Arquivo de setembro de 2010

A insustentabilidade das “novas metrópoles” da Veja

sábado, 11 de setembro de 2010

Há várias semanas venho buscando tempo para comentar a impactante matéria da revista “Veja” sobre o crescimento das cidades médias brasileiras. Envolvido em diversas atividades e, ainda mais, empenhado na campanha de reeleição do meu amigo deputado estadual Valdinar Barros (PT-MA) e no “empoderamento” dos trabalhadores, não encontrei tempo suficiente para o levantamento dos dados necessários a um artigo de maior fôlego, como pretendo. Essa abordagem integra uma das temáticas – desenvolvimento regional da Pré-Amazônia – que venho pesquisando nos últimos anos. Adiei, assim, para mais tarde, o artigo científico (ou, quem sabe, um pequeno livro) em que pretendo dissecar essa questão.

Certo é que fiquei abismado com a leviandade da reportagem da “Veja”, que, a partir de um único indicador – o PIB, Produto Interno Bruto –, especulou o que o índice não indica: desenvolvimento. Unicamente a partir do crescimento do PIB dos municípios, os repórteres da “Veja” prospectaram que essas cidades serão as futuras “metrópoles brasileiras”. Falsa conclusão. Muito falsa.

Criado após a Segunda Guerra Mundial, nos Estados Unidos, para fazer a verificação do crescimento da produção (crescimento econômico), o PIB mede apenas e tão-somente isso: o volume de crescimento das atividades econômicas de um determinado território num específico espaço de tempo. Não mede distribuição de renda; não mede aumento de empregos; não mede melhoramento físico das cidades; não mede melhoria da qualidade de vida; não mede bem-estar social…

E o PIB per capita, por sua vez, de forma alguma mede nível de renda da população ou pressupõe melhora ou piora da qualidade de vida. Ele é apenas a soma do PIB dividido pelo total de habitantes do território medido, dando, por isso, a impressão de que os cidadãos são beneficiários da riqueza produzida. Um país ou cidade, por exemplo, pode elevar seu PIB per capita, ao mesmo tempo em que sua população fica mais pobre e em pior situação social, pois esse indicador não mede renda pessoal nem leva em conta os níveis sociais de desigualdade. É o caso, por exemplo, de Tasso Fragoso, que, segundo o Censo Agropecuário de 2006, possui o maior PIB per capita do Maranhão. É o caso também o Haiti pós-terremoto, que, mesmo vivendo em dramática situação social, bem pior que antes, aumentou substancialmente seu PIB em face dos investimentos para a “reconstrução” do país.

É preciso distinguir-se crescimento econômico de desenvolvimento econômico. O primeiro, é o que pode ser indicado pelo PIB: a elevação da produção econômica. O desenvolvimento econômico, por sua vez, é elevação da renda média da população, a melhoria dos índices sociais de saúde, educação, moradia, renda familiar, bem-estar social etc.

Por outro lado, hoje, a concepção de riqueza de um território leva em conta as condições de reprodução e sustentabilidade de suas atividades econômicas a médio e longo prazos. O país, estado ou município que têm economia baseada em atividades não sustentáveis, ou que já gastaram ou estão em face de extinguir seus recursos naturais, são territórios descapitalizados onde não há garantia de desenvolvimento, e sim de possível dependência externa, projetando-se nela crises sociais e econômicas no futuro. É o caso de Açailândia, com economia pouco diversificada, dependente da produção de ferro-gusa, indústria com matriz energética baseada no carvão vegetal natural, já em fase final de extinção (e sem possuir a necessária demanda em plantio de eucalipto, seu substituto), além de ser esse produto muito dependente das voláteis bolsas de valores internacionais. Qualquer ventania no mercado internacional do ferro, derruba milhares de empregos na cidade. Açailândia já começa a experimentar essa face cruel de sua insustentabilidade econômica.

