Um lugar chamado São Salvador
UM LUGAR CHAMADO “SÃO SALVADOR”
Esse é o título do terceiro livro de José Raimundo Rodrigues, maranhense de Sítio Novo, muito conhecido no circuito de Sítio Novo/Amarante/Grajaú. Trata-se de um conto memorialístico com forte tonalidade regional nordestina, mas sobretudo sertaneja. Tem apenas 70 páginas, mas, por certo, agradará por seu marcante conteúdo, literário e linguístico. Para ele, escrevi o seguinte texto, para a quarta capa (ou contracapa):
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As íngremes picadas que atravessam a Chapade de Bacuri, ermo de baixas árvores rodeadas de serras, são os únicos caminhos que levam ao São Salvador, lugar onde a vida tem passos lentos e o tempo é apenas o prolongamento da existência. Ali, a casinha de palha avarandada, plantada no pé da serra e rodeada de brejos e olhos d’água, é o centro dos acontecimentos.
São Salvador é o centro do mundo. O único lugar que verdadeiramente importa. Pelo menos para os olhos do menino que ali vive os encantos da natureza e as aventuras de cada dia; questiona incertezas e maravilha-se com o cavaleiro do Humaitá, que sempre chega sertanejamente bem vestido em roupas de couro, montado na cela de sua burra esquipadeira, parecendo personagem saído do Carlos Magno e os doze pares de França, que seu pai lê à noite, na claridão da candeia de azeite de mamona.
Para além do Morro do Vão-do-Vei-Luís, o mundo é uma incógnita; um lugar incerto e perigoso. Deve ter sido pra lá, para essas lonjuras sem fim, além do caminho da Chapada de Bacuri, que foram enviadas as pessoas más, expulsas do paraíso, como está escrito na Bíblia sempre lida em casa nas noites de serão.
Para o menino, o São Salvador era o melhor dos mundos; o verdadeiro paraíso… até o ano “em que não houve inverno, o fogo derreteu as chapadas e ferveu a água dos brejos” e sua amada avó desapareceu no horizonte com uma trouxa de roupas na cabeça.