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Meu encontro com Elomar

Como nesta noite resolvi não fazer nada, pus-me a escrever — para mim, escrever crônica é passatempo; serve como relaxamento, desopilação. Então, terminado o “post” anterior, resolvi continuar a história do Roberto, meu amigo baiano que não vejo há quase três décadas. Até porque estou com preguiça de continuar a revisar as 180 páginas que ainda restam de um livro de contos que estou editando.

A questão agora é meu encontro com Elomar.

Não, não foi um encontro pessoal com o menestrel, mas com a música dele.

Creio que estávamos em 1981. O Roberto me convocou: “Vamos lá em casa (ele morava sozinho num apartamento, na Getúlio Vargas, próximo à rua Ceará). Quero te mostrar uma coisa.” E nem disse o que era. Fomos.

Ao entrarmos, disse: “Vou te mostrar um disco muito bom, de um cara lá de minha cidade.” E puxou o álbum duplo, LP, vinil, “Na quadrada das águas perdidas”, que colocou pra tocar. Ouvi então uma música totalmente diferente de tudo o que já tinha ouvido. Havia lamento sertanejo misturado com música medieval, acordes clássicos, palavras caboclas… Demorei a digerir o gênero. Mas percebi que era uma preciosidade artística.

Como disse Vinícius de Moraes, as composições de Elomar são “uma sábia mistura do romanceiro medieval, tal como era praticado pelos cavalheiros e menestréis errantes […]; e do cancioneiro do Nordeste, com suas toadas em terças plangentes e suas canções de cordel, que trazem logo à mente os brancos e planos caminhos desolados do sertão […]”.

Pois foi assim também que passei a ver a música de Elomar. Campo branco, que está nesse álbum, sempre digo, não precisa de letra; basta a música. Até melhor sem letra, porque, por si mesmo, essa música é bem superior a qualquer palavra que possa ser dita. Cabe bem aqui o que diz o apóstolo Paulo: “a letra mata”. Sim, a palavra limita. O espírito, a sonoridade, é que dá vida.

A propósito disso, um dia de julho de 2007, em Carolina, jantando frente a frente com o pianista Arthur Moreira Lima, que participou da gravação dessa música (só instrumental; sem a letra) para o disco “Consertão”, de Elomar, juntamente com dois outros grandes músicos, Paulo Moura e Heraldo Dumonte, mantivemos uma longa conversa, sobre vários assuntos, principalmente história, e, num momento, perguntei a ele sobre essa música. Ele, que conhece o mundo físico do globo terrestre e também o mundo imaterial da música, afirmou que compositor como Elomar, que junta com maestria cantigas medievais com a musicalidade nordestina, não existe outro. Anos depois, vi que esse disco “Consertão” era paixão de dois outros amigos: padre Cícero Marcelino e Edmilson Sanches.

Um outro fato: um dia, dei de presente à cantora evangélica Íris — minha vizinha no começo dos anos 70, a quem vi tocando violão ainda menina, com menos de dez anos – o LP “Elomar em concerto”, que contém diversos fragmentos de inspiração religiosa de sua Antifonaria Sertani. Uns quinze anos depois, Íris me afirmou que aquele disco foi decisivo em sua escolha para estudar violão clássico.

Outra música de Elomar eu coloco entre as minhas “top ten”: Cantiga de amigo. É um clássico que nos remete aos tempos de Gil Vicente. Nas vozes de Elomar e Xangai, juntos, é insuperável. Ou era, até eu assistir ao vídeo de um concerto realizado recentemente na Casa dos Carneiros, fazenda Gameleira, em que mora Elomar, no sertão baiano, quando essa música foi executada com grande orquestra, solistas líricos e vocais de Elomar, Xangai, Saulo Laranjeira e Décio Marques. Está no Youtube.

Como Elomar é avesso a fazer shows, gosta mais de compor que de cantar em público, praticamente não aparece na grande mídia (à qual é ele também arredio), nunca tive esperança de vê-lo cantar um dia em Imperatriz. Mas há tempos vinha tentando conseguir partituras de sua obra, na expectativa de que alguém destas barrancas se atravesse a executá-las num hipotético concerto. Eis que agora (na verdade, no finalzinho de 2008) Elomar autoriza uma editora a publicar a obra “Elomar: cancioneiro”, um álbum com 14 cadernos, contendo 49 partituras de suas composições adaptadas para voz e violão.

Assim, ainda há chance!

No ano que vem fará 30 anos que conheci Elomar.

2 Comments

  1. Fiquei curioso por conhecer melhor a obra de Elomar.
    Abraço amigo Adalberto.

    domingo, janeiro 17, 2010 at 22:51 | Permalink
  2. Manuel L. Parreão Filho wrote:

    Caro Adalberto Franklin, você foi longe…

    Eu, como amante da boa música, fiquei emocionado ao ler sua matéria falando do seu encontro com este verdadeiro poeta, compositor e cantador da nossa autêntica música regional, o velho Elomar. Coincidência ou não, meu primeiro contato com esta lenda viva de nossa cultura musical se deu, também, pelos idos de 1981/82, através de um amigo que foi morar na minha cidade natal, Estreito/MA, como funcionário da Caixa Econômica Federal. Ele tocava violão e cantava Bob Dylan como ninguém – que em seguida virou cunhado, casando-se com uma das minhas irmãs. Falando de boa música, não dá para não lembrar também de Xangai – como você citou -, Vital Farias e o Geraldo Azevedo (sendo este mais conhecido pela mídia), quando eles se reuniram – mais ou menos no ano de 1984 – e gravaram uma verdadeira obra prima da nossa música: Cantoria – Volumes I e II. Há mais ou menos uns dois meses entrei no Google e assisti a alguns vídeos e depoimentos de Elomar – no seu rancho nos confins do sertão da Bahia. Coisa Linda!!!

    quarta-feira, março 3, 2010 at 15:42 | Permalink

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