Arquivo de julho de 2009

A Jesusalém de Mia Couto

quinta-feira, 30 de julho de 2009

África é uma das minhas paixões culturais. A dança e a música, tive oportunidade de conhecê-las cedo, seja pelos meios de comunicação ou e outros. No começo da década de 1980, Ladislau Dowbor trouxe-nos (a mim e ao meu irmão Gilberto) da África — creio que da Guiné Bissau, onde exerceu o cargo de coordenador técnico do Ministério do Planejamento – uma fita cassete com músicas de artistas africanas, algumas instrumentais. Ouvia-as quase diariamente em meu carro.

No começo deste julho, lamentavelmente devido à morte do pai, chegou a Imperatriz o estimado amigo Herivelto Marques, jovem sacerdote católico, missionário comboniano em Moçambique, me traz de presente duas pérolas: a primeira, um exemplar da “Bíblia Sagrada Africana”, lançada há cinco anos pela editora Paulinas, com riquíssimo notas de comentário de cunho cultural, histórico e arqueológico (tão preciosos que o professor João Renôr, que já lecionou História da África, presente na ocasião da entrega, tratou logo de conseguir também um exemplar); a segunda, um exemplar de “Jesusalém” (com “s” mesmo; não é Jerusalém), novo romance do premiado escritor moçambicano Mia Couto, 47 anos (mesma idade minha), lançado no mês de junho passado em Portugal.

Encanta em Jesusalém a singularidade lingüística, o encantamento do desencantamento humano de Silvestre Vitalino, o protagonista, que, com a morte da mulher, deixa o mundo dos viventes para isolar-se em lugar ermo, com os filhos pequenos, passando a dedicar-se ao exercício do silêncio e do apagamento das lembranças. Para ele, o mundo acabara; os demais homens já não existem. Restava somente Jerusalém, o lugar de apenas um casebre, onde passaram a residir.

Um trecho:

Vezes sem conta perguntávamos: por que estávamos ali, longe de tudo e de todos? Meu pai respondia:

— O mundo acabou, meus filhos. Apenas resta Jesusalém.

Eu era crente das palavras paternas. Ntunzi, porém, considerava tudo aquilo um delírio. Inconformado, voltava a indagar:

— E não há mais ninguém no mundo?

Silvestre Vitalício inspirava como se a resposta pedisse muito peito e, fazendo soltar um demorado suspiro, murmurava:

— Somos os últimos.

[...]

— Mas pai, conte-nos como faleceu o mundo?

— Na verdade já não me lembro.

— Mas o Tio Aproximado…

— O Tio conta muita história…

— Então, pai, nos conte o senhor.

— O caso foi o seguinte: o mundo acabou mesmo antes do fim do mundo… [...] Sobreviveu apenas este lugar.

Jesusalém é mesmo obra divina. Apaixonei-me por ela logo à primeira página.

O sertão dos Tinguis

sexta-feira, 24 de julho de 2009

… Um ponto isolado na geografia,

… Um povo anônimo na história,

… Uma geração marcada por tragédias e comédias que se ofuscaram no silêncio.

Por longos anos…

Décadas…

… mas nunca se lhes saíram da memória…

Tinguis é lugar e tempo. Um mundo que, como a água que corre no rio, não retorna à cabeceira. Seus personagens, fatos e circunstâncias sobrevivem na memória do autor, que também foi deles protagonista.

É lugar comum dos sertões maranhenses, antigos sertões dos Pastos Bons, onde a cultura cabocla dos criadores e vaqueiros estabeleceu uma singular civilização nordestina.

“Sombras dos Tinguis: crônicas sertanejas” é obra de João Francisco Chicô, gestada durante anos e agora transformada em livro, de quase 250 páginas, pela Ética Editora. Dele transborda a genuína cultura dos sertões, apanhada na fonte cristalina da vida, que se faz sob a claridade do escaldante sol sul-maranhense e à luz misteriosa do sete-estrelo, onde lendas e mitos se amalgamam com o cotidiano, numa natural simbiose que marca a terra e o povo sertanejo.

Esse livro, apaixonante pelos elementos lingüísticos e culturais que realça, deverá ser lançado em Imperatriz no mês de agosto, e até o final do ano em outras cidades maranhenses e piauienses.

Para ele, escrevi as orelhas com minhas considerações, a seguir transcritas:

*  *  *

Tinguis é um lugar. Um pequeno povoado perdido nos sertões do leste maranhense, onde a vida corre lenta e monótona como a água do riacho. Seus habitantes labutam dia após dia nos mesmos afazeres que seus antepassados e obedecem aos mesmos ritmos das únicas estações do tempo conhecidas — o inverno e o verão.

