Arquivo de 24 de dezembro de 2009

O artista ‘prata da casa’ e a falta de público – I

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Para um pequeno público, o cantor/compositor Lourival Tavares realizou ontem à noite uma apresentação no Teatro Ferreira Gullar, depois de três anos sem cantar nesta cidade, onde ele começou a despontar no meio musical no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980, e onde residem seus pais e avós.

Estive lá e verifiquei que as poucas dezenas de presentes eram pessoas ligadas à cultura e à comunicação, em sua maioria amigos do artista. Daí me vieram alguns questionamentos: A cidade menospreza seus artistas? O gênero MPB tem pouco público na cidade? A obra de Lourival é desconhecida aqui? A data não era conveniente?

Bem, são tantas as variáveis para avaliação que cabe fazer algumas digressões sobre essa temática.

É inegável que de Imperatriz despontaram, nas últimas três décadas – que acompanhei, pois em janeiro completo quatro décadas nesta cidade –, diversos nomes que repercutiram no cenário da música regional, estadual e mesmo nacional. Temos aqui, insistindo e resistindo na difícil trincheira tocantina, muitos nomes que não fariam feio em nenhum palco nacional. Vozes como as de Neném Bragança, Lena Garcia (para falar só dos que aqui residem), e alguns outros que se destacaram posteriormente, nada devem à maioria dos grandes artistas internacionais. A diferença é que os outros têm a mídia e os degraus dos grandes palcos em seu favor.

Lourival Tavares – assim como Neném Bragança – tem timbre vocal que se iguala ao de um Alceu Valença, ao de um Zé Ramalho, ao de um Xangai… mesmo que menos lapidada. Lena não fica atrás das divas da MPB, e até supera muitas delas. E temos bons compositores: Zeca Tocantins, Neném Bragança, Henrique Guimarães… e tantos mais. E se incluirmos os que migraram, incluiremos artistas como Carlinhos Veloz, Erasmo Dibell, Chiquinho França (instrumental), Wilson Zara e outros mais.

Por que, então, eles não conseguem público em sua própria cidade?

O artista ‘prata da casa’ e a falta de público – II

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Por que, então, eles não conseguem público em sua própria cidade?

Creio que as circunstâncias sejam muitas, mas cito apenas duas.

Primeiramente, há que considerarmos que o sucesso, atualmente, depende mais da mídia que da qualidade do trabalho do artista. Hoje, é a repetição exaustiva da música nas emissoras de rádo e TV quem fabrica o sucesso. Se os artistas não são tocados, também não serão conhecidos, nem seus trabalhos desejados.

Em segundo lugar, as emissoras de rádio especializaram-se em ser produtoras de shows, priorizando em sua programação diária a execução do trabalho dos artistas de seu próximo evento. E as emissoras de televisão, a não ser nos noticiários, quase nenhum espaço dão às expressões culturais locais.

Lembro que no comecinho dos anos ’80, em Imperatriz, o jovem Márcio Lee lançou um compacto simples (tempos do vinil) que passou a ser tocado diariamente no encerramento da programação da retransmissora local da Rede Globo (não era a Mirante ainda) – naquela época, as tevês não faziam exibição 24 horas; encerravam a programação nas primeiras horas da madrugada. Em vista disso, toda a cidade conhecia sua música e o disco esgotou rapidamente.

Não vou aqui, como muitos, colocar a culpa na falta de apoio público, na inexistência de políticas públicas eficientes para a cultura. Reconheça-se que dezenas de trabalhos – discos, livros etc. – foram patrocinados tanto pelos órgãos governamentais quanto pelo setor privado e, mesmo assim, não se fizeram conhecidos por si só. Não existindo notícias, comentários, críticas ao trabalho artístico na imprensa; se não é mostrado, exibido, praticamente ele não existe para o grande público.

Numa de suas composições, Neném Bragança resume o que creio ser a frustração dos artistas que sabem ter potencialidades para grandes vôos, já experimentaram algum sucesso fora, mas sequer são reconhecidos em sua terra: “Sou prata da casa, volto por voltar”.

Em nossa cultura maranhense, de subvalorização própria e de baixa estima, é geralmente necessário, antes, fazer sucesso fora para se destacar em âmbito local. Há menos de dois meses, Wilson Zara fez um show na Romano’s Pizzaria para um público de aproximadamente duas mil pessoas, que de tão encantado fez com que o músico esticasse sua apresentação até as quatro da manhã. Quando cantava em seu Caneleiros (antiga e excelente casa em que se apresentavam diariamente os artistas locais e regionais), era também “prata da casa”, e tinha que “correr” muito para não fechar as portas, o que por fim não pôde evitar.

E nos tempos do Caneleiros, assisti ao Chiquinho França ser obrigado por numeroso público (mais que o máximo que cabia a casa) a alongar por mais de trinta minutos sua exibição instrumental, e só conseguiu terminá-la por força de muita determinação. Sua versão pop/rock da 5.a Sinfonia de Bethoven, se popularizada, certamente faria grande sucesso. E nem falemos de como ele toca Pink Floyd. Por méritos pessoais, mesmo sem ser conhecido nacionalmente, suas composições pessoais foram trilha sonora de reportagens do Fantástico e do Globo Repórter mais de vinte vezes.

Diante desses fatos, de ontem e de hoje, avalio que Imperatriz não menospreza seus artistas. Os que os conhecem, valorizam-nos; o grande público, que os desconhece e pouco contato têm com seu trabalho, não pode ser culpado por menosprezo.

Uma sociedade, um país, uma região, uma cidade eleva sua autoestima sobretudo pela força e destaque de sua arte. São Luís até hoje vive das glórias da antiga “Atenas maranhense”; a Europa tem como principal orgulho o seu tesouro artístico, que anualmente atrai milhões de pessoas.

É preciso que valorizemo-nos a nós mesmos se queremos que os outros nos reconheçam. E isso é responsabilidade de todos.

Abro aqui um post-scriptum para reconhecer também outros grandes artistas locais de outros gêneros musicais, como a música sertaneja nordestina, em que temos o Pedro Bispo, o Monteirinho do Acordeon e, mais recentemente, o grupo Cabrobó, de musicalidade mais moderna. Há muita gente aqui e daqui fazendo sucesso também com a música sertaneja da moda, essa do Centro-Oeste e Sudeste, tais como Juliano Reis & Jordão e César & Mateus. E incluamos também a música clássica e erudita, em que se deve destacar os corais do maestro Pietrini, a banda municipal, e agora, a dupla formada pelo violinista Junior Schubert e o violonista Marck Jhonnes, o primeiro, com estudo clássico de piano, que passou a dedicar-se ao violino, e o segundo, formado em música clássica.