Arquivo de 7 de maio de 2010

O circo-teatro e o cinema: um valioso depoimento

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sula Mavrudis, depois de ler um despretensioso texto que escrevi sobre o circo-teatro, fez um comentário e enviou-me mais dois e-mails falando sobre o tema. Como nos últimos meses quase não tenho tido condições me dedicar a este blog, e como considerei que o texto dela equivale a um documento sobre a cultura regional (e, por extensão, nacional), publico aqui o inteiro teor de seu depoimento, cheio de riquezas de detalhes e revelações que por certo ainda não foram registradas em nenhuma publicação. É uma leitura que, mesmo extensa, vale a pena ser feita.

Olá, Adalberto, como vai?
Você é do Maranhão? (Eu morei em Pindaré Mirím aos 12 anos, e tenho muitas saudades!!! do Piauí e do Maranhão!!!!) Lá vi muitos circos e os espetáculos ainda tinham a segunda parte, que eram os dramas e comédias…
Gostaria de converar mais com voce sobre o circo-teatro, mas por e-mail que é mais fácil para mim (ainda estou pelejando para aprender a utilizar os demais recursos da internet!!!. Um amigo meu de São Paulo é que viu o seu Blog e repassou para mim) . Fiquei super contente em encontrar mais alguém que gosta do circo, em especial o circo-teatro.
Moro em Minas desde 1986 e  Minas teve várias companhias que brilharam na época de ouro do circo-teatro, a  maioria delas tinha um ponto em comum: o encenador J. Silva, uma espécie de Antunes do circo-teatro. No circo onde ele estivesse trabalhando formavam-se filas e filas!!!! Dizem que ele era “brabo” demais com o elenco, que este tinha que se dedicar e ensaiar exaustivamemnte e até o contra regra tinha seu roteiro por escrito e tinha que passar todas as ações pelo menos dez vezes para J. Silva ficar satisfeito e ter certeza de que ele não iria errar.
Tinha muita cultura e da noite para o dia adaptava qualquer livro, filme ou rádio-novela para o circo-teatro.
Gostaria muito de publicar as peças que tenho recolhido, para devolvê-las para os circenses e disponibilizar para os demais interessados, mas para aprovar o projeto na lei federal de incentivo à cultura o Miniistério da Cultura exigiu a autorização dos “autores”. Assim esbarrei na minha falta de recursos financeiros para  viajar ao encontro dos familiares de autores/adaptadores explicar a importancia de recuperar este repertório e conseguir autorização. Nem a SBAT quiz ajudar neste intento.

Inspirada em sua matéria – que só agora vi que foi escrita no ano passado!!!! – resolvi escrever-lhe sobre como o cinema entrou em nossas vidas assim como o circo:
Meu pai, desde sua chegada ao Brasil, trabalhava nas construções de hidroelétricas.  E era responsável pela parte elétrica das obras e dos acampamentos onde morávamos, ao lado das construções das hidroelétricas.
Foi nessas obras que tivemos a oportunidade de ver muitos e muitos circos, pois era nas obras e nos acampamentos onde viviam os operários com suas famílias que os circos se instalavam, afinal, eram milhares de pessoas isoladas, sem lazer, e com dinheiro para comprar ingresso!!! – Como era meu pai quem ia instalar a energia elétrica para eles e, vendo as suas dificuldades, ajudava em muitas outras coisas, acabava ganhando muitos ” convites” como agradecimento, vivíamos indo aos circos (O Circo Orlano Orfei foi o primeiro a subir a Transamazônica enquanto ela era construída!…)

