O sertão dos Tinguis
… Um ponto isolado na geografia,
… Um povo anônimo na história,
… Uma geração marcada por tragédias e comédias que se ofuscaram no silêncio.
Por longos anos…
Décadas…
… mas nunca se lhes saíram da memória…
Tinguis é lugar e tempo. Um mundo que, como a água que corre no rio, não retorna à cabeceira. Seus personagens, fatos e circunstâncias sobrevivem na memória do autor, que também foi deles protagonista.
É lugar comum dos sertões maranhenses, antigos sertões dos Pastos Bons, onde a cultura cabocla dos criadores e vaqueiros estabeleceu uma singular civilização nordestina.
“Sombras dos Tinguis: crônicas sertanejas” é obra de João Francisco Chicô, gestada durante anos e agora transformada em livro, de quase 250 páginas, pela Ética Editora. Dele transborda a genuína cultura dos sertões, apanhada na fonte cristalina da vida, que se faz sob a claridade do escaldante sol sul-maranhense e à luz misteriosa do sete-estrelo, onde lendas e mitos se amalgamam com o cotidiano, numa natural simbiose que marca a terra e o povo sertanejo.
Esse livro, apaixonante pelos elementos lingüísticos e culturais que realça, deverá ser lançado em Imperatriz no mês de agosto, e até o final do ano em outras cidades maranhenses e piauienses.
Para ele, escrevi as orelhas com minhas considerações, a seguir transcritas:
* * *
Tinguis é um lugar. Um pequeno povoado perdido nos sertões do leste maranhense, onde a vida corre lenta e monótona como a água do riacho. Seus habitantes labutam dia após dia nos mesmos afazeres que seus antepassados e obedecem aos mesmos ritmos das únicas estações do tempo conhecidas — o inverno e o verão.
O lombo do burro ou do jumento é o transporte do cotidiano; com sela, cangalha, jacá ou surrão. Comum é ver-se “um jumento, uma cangalha, quatro cambitos, a lenha amarrada, um cachorro a companheiro e um homem a tocar o rumo, assobiando”, diz Chicô.
Nos finais de tarde, vê-se os homens retornando de suas roças, geralmente com um pedaço de pau chamuscado às costas, para servir de lenha. À bainha de couro, presa à cintura, não falta um facão comprido, ferramenta de uso diário. E, por vezes, uma pequena cabaça, rústico cantil recepiendário de cristalina água para aplacar a sede.
Nas madrugadas, ainda com lamparina acesa, acorda-se com o cantar do galo e o bater do catolé dos bilros das senhoras rendeiras, hábeis também com a roda de fiar e o fuso de mão. Incansáveis mulheres que, logo ao sair do sol, postam-se de rodilha na cabeça em direção à fonte, para abastecer os nobres potes da bilheira e o solitário pote da cozinha. Sem descanso, ainda preparam o desjejum da cabroeira.
Os meninos tinguileses cedo correm a verificar e armar suas arapucas, porque o dia é curto e os outros afazeres os esperam: afugentar as aves da roça; de badogue à mão, sair em perseguição aos desavisados passarinhos que teimam em ficar sob sua mira; tomar banho no riacho ou na lagoa; brincar de bola de mão; deslizar na montanha de palha de arroz da usina e, no começo da noite, participar do “bombaquim”, da “lagarta pintada”, da “lacochia”, do “tum-tum” e de outras brincadeiras que se fazem logo depois do jantar. Ou então simplesmente olhar o céu acinzelado se fazendo negro, dando relevo às reluzentes estrelas, para as quais não se pode apontar, sob pena de ver-se nascerem verrugas no corpo. E vibrar com as estrelas cadentes que se despencam do céu rumo ao desconhecido.
Nada de extraordinário, porém. Esse Tinguis é lugar comum, da mesma forma que o Cumbe, o Tabocal, o Timorante, o Manajó…
É um pedaço característico dos sertões maranhenses, onde impregnou-se a cultura rústica dos vaqueiros e criadores nordestinos. Todos iguais… mas extintos.
Sobrevivem agora apenas na memória dos que viveram nesse mundo pastoril, como o autor, João Francisco, o Chicô.
O tempo, senhor da história, resolveu mudar essas práticas e costumes. Mas Chicô, menino travesso dos Tinguis, tratou de rememorá-las nesta obra.
Adalberto Franklin
Da Academia Imperatrizense de Letras e daAcademia de Letras,História e Ecologia daRegião Integrada de Pastos Bons.
PS: O lançamento desse livro acontecerá no dia28 de agosto, no auditório da Academia Imperatrizense de Letras,
mas já está disponível na loja virtual da Ética Editora: www.eticaeditora.com.br
27 de julho de 2009 às 16:19
um filme passou na minha mente ao ler esse pequeno texto. Sempre Adalberto, ahh, encontrei com o prof. Dowbor e ele lhe mandou um abraço.
inté!