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O circo-teatro e o cinema: um valioso depoimento

Sula Mavrudis, depois de ler um despretensioso texto que escrevi sobre o circo-teatro, fez um comentário e enviou-me mais dois e-mails falando sobre o tema. Como nos últimos meses quase não tenho tido condições me dedicar a este blog, e como considerei que o texto dela equivale a um documento sobre a cultura regional (e, por extensão, nacional), publico aqui o inteiro teor de seu depoimento, cheio de riquezas de detalhes e revelações que por certo ainda não foram registradas em nenhuma publicação. É uma leitura que, mesmo extensa, vale a pena ser feita.

Olá, Adalberto, como vai?
Você é do Maranhão? (Eu morei em Pindaré Mirím aos 12 anos, e tenho muitas saudades!!! do Piauí e do Maranhão!!!!) Lá vi muitos circos e os espetáculos ainda tinham a segunda parte, que eram os dramas e comédias…
Gostaria de converar mais com voce sobre o circo-teatro, mas por e-mail que é mais fácil para mim (ainda estou pelejando para aprender a utilizar os demais recursos da internet!!!. Um amigo meu de São Paulo é que viu o seu Blog e repassou para mim) . Fiquei super contente em encontrar mais alguém que gosta do circo, em especial o circo-teatro.
Moro em Minas desde 1986 e  Minas teve várias companhias que brilharam na época de ouro do circo-teatro, a  maioria delas tinha um ponto em comum: o encenador J. Silva, uma espécie de Antunes do circo-teatro. No circo onde ele estivesse trabalhando formavam-se filas e filas!!!! Dizem que ele era “brabo” demais com o elenco, que este tinha que se dedicar e ensaiar exaustivamemnte e até o contra regra tinha seu roteiro por escrito e tinha que passar todas as ações pelo menos dez vezes para J. Silva ficar satisfeito e ter certeza de que ele não iria errar.
Tinha muita cultura e da noite para o dia adaptava qualquer livro, filme ou rádio-novela para o circo-teatro.
Gostaria muito de publicar as peças que tenho recolhido, para devolvê-las para os circenses e disponibilizar para os demais interessados, mas para aprovar o projeto na lei federal de incentivo à cultura o Miniistério da Cultura exigiu a autorização dos “autores”. Assim esbarrei na minha falta de recursos financeiros para  viajar ao encontro dos familiares de autores/adaptadores explicar a importancia de recuperar este repertório e conseguir autorização. Nem a SBAT quiz ajudar neste intento.

Inspirada em sua matéria – que só agora vi que foi escrita no ano passado!!!! – resolvi escrever-lhe sobre como o cinema entrou em nossas vidas assim como o circo:
Meu pai, desde sua chegada ao Brasil, trabalhava nas construções de hidroelétricas.  E era responsável pela parte elétrica das obras e dos acampamentos onde morávamos, ao lado das construções das hidroelétricas.
Foi nessas obras que tivemos a oportunidade de ver muitos e muitos circos, pois era nas obras e nos acampamentos onde viviam os operários com suas famílias que os circos se instalavam, afinal, eram milhares de pessoas isoladas, sem lazer, e com dinheiro para comprar ingresso!!! – Como era meu pai quem ia instalar a energia elétrica para eles e, vendo as suas dificuldades, ajudava em muitas outras coisas, acabava ganhando muitos ” convites” como agradecimento, vivíamos indo aos circos (O Circo Orlano Orfei foi o primeiro a subir a Transamazônica enquanto ela era construída!…)