Mas voltando ao cinema, dos meus 8 aos 11 anos  morei na hidroeletrica de Boa Esperança, na divisa do Piauí com Maranhão, perto de Floriano, onde foi trabalhar o meu pai, que além de eletricista, ficou também com a função de “passar” os filmes (acho que só ele sabia utilizar o projetor!!!).
Assim, os rolos de filme chegavam em nossa casa toda semana e eu acompanhava meu pai que ia “passar” o filme nos clubes dos dois acampamentos e  na casa de hóspedes. Mas tinha também uma sessão especial no quintal de nossa casa: lençol branco sobre o muro, a vizinhança inteira com seus banquinhos ou cadeiras, era uma festa. E tinha às vezes uma sessão especial só pre ele e minha mãe, tarde da noite, na sala de casa, e eu ficava chorando no quarto porque eles não me deixavam assistir!!!.
(Nos circos o repertório variava entre “Coração materno” e as sátiras dos bang-bangs italianos!)
Bom, como eu via pelo menos umas 3 ou 4 vezes cada um, eu “decorava” os filmes, principalmente as coreografias – assim como “decorava” os dramas e comédias circenses. E tinha também os mais belos filmes de circo de todos os tempos!!!
Como era época de musicais, meus primeiros professores de dança, canto e teatro foram as estrelas dos filmes das décadas de 60 e 70 e os atores circenses, em especial, os palhaços.
No cirquinho do fundo do quintal, nas apresentações da escola, um eclético espetáculo: coreografias copiadas das telas de cinema, imitações de dramas, reprises, comédias circenses, e, para completar nosso tão variado repertório, a cópia da “Escolinha do Gordurinha”, que eu ouvia todos os dias em uma rádio de Recife, que terminava sempre assim:
“Voltaremos amanhã, se a bomba atômica permitir”!
Antes de morarmos no acampamento de Boa Esperança, moramos em Floriano e lá tinha um grande cinema, e era época de Hércules e Maciste – muito encenados nos circos na época. Moramos lá quase um ano e íamos ao cinema cada vez que trocava o filme; minha mãe nos levava – eu mais dois irmãos  (desde a Grécia mamãe adorava cinema).
Em Floriano, o Circo Gran Bartholo ficou quase um ano – e Rui Bartholo conta em seu livro que o sucesso foi tão grande que o prefeito ofereceu para eles a sede do mercado da cidade, para que eles se instalassem definitivamente na cidade, mas o sangue nômade falou mais alto.
Mas quando mudamos para o  Maranhão não construíram acampamento; colocaram as famílias em duas cidades: Santa Inês e Pindaré-Mirím. Só em Santa Inês tinha cinema, assim era uma felicidade quando podíamos ir até lá.
(Os circos – e os ciganos-  ficavam num terreno em frente à escola e assim eu seguia a tradição aprendida em Boa Esperança: saía da escola e ficava conversando com os circenses, mais com os palhaços).
Mas um  pouco antes de mudarmos inauguraram uma “sala de cinema” em Pindaré – era 1969. Algumas tábuas sobre caixas serviam de bancos e uma projeção na parede clara – eu acho, não lembro bem… Mas foi o maior acontecimento da cidade.
Em 1970, meu pai foi transferido para uma hidroelétrica em Cochabamba/ Bolivia. Eu fiquei estudando em um internato, em BH, e só fui à Bolívia nas férias, conclusão: um ano sem circo.)
Mas na Bolívia uma ótima novidade: nas sessões de cinema  eram  projetados dois filmes, e eram filmes argentinos em sua maioria, que não conhecíamos mas eram em sua maioria musicais, talvez por isso adoramos. Era a época da Jovem Guarda aqui, e lá também tinha uma banda que se chamava “Jovem Guardia”, e os integrantes estrelavam vários filmes… E, estranhamente, nenhum circo no pedaço.
Mas acho que “falei “demais!!!

Obrigado, Sula!

El sonido de los Andes

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Esta postagem eu deveria ter feito há mais de um mês, quando, passando pela praça de Fátima, deparei-me com o grupo indígena equatoriano Purik, que se apresentava e vendia CDs, DVDs e artesanato.
Sou apaixonado pela música andina (e, por extensão, da musicalidade latinoamericana).
Sempre me fascinou o som extraído das flautas. Confesso que ainda criança, comecei a dedilhar um violão, mas logo desisti; e na juventude fiz iniciação de estudos de música clássica, e até tive um órgão para fazer exercícios, mas também abandonei esse intrumento. Minha fixação sempre foram sempre os instrumentos de sopro, para os quais nunca fiz aprendizado. Nos estudos, durante as audições, sempre fixava minha atenção no oboé, no clarinete e no flautim (mais as madeiras, menos os metais).
Vejo que não por outro motivo, figuram em minha lista de preferências musicais o “Luar na lubre”, extraordinário grupo galego que em suas músicas dá ênfase à gaita-de-fole e outros instrumentos de sopro da velha Galícia, e a canadense Loreena Mckennitt, multi-instrumentista, musa do canto medieval, que utiliza instrumentos da Idade Média. E também por isso, creio, uma das canções que marcam minha vida é a andina/inca “El condor pasa”.
Num paralelismo nacional, gosto imensamente das músicas de Elomar e dos arranjos do maestro Jacques Morelenbaum.
Voltando ao grupo motivador do tema, cabe dizer que o Purik, “Caminante de los Andes” é formado por três indígenas — Luiz, Humberto e Armando; e duas indígenas de quem não identifiquei os nomes. Afirmam que descendem dos incas.
Os instrumentos que usam são nativos: chachas, esquiña e campoñas, todos da categoria das flautas de sopro, fabricadas de bambu. Percorrem o Brasil há mais de dois anos e se apresentam gratuitamente em praças públicas, vendendo CDs e DVDs do grupo. Nas apresentações, mesclam canto ao vivo e playback. Vestem-se com indumentária indígena e além de cantos, fazem demonstrações de dança indígena.
Ao que parece, eles mesmos produzem os CDs e DVDs que vendem, pois o aspecto tanto das capas quanto da impressão do disco são de impressoras jato de tinta. Mas ressalte-se que além da música, a qualidade da gravação também é boa. Comprei dois discos e comprovei.