O lombo do burro ou do jumento é o transporte do cotidiano; com sela, cangalha, jacá ou surrão. Comum é ver-se “um jumento, uma cangalha, quatro cambitos, a lenha amarrada, um cachorro a companheiro e um homem a tocar o rumo, assobiando”, diz Chicô.

Nos finais de tarde, vê-se os homens retornando de suas roças, geralmente com um pedaço de pau chamuscado às costas, para servir de lenha. À bainha de couro, presa à cintura, não falta um facão comprido, ferramenta de uso diário. E, por vezes, uma pequena cabaça, rústico cantil recepiendário de cristalina água para aplacar a sede.

Nas madrugadas, ainda com lamparina acesa, acorda-se com o cantar do galo e o bater do catolé dos bilros das senhoras rendeiras, hábeis também com a roda de fiar e o fuso de mão. Incansáveis mulheres que, logo ao sair do sol, postam-se de rodilha na cabeça em direção à fonte, para abastecer os nobres potes da bilheira e o solitário pote da cozinha. Sem descanso, ainda preparam o desjejum da cabroeira.

Os meninos tinguileses cedo correm a verificar e armar suas arapucas, porque o dia é curto e os outros afazeres os esperam: afugentar as aves da roça; de badogue à mão, sair em perseguição aos desavisados passarinhos que teimam em ficar sob sua mira; tomar banho no riacho ou na lagoa; brincar de bola de mão; deslizar na montanha de palha de arroz da usina e, no começo da noite, participar do “bombaquim”, da “lagarta pintada”, da “lacochia”, do “tum-tum” e de outras brincadeiras que se fazem logo depois do jantar. Ou então simplesmente olhar o céu acinzelado se fazendo negro, dando relevo às reluzentes estrelas, para as quais não se pode apontar, sob pena de ver-se nascerem verrugas no corpo. E vibrar com as estrelas cadentes que se despencam do céu rumo ao desconhecido.

Nada de extraordinário, porém. Esse Tinguis é lugar comum, da mesma forma que o Cumbe, o Tabocal, o Timorante, o Manajó…

É um pedaço característico dos sertões maranhenses, onde impregnou-se a cultura rústica dos vaqueiros e criadores nordestinos. Todos iguais… mas extintos.

Sobrevivem agora apenas na memória dos que viveram nesse mundo pastoril, como o autor, João Francisco, o Chicô.

O tempo, senhor da história, resolveu mudar essas práticas e costumes. Mas Chicô, menino travesso dos Tinguis, tratou de rememorá-las nesta obra.

Adalberto Franklin

Da Academia Imperatrizense de Letras e daAcademia de Letras,História e Ecologia daRegião Integrada de Pastos Bons.

PS: O lançamento desse livro acontecerá no dia28 de agosto, no auditório da Academia Imperatrizense de Letras,

mas já está disponível na loja virtual da Ética Editora: www.eticaeditora.com.br

Celso Barros Coelho e a memória de Pastos Bons

quinta-feira, 23 de julho de 2009

capa_celso-barros_7cmNesta sexta-feira, 24 de julho, o jurista e intelectual Celso Barros Coelho, 86 anos, lança em sua terra natal, Pastos Bons, o livro “Tempo e memória: Pastos Bons”, em solenidade da Academia de Letras, História Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons. O livro reúne 21 artigos do autor publicadas no jornal “Pastos Bons” e é dividido em seis capítulos temáticos, que recebem comentários do João Renôr F. de Carvalho, doutor em história e professor da UFPI: 1) Memórias da infância; 2) Literatura; 3) A história dos sertões de Pastos Bons; 4) Ecologia e Pastos Bons; 5) Impressões de uma viagem; 6) Discursos na Academia. A pedido do autor, escrevi as orelhas do livro (163 páginas), que carrega o selo da Ética Editora.

Homem por excelência acadêmico, Celso Barros Coelho foi presidente da secção piauiense da Ordem dos Advogados do Brasil, da Academia Piauiense de Letras e da Academia Piauense de Letras Jurídicas; é sócio correspondente da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia Carioca de Letras; membr0 do Instituto Histórico e Geográfico Brasilero; é fundador e presidente da  Academia de Letras, História Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons. Tem mais de 50 livros publicados.