Mas voltando ao cinema, dos meus 8 aos 11 anos  morei na hidroeletrica de Boa Esperança, na divisa do Piauí com Maranhão, perto de Floriano, onde foi trabalhar o meu pai, que além de eletricista, ficou também com a função de “passar” os filmes (acho que só ele sabia utilizar o projetor!!!).
Assim, os rolos de filme chegavam em nossa casa toda semana e eu acompanhava meu pai que ia “passar” o filme nos clubes dos dois acampamentos e  na casa de hóspedes. Mas tinha também uma sessão especial no quintal de nossa casa: lençol branco sobre o muro, a vizinhança inteira com seus banquinhos ou cadeiras, era uma festa. E tinha às vezes uma sessão especial só pre ele e minha mãe, tarde da noite, na sala de casa, e eu ficava chorando no quarto porque eles não me deixavam assistir!!!.
(Nos circos o repertório variava entre “Coração materno” e as sátiras dos bang-bangs italianos!)
Bom, como eu via pelo menos umas 3 ou 4 vezes cada um, eu “decorava” os filmes, principalmente as coreografias – assim como “decorava” os dramas e comédias circenses. E tinha também os mais belos filmes de circo de todos os tempos!!!
Como era época de musicais, meus primeiros professores de dança, canto e teatro foram as estrelas dos filmes das décadas de 60 e 70 e os atores circenses, em especial, os palhaços.
No cirquinho do fundo do quintal, nas apresentações da escola, um eclético espetáculo: coreografias copiadas das telas de cinema, imitações de dramas, reprises, comédias circenses, e, para completar nosso tão variado repertório, a cópia da “Escolinha do Gordurinha”, que eu ouvia todos os dias em uma rádio de Recife, que terminava sempre assim:
“Voltaremos amanhã, se a bomba atômica permitir”!
Antes de morarmos no acampamento de Boa Esperança, moramos em Floriano e lá tinha um grande cinema, e era época de Hércules e Maciste – muito encenados nos circos na época. Moramos lá quase um ano e íamos ao cinema cada vez que trocava o filme; minha mãe nos levava – eu mais dois irmãos  (desde a Grécia mamãe adorava cinema).
Em Floriano, o Circo Gran Bartholo ficou quase um ano – e Rui Bartholo conta em seu livro que o sucesso foi tão grande que o prefeito ofereceu para eles a sede do mercado da cidade, para que eles se instalassem definitivamente na cidade, mas o sangue nômade falou mais alto.
Mas quando mudamos para o  Maranhão não construíram acampamento; colocaram as famílias em duas cidades: Santa Inês e Pindaré-Mirím. Só em Santa Inês tinha cinema, assim era uma felicidade quando podíamos ir até lá.
(Os circos – e os ciganos-  ficavam num terreno em frente à escola e assim eu seguia a tradição aprendida em Boa Esperança: saía da escola e ficava conversando com os circenses, mais com os palhaços).
Mas um  pouco antes de mudarmos inauguraram uma “sala de cinema” em Pindaré – era 1969. Algumas tábuas sobre caixas serviam de bancos e uma projeção na parede clara – eu acho, não lembro bem… Mas foi o maior acontecimento da cidade.
Em 1970, meu pai foi transferido para uma hidroelétrica em Cochabamba/ Bolivia. Eu fiquei estudando em um internato, em BH, e só fui à Bolívia nas férias, conclusão: um ano sem circo.)
Mas na Bolívia uma ótima novidade: nas sessões de cinema  eram  projetados dois filmes, e eram filmes argentinos em sua maioria, que não conhecíamos mas eram em sua maioria musicais, talvez por isso adoramos. Era a época da Jovem Guarda aqui, e lá também tinha uma banda que se chamava “Jovem Guardia”, e os integrantes estrelavam vários filmes… E, estranhamente, nenhum circo no pedaço.
Mas acho que “falei “demais!!!

Obrigado, Sula!

