Arquivo de janeiro de 2010

Carlota Carvalho: de Imperatriz para o Brasil

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

No início desta noite, telefona-me de Teresina o professor João Renôr, recém-aposentado como docente do curso de Mestrado em História da UFPI, devendo vir até o final do ano residir em sua chácara no povoado Cumaru, a quarenta quilômetros de Imperatriz. É para dar “uma boa notícia”: o Conselho Editorial da UFPI acabava de eleger o livro que lhe cabe indicar anualmente para publicação na “Coleção Nordestina”, da ABEU (Associação das Editoras Universitárias Brasileiras). Trata-se de “O sertão: subsídios para a história e a geografia do Brasil”, de Carlota Carvalho, que teve sua primeira edição publicada no Rio de Janeiro, em 1924, quando a autora residia no território de Imperatriz.

Até 2000, quando eu e Renôr organizamos e publicamos a segunda edição desse livro, 76 anos após sua primeira edição, era ele uma obra considerada raríssima, mesmo porque em 1924 haviam sido impressos somente 500 exemplares. No Maranhão, conheciam-se apenas dois exemplares dele, em mãos de particulares. A partir dessa edição de 2000, o livro de Carlota começou a popularizar-se, inclusive no meio acadêmico, regional e brasileiro, já existindo diversos artigos científicos e dissertações de pós-gradução tratando dele.

Esgotada a segunda edição, resolvi, em 2006, organizar uma edição comentada, acrescida de um perfil biográfico da autora, um “índice onomástico explicativo-remissivo” e ainda 101 notas explicativas ao texto, num total de mais de 60 páginas, todas elaboradas por mim, mantendo ainda a Apresentação de João Renôr, feita para a segunda edição, com 52 páginas. O conjunto desses acréscimos deu a esse importante livro regional maior consistência, fazendo-o ainda mais estimado no meio acadêmico.  É exatamente esta terceira edição, da mesma forma em que foi publicada pela Ética, a versão escolhida para publicação pela ABEU.  Será mantida até mesmo a editoração, com 442 páginas, que coincide com o formato da “Coleção Nordestina”.

Com mais de 60 títulos publicados, a “Coleção Nordestina” reúne obras indicadas pelas instuições de ensino superior que integram a ABEU, que as difunde em livrarias universitárias e eventos literários em todo o país, como as bienais e feiras de livros. Dentre os autores publicados estão Joaquim Nabuco, Gilberto Freire, Pedro Américo, Adolfo Caminha, Manoel Correia de Andrade, Câmara Cascudo, Gilberto Amado, Patativa do Assaré, Francisco Julião, Miguel Arraes e muitos outros. João Renôr teve um trabalho seu editado em 2007, “Resistência indígena no Piauí colonial”, que também havia sido publicado antes pela Ética.

De acordo com informativo da Universidade Federal de Pernambuco, a “Coleção Nordestina” “foi lançada com o objetivo de publicar ou republicar obras representativas da produção intelectual do Norte e Nordeste do Brasil, nas áreas de Literatura, Ciências Sociais, Antropologia, Folclores e outras, de modo a constituir-se, no futuro, em repositório bibliográfico da Arte, da Cultura e da Ciência regionais, apto a preservar esse patrimônio e difundi-lo permanentemente em escala nacional.”

Meu encontro com Elomar

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Como nesta noite resolvi não fazer nada, pus-me a escrever — para mim, escrever crônica é passatempo; serve como relaxamento, desopilação. Então, terminado o “post” anterior, resolvi continuar a história do Roberto, meu amigo baiano que não vejo há quase três décadas. Até porque estou com preguiça de continuar a revisar as 180 páginas que ainda restam de um livro de contos que estou editando.

A questão agora é meu encontro com Elomar.

Não, não foi um encontro pessoal com o menestrel, mas com a música dele.

Creio que estávamos em 1981. O Roberto me convocou: “Vamos lá em casa (ele morava sozinho num apartamento, na Getúlio Vargas, próximo à rua Ceará). Quero te mostrar uma coisa.” E nem disse o que era. Fomos.

Ao entrarmos, disse: “Vou te mostrar um disco muito bom, de um cara lá de minha cidade.” E puxou o álbum duplo, LP, vinil, “Na quadrada das águas perdidas”, que colocou pra tocar. Ouvi então uma música totalmente diferente de tudo o que já tinha ouvido. Havia lamento sertanejo misturado com música medieval, acordes clássicos, palavras caboclas… Demorei a digerir o gênero. Mas percebi que era uma preciosidade artística.

Como disse Vinícius de Moraes, as composições de Elomar são “uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos cavalheiros e menestréis errantes [...]; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão [...]”.