O mundo econômico, há várias décadas, vem discutindo a necessidade de adoção de indicadores de desenvolvimento para poder melhor analisar o quanto o aumento da riqueza do mundo tem impactado a vida das pessoas, para melhor ou pior. Ou se a ampliação dessa riqueza não tem correspondido através de bem-estar e redução das mazelas no mundo: a pobreza, a fome, as doenças crônicas… Ou se a riqueza da produção tem servido apenas para criar novos ricos e encher ainda mais os cofres dos países e das corporações ricas que controlam o mundo.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), criado há vinte anos, foi uma das tentativas de medir o desenvolvimento, contrapondo-se à hegemonia das contas do PIB. Depois da recente crise norte-americana, vários organismos internacionais e mesmo os países ricos, apavorados com a fragilidade dos indicadores econômicos e sociais disponíveis (entre os quais o IDH, que não mede o quantum necessário para uma avaliação mais segura), estão às voltas com a criação de novos indicadores. O governo dos EUA encomendou o indicador denominado “Estado dos EUA”, com 300 indicadores; o Canadá está lançando o “Índice Canadense de Bem-Estar”, que medirá os índices de bem-estar, ambientais e de capital social; a França contratou as cabeças coroadas de Joseph Stiglitz, Amartia Sen (ambos ganhadores do Nobel de Economia) e Jean-Paul Fitoussi para elaborarem uma nova concepção para indicadores de desenvolvimento; muitos países já aderem ao FIBE (índice de Felicidade Interna Bruta), criada pelo rei do Butão para medir bem-estar e satisfação pessoal.

Afinal, por que os países ricos, como os EUA e Japão (para onde vai o ferro-gusa de Açailândia) não querem eles mesmos transformar o ferro britado em ferro-gusa? Que desvantagem econômica há nisso, diante da divisão internacional do trabalho? Os EUA, hoje, têm somente 4% de suas florestas naturais; 40% de suas águas estão impróprias para uso; seus problemas ambientais se multiplicam a cada ano… Tornou-se há muito necessário deslocar para outros países a parte menos rentável e mais devastadora da produção industrial. A nossa região, a região do Grande Carajás, foi uma das escolhidas, há muito tempo. O quintal do mundo.

Creio que esse enfoque da reportagem da “Veja” tenha sido proposital: criar um clima de desenvolvimentismo em cidades médias brasileiras economicamente emergentes, em face dos muitos entraves que os grandes projetos de interesse internacional se implantam no país estão encontrando, especialmente em relação à questão dos impactos ambientais e sociais. Por isso não falam em índices ou impactos ambientais ou sociais, nem em sustentabilidade. Aliás, o termo sustentabilidade não é propriamente “coisa” de ambientalista, e sim mais próprio da economia mesmo.

Atualmente, qualquer cientista social ou economista responsável não deixará de alertar que os recursos naturais são riquezas acumuladas que, ao serem consumidas, reduzem-se as potencialidades econômicas do território; que as águas, a terra, as florestas, o petróleo, o gás, são não apenas bens de valor econômico, mas, sobretudo, bens que dão sustentação ao futuro da vida e do planeta, portanto, quem os perde ou gasta além de sua possibilidade de reprodução, perde também suas condições de se fazer hegemônico no porvir.

Quem viver, verá!

“Todos sabiam”: o caso da “negociação” dos vereadores

domingo, 5 de setembro de 2010

Samuel Souza publicou em seu blog uma afirmativa creditada ao vereador Luís Gonçalves (PSB), de Imperatriz, de que os vereadores antes oposicionistas à governadora Roseana Sarney que passaram a apoiar sua eleição (e não reeleição, porque ela não foi eleita em 2006), teriam recebido, cada um, 100 mil reais, e o presidente da Câmara, o dobro.