Transcrevo, abaixo, o texto das orelhas que escrevi para esse livro:

Tempo e memória: Pastos Bons são escritos que evocam os mais lídimos sentimentos de um homem que volve o olhar para si mesmo e vislumbra passado e presente de sua vida longeva, marcada por situações e acontecimentos de reconhecida expressão social e elevada importância pessoal.
O autor, Celso Barros Coelho, nascido há mais de três quartos de século nos verdes sertões maranhenses de Pastos Bons, galgou as escadarias do mundo; subiu ao pedestal do conhecimento, fez-se mestre e doutor, cidadão honrado em outras terras, sem perder a lembrança do pedaço de chão onde deixou enterrado o umbigo. O magistério, as lides jurídicas, os embates políticos e o fazer literário, cultivados desde a mocidade, não foram suficientes para apagar as marcas do tempo pretérito — esse lapso periódico que estabelece cronologia e idade aos seres e coisas — e olvidar as lembranças guardadas de si mesmo, de lugares, realidades e fatos que marcaram sua existência.
Agora portador do aguçado olhar crítico da ciência e da serena sabedoria da experiência de vida, Celso Barros mergulha no personalíssimo mundo interior e daí volve à tona as recordações da infância, do tempo, lugares e pessoas que cruzaram sua vida e povoaram sua mente, evocados pela memória.
São, na expressão de Carlota Carvalho, “reminiscências históricas” quase esquecidas, que têm “o valor de um monumento, que desperta recordações, umas sentimentais, outras bucólicas; outras prazenteiras, alegres; algumas tristes, dolorosas”. Alegres, como rever os Fortes, palco e cenário da infância, dos banhos de bica na cachoeira; tristes, como a devastação da outrora viçosa vegetação que davam vida aos muitos córregos e riachos perenes, agora filetes d’água a denunciar a ação depredadora do vivente hodierno.
Intelectual orgânico, segundo a concepção de Gramsci, Celso Barros Coelho usa conhecimento e tempo em favor dos ideais que o movem desde sempre, e, no presente, projeta-os para o futuro, entregando às novas gerações as preocupações e responsabilidades que o porvir exige.

Adalberto Franklin
Membro da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia de Letras, História e Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons.

Imperatriz, 157 anos: uma história bem contada

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Na quinta-feira, 15 de julho, véspera do aniversário de Imperatriz, assumi a tarefa de selecionar em minha biblioteca alguns livros que abordam a história de Imperatriz, para apresentá-los durante entrevista no “Bom dia Tocantins”, programa da TV Difusora Sul (SBT).

Claro que antemão sabia que chegam a dezenas as obras, dos diversos gêneros, que relatam aspectos históricos da cidade. São pesquisas históricas propriamente ditas, crônicas, biografias, relatórios, ensaios, monografias, artigos científicos e jornalísticos etc. Sou o editor de grande parte delas.

Esse exercício, porém, serviu-me para reafirmar que Imperatriz é uma das cidades mais retratadas em obras literárias. São mais de cinco dezenas de títulos.

Procurei estabelecer as principais obras que, a meu ver, compõem a bibliografia básica da história do município. Relaciono, abaixo, as doze obras que considero indispensáveis à compreensão da história de Imperatriz (a ordem é cronológica):

1. Eu, Imperatriz, de Edelvira Marques de Moraes Barros. Goiânia: Rio Bonito, 1972.

2. História do Sul do Maranhão, de Eloy Coelho Neto. Belo Horizonte: São Vicente, 1979.

3. Imperatriz: subsídios para a história da cidade, de Mílson Coutinho. São Luís: Sioge, 1994.

4. Imperatriz: memória e registro, de Edelvira Marques de Moraes Barros. Imperatriz: Ética, 1996.

5. Simplício Moreira: precursor do desenvolvimento de Imperatriz, de Zequinha Moreira. Imperatriz: Ética, 1997.

6. Imperatriz, 18 anos: o que vi, li e ouvi, de Livaldo Fregona. Imperatriz: Ética, 1998.

7. Imperatriz: 150 anos. [Coletânea de textos de membros da AIL]. Imperatriz: AIL, 2002.

8. Enciclopédia de Imperatriz, de Edmilson Sanches (org.). Imperatriz: Instituto Imperatriz, 2002.
9. O Sertão, de Carlota Carvalho. [1. ed.: Rio: 1924] 3. ed. Imperatriz: Ética, 2006.

10. Breve história de Imperatriz, de Adalberto Franklin. Imperatriz: Ética, 2006.

11. A ocupação do solo no centro urbano de Imperatriz, de Cristina Silva e Elaine Gomes. Imperatriz: Ética, 2008.

12. Apontamentos e fontes para a história econômica de Imperatriz, de Adalberto Franklin. Imperatriz: Ética, 2008.