Pois foi assim também que passei a ver a música de Elomar. Campo branco, que está nesse álbum, sempre digo, não precisa de letra; basta a música. Até melhor sem letra, porque, por si mesmo, essa música é bem superior a qualquer palavra que possa ser dita. Cabe bem aqui o que diz o apóstolo Paulo: “a letra mata”. Sim, a palavra limita. O espírito, a sonoridade, é que dá vida.

A propósito disso, um dia de julho de 2007, em Carolina, jantando frente a frente com o pianista Arthur Moreira Lima, que participou da gravação dessa música (só instrumental; sem a letra) para o disco “Consertão”, de Elomar, juntamente com dois outros grandes músicos, Paulo Moura e Heraldo Dumonte, mantivemos uma longa conversa, sobre vários assuntos, principalmente história, e, num momento, perguntei a ele sobre essa música. Ele, que conhece o mundo físico do globo terrestre e também o mundo imaterial da música, afirmou que compositor como Elomar, que junta com maestria cantigas medievais com a musicalidade nordestina, não existe outro. Anos depois, vi que esse disco “Consertão” era paixão de dois outros amigos: padre Cícero Marcelino e Edmilson Sanches.

Um outro fato: um dia, dei de presente à cantora evangélica Íris — minha vizinha no começo dos anos 70, a quem vi tocando violão ainda menina, com menos de dez anos – o LP “Elomar em concerto”, que contém diversos fragmentos de inspiração religiosa de sua Antifonaria Sertani. Uns quinze anos depois, Íris me afirmou que aquele disco foi decisivo em sua escolha para estudar violão clássico.

Outra música de Elomar eu coloco entre as minhas “top ten”: Cantiga de amigo. É um clássico que nos remete aos tempos de Gil Vicente. Nas vozes de Elomar e Xangai, juntos, é insuperável. Ou era, até eu assistir ao vídeo de um concerto realizado recentemente na Casa dos Carneiros, fazenda Gameleira, em que mora Elomar, no sertão baiano, quando essa música foi executada com grande orquestra, solistas líricos e vocais de Elomar, Xangai, Saulo Laranjeira e Décio Marques. Está no Youtube.

Como Elomar é avesso a fazer shows, gosta mais de compor que de cantar em público, praticamente não aparece na grande mídia (à qual é ele também arredio), nunca tive esperança de vê-lo cantar um dia em Imperatriz. Mas há tempos vinha tentando conseguir partituras de sua obra, na expectativa de que alguém destas barrancas se atravesse a executá-las num hipotético concerto. Eis que agora (na verdade, no finalzinho de 2008) Elomar autoriza uma editora a publicar a obra “Elomar: cancioneiro”, um álbum com 14 cadernos, contendo 49 partituras de suas composições adaptadas para voz e violão.

Assim, ainda há chance!

No ano que vem fará 30 anos que conheci Elomar.

O que fazer quando não se tem o que fazer?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Sou viciado por trabalho. Perdi boa parte da minha infância e juventude por causa disso. Antes dos doze anos já dava oito horas de expediente por dia e estudava à noite. Desde então nunca mais parei. Até agora, 35 anos depois, não lembro ter tirado três férias de trinta dias. Virei então o que hoje chamam de wokaholic, pessoa que trabalha por compulsão, ou seja, é viciado em trabalho.

Tornei-me, com isso, inquieto, desassossegado, quando não estou fazendo nada. Quando assim, corro à minha biblioteca e escolho um livro para ler ou reler; ou então, sento à frente do notebook e fico pesquisando “novidades” ou “curiosidades” – o buscador Google tem sido meu parceiro de descobertas. Às vezes também escrevo uma crônica ou artigo.

Foi assim que, sem tempo para tarefas maiores em momento de ócio, tive a idéia de procurar no Orkut um amigo de juventude que há quase três décadas deixou Imperatriz em retorno para a Bahia. Digitei o nome completo dele e apareceu a sua página logo em primeiro lugar. Figura fácil de reconhecer, mesmo depois de tanto tempo. Continua magro; o rosto pouco mudou… e continua na mesma profissão, só que em cargo público elevado. Mas verifiquei que separou-se da mulher com a qual e por causa da qual teve que sair “correndo”, ou melhor, “fugindo” de Imperatriz, porque a família dela não queria o namoro.