Mas a fonte da notícia sou eu, e não o vereador Luís Gonçalves. Samuel não ouviu o vereador.
No sábado, conversei rapidamente com o Luís Gonçalves, durante caminhada do candidato a governador Flávio Dino e o ministro Orlando Silva (dos Esportes), em Imperatriz. O teor da conversa entre eu e o vereador foi revelada pelo próprio, em resposta ao blog de Samuel, que publicou a informação.
Deixando a caminhada, fiquei na praça de Fátima, na “boca maldita” que se forma ao lado da Banca do Chico, onde se fazem os comentários e as maledicências da política nacional, estadual e local. A “fina flor” das intrigas e do maldizer político e os frequentadores de plantão estavam presentes: Pinheiro, Japão, Cupim, Justino Filho, Raimundo Corretor, Alair Chaves, Samuel Souza, o próprio Chico e vários outros.
A temática, ali, era invariável: política e candidaturas. Dilma X Serra. Jackson X Roseana. Flávio Dino X Roseana. Possibilidades de segundo turno. Provável cassação de Jackson no TSE. Alair Chaves, empresário, ex-presidente da ACII, usando botton de Roseana, recomenda ao fotógrafo Pinheiro que não hostilize nenhum petista que critique Roseana (uma referência a mim), porque, segundo ele, havia propósito de que, depois das eleições, nos juntássemos todos no governo (imediatamente, recusei essa possibilidade).
O prato do dia, entretanto, era a “negociação” ou “pacto” que os vereadores de Imperatriz teriam feito para apoiar a candidatura de Roseana Sarney. Dos treze, todos aliados ou alinhados com o prefeito Sebastião Madeira, apenas três teriam resistido em embarcar no trem de Roseana: Luís Gonçalves, Edmilson Sanches e Alberto Souza. Questionaram o motivo de os três, também aliados do prefeito, não embarcaram nesse trem. Eu informei que o vereador Luís Gonçalves, membro do PSB, é tio de Bira do Pindaré (da ala petista anti-Sarney) e seu partido está empenhado na candidatura de  Flávio Dino. Outro disse que Sanches não tem recebido o prometido apoio de Madeira e que se mantém fiel à candidatura de Jackson Lago, o único que lhe dera alguma estrutura de campanha. De Alberto Souza, ninguém soube dizer ao certo sua recusa.
Ali, os mais diversos “analistas” creditavam esse novo alinhamento da Câmara a um provável acordo entre o prefeito e a governadora, que, não podendo ele mesmo “mostrar a cara”, porque isso configuraria “traição ao velhinho” [Jackson Lago], pessoa fundamental em sua eleição a prefeito, teria “liberado” os “seus” vereadores a embarcarem na estação da governadora. Alguns, partidários de Madeira, contestaram essas afirmações. Justino Filho, acompanhado de sua inseparável esposa, fez dois discursos pró-Jackson e muitas críticas a Roseana e a alguns outros candidatos a deputado.
Não deixou de comentar e fazer “revelações” sobre o “acordo” dos vereadores. Pinheiro, que coleciona “santinhos” de candidatos, promoveu uma sessão para avaliar “quem se elege”. Quase ninguém passou no crivo, resultando em alguns protestos.
A questão dos vereadores retornou à pauta. Indagaram-me sobre o Chagão, vereador filiado ao PT que era anti-sarneista e passou agora a também apoiar Roseana. Disse-lhes que os comentários no PT são de que primeiramente ele teria recebido dinheiro para apoiar Weverton Rocha (candidato a deputado federal do PDT, aliado de Jackson Lago), depois o abandonara para apoiar Raimundo Monteiro (presidente do PT-MA, do grupo que se aliou a Roseana). Alguém interrompeu e disse: “O Monteiro vai dar dinheiro para ele devolver o do Weverton em suaves prestações!).
Instigado, acrescentei que Chagão não incorria em infidelidade partidária em apoiar Weverton ou Monteiro, pois o primeiro é do PDT, partido do arco de aliança nacional do PT, mas se complica quando apoia um candidato do DEM para deputado estadual (Antônio Pereira), pois a resolução nacional do Partido proíbe o apoio dos seus filiados  detentores de mandato apoiar candidatos de partidos que não sejam do arco de alianças do PT (casos de DEM, PSDB e PPS), e que isso poderia levá-lo à Comissão de Ética e até à expulsão do partido (o que é o desejo da maioria do DM do PT de Imperatriz). O Chico imediatamente interveio e disse que o PT não tem mais moral para expulsar ninguém. Um outro alegou que Monteiro prometera a Chagão a direção do PT municipal, logo após as eleições, no que retruquei, dizendo que dentro das normas partidárias, isso seria impossível.
