandonada há mais de uma década), está sendo reformado o estádio municipal… E não se falou em biblioteca, esse equipamento ao que tudo indica descartável para uma cidade como esta, de 230 mil habitantes e quase cem mil estudantes.

Que direi, então?

Verdade é que desses mais de trezentos títulos, grande parte tratando de questões locais ou regionais, a Secretaria de Educação de Imperatriz nunca comprou sequer um exemplar da Ética Editora, nem mesmo quando a biblioteca municipal funcionava. Creio até que em nenhum tempo a Prefeitura de Imperatriz tenha realizado uma licitação para compra de livros. 

Um outro vexame: Com ar de galhofa, um livreiro que veio expor na Semana do Livro de Imperatriz, ano passado, revelou-me que recebera a visita do então secretário municipal de Educação do município e este, depois de mais de meia hora olhando livros, perguntou o preço de um e, obtendo a resposta, disparou: “Livro é muito caro”. E nada comprou. “Parece que o cara nunca comprou um livro”, disse-me o livreiro. 

E a Secretaria de Estado da Educação? Bem, essa licitou mais de dez milhões de reais em livros somente no ano passado, mas quase nenhum de autor maranhense, a não ser que editado nas grandes editoras do sul-sudeste. No final de 2007, essa secretaria publicou um edital de compra de livros em que constavam 42 títulos da Ética Editora, que foram retirados do lote, sem qualquer explicação, uma semana antes da licitação. Outras editoras do Maranhão? Não há! 

Faça-se justiça à Secretaria de Estado da Cultura, única que tem adquirido, mesmo com muito menor poder de compra, livros de autores maranhenses. E até patrocinado a publicação de várias obras.

Assim, as bibliotecas escolares e os “faróis” da educação devem estar repletos de livros alienígenas, de literatura estrangeira, e poucas obras maranhenses (mesmo dos “consagrados”). Exatamente o contrário do que estão fazendo outros estados, que reservaram por lei 30% das compras de livros destinados às bibliotecas públicas e escolares para a literatura regional. E assim decidiu também a Secretaria de Cultura do Maranhão, que deverá coordenar as compras para o PNLL, a partir de agora, nessa proporção.

A despeito de termos ou não uma biblioca pública ou uma política municipal ou estadual para o livro e a leitura, a Ética Editora lança em abril mais de dez novos títulos – cinco em São Luís, quatro em Teresina e três ou quatro em Imperatriz.  

Ah!, acaba de chegar-me um e-mail da Marla Silveira, coordenadora do PNLL no Maranhão, informando sobre uma “capacitação para gestores e auxiliares de bibliotecas”, na próxima semana, em São Luís. Será de interesse?…

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