Foi ele, o Roberto, então um jovem contador, boêmio, na época radioamador PX como eu, responsável por duas boas novidades em minha vida. A primeira, ter me vendido, ainda lacrada, uma poderosa antena quadra cúbica para meu rádio Cobra 148 GTL, que me permitia falar com o mundo todo. Era a mais potente antena da “faixa cidadão” da região, o que fazia de mim um “tubarão”, termo que na linguagem desse ramo quer dizer “poderoso”. Até fundamos um clube de radiomadores, ao qual denominamos “Tubarões do Tocantins”, que se tornou conhecido em toda a América Latina e mesmo em outros continentes. Tínhamos quase duzentos sócios espalhados pelo Brasil e em outros países. Havia bate-papo todo dia, principalmente à noite. Rodadas de conversas numa linguagem codificada que, pelo nível de domínio dos códigos, percebia-se o “grau” do falante. Eu era o Beto, PX8C-0426, presidente do Grupo dos Tubarões do Tocantins.

Naquele tempo, quando ainda nem sonhávamos com Internet, a Faixa Cidadão do radioamador equivalia, nas proporções devidas, ao que é hoje o MSN. Conversávamos “ao vivo”, por voz, com pessoas das mais diferentes localidades; fazíamos amizades; éramos também “comunidade”. Podia ser um caminheiro em viagem pelas estradas brasileiras, um tripulante de um navio no Pacífico, um morador de uma remota localidade da Amazônia, ou mesmo alguém do outro lado da cidade. O Roberto foi um importante companheiro nessas peripécias.

A outra grande novidade que ele me trouxe, como bom baiano de Vitória da Conquista, foi apresentar-me Elomar, o cantador das árias sertânicas do rio Gavião, maior menestrel do mundo. Na quadrada das águas perdidas. Vi, ouvi e nunca mais deixei de escutar e apreciar. Mas isso é tema para outra crônica.

Colinas e o Arraial do Príncipe Regente

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dílson Guimarães, um leitor deste blog, informa que está escrevendo um livro sobre o antigo e extinto Arraial do Príncipe Regente, fundado pelo militar português Francisco de Paula Ribeiro na primeira década do século XIX, por ordem do Governo do Maranhão, com o fim de proteger os criadores que começavam a ocupar com fazendas os sertões do leste maranhense e favorecer a navegação do rio Itapecuru. O Arraial existiu por pouco tempo, sendo devassado pelos índios.

A questão que ainda indaga muitos pesquisadores é: onde ficava mesmo o Arraial?

Dílson afirma ter encontrado vestígios e artefatos de antigos moradores numa área no município de Mirador e acredita ter sido nesse local o antigo Arraial do Príncipe Regente.

A partir de pesquisas que venho fazendo há anos e de documentos cartográficos do século XIX que me chegaram às mãos ultimamente – o mapa do roteiro de Sebastião Gomes da Silva Berford, que publiquei no livro “Viagem da cidade de S. Luís do Maranhão até a Corte do Rio de Janeiro” (do mesmo Berford) e do “Mappa Geographico da Capitania do Maranham”, de 1919, primeiro mapa que descreve com detalhes a parte sul do Maranhão, desenhado por Francisco de Paula Ribeiro e que se imaginava desparecido (encontrado e digitalizado agora pela Biblioteca Nacional, em excelente estado) – posso afirmar que o velho Arraial localizava-se pouco abaixo da confluência dos rios Alpercatas e Itapecuru, exatamente onde fica hoje a cidade de Colinas.

Destaquei, em resposta a recente comentário de Dílson Guimarães feito a postagem que fiz meses atrás neste blogo, o argumento abaixo:

“Para mim, [...] depois de avaliar o mapa elaborado por Francisco de Paula Ribeiro  (fundador do Arraial), recentemente digitalizado pela Biblioteca Nacional, fica evidente que o Arraial do Príncipe Regente ficava pouco abaixo da confluência dos rios Alpercatas e Itapecuru, próximo à margem deste rio, praticamente o mesmo local em que a cartografia atual indica a cidade de Colinas.

“Também, pelo relatório de Sebastião Berford, que esteve no Arraial de 26 de outubro a 2 de novembro de 1809 e fez um relato detalhado do lugar, verifica-se que a distância que ele contabiliza, saindo daí até chegar a Pastos Bons, é de cerca de 20 léguas, a distância aproximada hoje entre Colinas e Pastos Bons, enquanto a distância para Mirador é menos que a metade disso.

“Outra evidência é que no dia 3 de novembro Berford anota que chegou ao riacho “Minador”, quando já teria viajado oito léguas desde a saída do Arraial do Príncipe Regente. Essa é a distância aproximada entre Colinas e Mirador. E a grafia “Minador”, constante no roteiro de Berford impresso pela Imprensa Régia, em 1810, na verdade, pode ser um equívoco de leitura do revisor, visto que a grafia do “r” e do “n” eram muitos parecidas.

“Assim, não tenho nenhum medo em afirmar hoje que o Arraial do Príncipe Regente fica no mesmo local em que hoje é a cidade de Colinas.”