Alguém comentou, com ironia, a entrevista que o presidente da Câmara, Hamilton Miranda, e Chagão deram ao programa “Difusora Debate”, naquela manhã, buscando justificar a decisão dos dez vereadores em apoiar a candidatura de Roseana. Nenhum dos presentes deu como convincente a justificava do presidente da Câmara. A opinião unânime era que houvera vantagens pessoais — falaram em dinheiro mesmo, em valores, o publicado por Samuel Souza em sua blog — na negociação. Eu afirmei que era exatamente isso o que eu vinha ouvindo de várias pessoas.
Comentei então a conversa que havia mantido, momentos antes, com o vereador Luís Gonçalves, que me revelara ter também sido procurado por emissários do grupo de apoio a Roseana, mas recusara o “convite”. Eu disse então que várias pessoas me revelaram que cada vereador teria recebido 100 mil reais, e o presidente da Câmara 200 mil reais, mas não tinha como provar, mas se tivesse, escreveria isso em meu blog, pois considero isso uma traição à vontade do povo de Imperatriz, que tem com larga maioria demonstrado nas urnas querer tirar a família Sarney do poder.
Comentei ainda que no PT há quem queira testemunhar contra o vereador Chagão, que teria deixado de apoiar a reeleição do deputado Valdinar Barros (PT) porque este não teria lhe dado dinheiro para pagar uma dívida, o que o deputado Antônio Pereira (DEM) lhe teria dado e, assim, passara a apoiar a reeleição deste. O meu informante desse fato me revelou, inclusive, a metáfora usada por Chagão para lhe explicar sua adesão ao candidato do DEM: “Eu pedi ao Valdinar um pedaço de lápis e ele me negou; o Dr. Antônio Pereira me deu foi uma caixa de lápis inteira”.
Sim, é verdade que várias pessoas, de respeitabilidade, me deram essa informação, inclusive revelando alguns outros detalhes, mas ninguém tem coragem de fazer denúncia ou testemunhar essa pretensa verdade em juízo. E isso há vários dias é comentário corrente na cidade: “todos sabem”.
Se alguém pode provar, não sei. Eu desejaria mesmo fazer essa denúncia em meu blog, mas não o fiz porque, dos que asseguram ser isso verdade, não têm coragem de fazer a denúncia ou se expor em juízo. É o caso do cidadão que se revolta mas não tem coragem de protagonizar a mudança.
Também, na Câmara, se algum vereador tiver conhecimento disso, dificilmente vai querer se expor ou assumir o ônus da prova. Seria uma rebelião sem precedentes.
Eu disse então, diante de todos os presentes, que não publicaria essa informação em meu blog. Samuel Souza, ao meu lado, disse que publicaria no dele, ainda naquele dia (ontem, sábado). E logo saiu. Antes que ele saísse, alertei-o: “Cuidado! Escolha as palavras certas!”
A quem afirma ou denuncia, cabe o ônus da prova. Nem tudo o que se sabe, se pode escrever. E nem tudo o que nos dizem pode ser provado, mesmo quando “todos sabem”.
Aliás, “Todos sabiam” é o título de um livro de minha amiga inglesa Binka Le Breton, que trata do assassinato do
padre Josimo Moraes Tavares, em Imperatriz, em 10 de maio de 1986. Ela demonstrou no livro que todos sabiam da trama para matar o sacerdote; sabiam das reuniões e decisões dos mandantes, sabiam dos seus nomes, sabiam quem eram os pistoleiros contratados, sabiam de tudo… Ninguém disse nada. O padre foi assassinado. Todos sabiam…
Poucas horas após a morte do padre Josimo, o então repórter policial Daniel Souza me entregou a foto do sacerdote morto e, em duas lauda apenas, relatou o ocorrido e revelou o nome do pistoleiro e de dois vereadores mandantes. Eu era editor-chefe do jornal “O Progresso”. Por excesso de zelo, com temor de não poder provar essa apuração apressada feita pelo repórter em tão pouco tempo, censurei a publicação dos nomes dos mandantes. No dia seguinte, esses
mesmos nomes estavam estampados nos grandes jornais do Brasil e do mundo. Tinham sido eles mesmos. Todos sabiam.
Quem haverá de…?