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As outras vítimas da Guerrilha do Araguaia

Li agora, na Folha de S. Paulo, uma notícia em que o major Sebastião Curió revela ter o Exército executado 41 pessoas ligadas à Guerrilha do Araguaia, depois de presas e sem condições de oferecerem resistência. Noutra matéria, um morador da região do Araguaia afirmava ter presenciado a execução de alguns outros.

Rememorei um texto deixado por meu pai, parte de um pacote de umas quinhentas páginas de memórias, escritas à mão, em papel almaço pautado, entregues a mim um ano antes de sua morte, ocorrida há três anos.

Em 1970, trabalhando em Brasília como agente da extinta Companhia de Seguros Aliança Gaúcha, “seu” Martinho foi transferido para Imperatriz em 1971, para dirigir uma sucursal que essa empresa abria na cidade, a que mais despontava ao longo da rodovia aberta dez anos antes por Juscelino Kubitschek. Aqui, na primeira metade dos anos ’70, ele era também — soube disso mais de duas décadas depois — informante do governo militar, especialmente da Polícia Federal e do Exército. Ao contrário de muitos, com o passar do tempo e a posição política dos filhos, ele foi tomando outro caminho, passando, já na década final da vida, a fazer campanha ativa para candidatos do PT.

Não sei se tomado por esse novo espírito político, ou até mesmo por possíveis remorsos, ele registrou em suas memórias, escritas a meu pedido, alguns casos “escabrosos” daqueles tempos de arbitrariedades e torturas, dos quais ele foi testemunha.

O texto ao qual me referi acima, fala de uma vinda a Imperatriz do então delegado Sérgio Fleury, famoso delegado do DOPS, em São Paulo, à procura de uma pessoa que dava apoio à guerrilha, com base na cidade. Localizou, prendeu, torturou a matou o “infeliz”. Meu pai escreveu que, depois de torturá-lo e, mesmo assim, não ter conseguido as informações que desejava, Fleury colocou o pobre homem num helicóptero, sobrevoou as matas paraenses do Araguaia com ele dependurado por horas. E nem assim conseguindo mais informações, jogou-o do avião abaixo, na mata, de uma grande altitude.

Este é, certamente, apenas um dos muitos casos ocorridos na repressão à guerrilha. Aqui na região, dezenas de outros homens e também de mulheres foram torturados e mortos. Muitos eram apenas ribeirinhos, capiaus, sertanejos. Normalmente não são contados. Não eram filiados a partidos nem tinham sobrenomes ilustres. Não vieram de famosas faculdades nem conheceram pessoas importantes.

Muitos deles, hoje velhos e ainda anônimos, pobres, andam cabisbaixos por nossas ruas, e ainda não se atrevem a falar sobre esse passado aterrador, porque os torturadores também estão aí, nas ruas, geralmente em boa posição econômica, social e política… e ainda provocam medo. Veja-se o Curió, homem poderoso e temido no sul do Pará.

É como disse meu pai em outra crônica:

“Eu ainda vou escrever alguma coisa sobre esse episódio do qual fiz parte em serviços reservados. Às vezes penso em tanta coisa que já vi, ajudei e até participei […] que para muitos sequer existiram, mas aconteceram […] e quase todos os que participaram já não existem mais.”

Pena que ele tenha morrido antes de relatar tudo o que desejava.

One Comment

  1. Samuel Souza wrote:

    Ô Franklin, que bela nota. Ainda há muitas informações ocultas sobre o período da guerrilha… o fato é: como saber delas e divulgar?

    Abração amigo!

    sexta-feira, julho 3, 2009 at 08:52 | Permalink

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