7 Comments

  1. Caro Adalberto,
    Importantíssimo esse depoimento da Sula Mavrudis sobre a época dos bons circos que circulavam por este país. Ao relatar como eram os circos e os cinemas no Maranhão, voltei também no tempo e me lembrei dos circos que passaram por Barra do Corda (Sula citou o Gran Bartholo e o Orfei), que cruzaram nossas cidades para mostrar animais enormes, como elefantes, ou ferozes, como os leões, que faziam o encanto e a felicidade da garotada de então.
    Mas esses circos acima de tudo nos traziam as comédias e os dramas, que atraiam geralmente às mesmas pessoas diariamente, num tempo que não havia tv, para verem a encenação de peças, que a meu ver ficaram no nosso imaginário como inesquecíveis.
    Não posso deixar de registrar e até mesmo agradecer, por tantas vezes ter visto, um circo marcante do tempo da minha infância barra-cordense, o circo do Lambretinha. O dono, Lambretinha, fazia de tudo, era o palhaço, era mágico, era trapezista por excelência e até mesmo fazia boca de cena, um artista que ficou pra sempre na minha imaginação como excelente profissional.
    Ao terminar de ler esse bom depoimento, me deu vontade de ir correndo em busca do tempo que não volta e ir atrás do primeiro circo para matar a boa saudade.
    Fico daqui torcendo para Sula Mavrudis continue em seu trabalho de resgatar a meória dos bons circos deste país.
    Valeu, Sula, valeu Adalberto!
    Heider Moraes

    terça-feira, maio 18, 2010 at 15:36 | Permalink
  2. Airton Marinho Silva (Macacheira) wrote:

    Caro Adalberto,
    Na medida do possivel, informe o email do Heider Moraes; ou por outro
    lado, informe o meu para êle, dizendo que eu preciso entrar em contato
    com o mesmo. Tambem sou cordino. Já morei de frente da casa dele em
    Barra do Corda. Se passares meu contato acredito no retorno.

    Ficarei muito agradecido.
    Sem mais para o momento.
    AIRTON

    quinta-feira, julho 29, 2010 at 16:12 | Permalink
  3. Sula Mavrudis wrote:

    Caros Adalberto Franklin e Heider Morais,
    É com muita alegria que informo que no dia 29 de Agosto/11 foi feito o lançamenta da Coleção Circo-Teatro, Dramas e Comédias Circenses, onde estão disponibilizada 36 peças do circo-teatro. A publicação foi feita pela Sec. do Estado de Cultura de Minas Gerais e contêm parte dos textos que recuperei com os circenses tradicionais, especialmente do antigo Circo-Teatro Caxambú, Circo- Teatro Indio Brasil e Circo teatro TransBrasil.
    Obrigada e abraços
    Sula

    quarta-feira, setembro 7, 2011 at 11:16 | Permalink
  4. Helio Porto wrote:

    SULA, ME INFORME COMO ADQUIRIR O LIVRO. ALEM DE RADIALISTA E JORNALISTA FIZ MUITO TEMPO DE TELEVISÃO AQUI NO SUL DO PAIS E ATUEI COMO PALHACO. CONHECO O CIRCO POR DENTRO, VENDO-O DO LADO DE FORA QUE EH MAIS FACIL.
    ABRACOS
    HPORTO

    terça-feira, março 13, 2012 at 16:40 | Permalink
  5. Obrigado!!!

    segunda-feira, maio 4, 2015 at 22:16 | Permalink
  6. neuza augusto wrote:

    Nasci em uma barraca do circo Teatro Nova York que pertencia,a família augusto, onde na época trabalhava o entre vários membros da família o palhaço Pelado, meu pai deixou o circo quando eu tinha maias ou menos 4 ou 5 anos; eu sempre buscando noticias do circo, sem êxito, descobri o Circo teatro Indio Brasil que pertencia ao Palhaço, já citado cujo nome era Jose Augusto, pai do palhaço Bigola que é meu primo,nao sei se ainda esta vivo, se alguém souber de alguém dessa família circense, peço que entre em contato comigo ou o responsável po esse blog, grata

    terça-feira, janeiro 19, 2016 at 16:16 | Permalink
  7. Beatriz Magalhães wrote:

    Caro Adalberto, muito me interessou a mensagem de Neuza Augusto em 19/01/2016, na qual ela fala de seu primo, o palhaço Bigola. Gostaria de saber se é o Bigola que conheci menino, trapezista do circo do qual infelizmente não sei mais o nome. Lembro-me com perfeição da montagem do drama que esse excepcional circense nos ensinava, a criançada da cidade, a fazer no sul de Minas, onde o circo ficou alguns meses na década de 50. Você poderia nos pôr em contato? Meu abraço, Beatriz

    terça-feira, abril 12, 2016 at 10:55 | Permalink

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