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O crime da hidrelétrica

Quanto de prejuízos sociais, financeiros e morais trazem às populações ribeirinhas, das cidades e do campo, a abertura das comportas da hidrelétrica de Estreito, como a que ocorreu neste final de semana?
Comumente, só se vê no noticiário (inclusive o da internet), os desarranjos e estragos provocados na área urbana, lugar de maior proximidade e visibilidade dos que produzem a informação. Um bairro de baixa altitude, uma beira-rio, um cais ou um porto… Mas há comunidades quase invisíveis, que habitam e trabalham nas margens dos rios, distantes das áreas urbanas, sobre as quais quase não se fala, pois estão distante dos olhos e das luzes da cidade.
Pessoas que dependem de uma canoa a remos, um barquinho a motor, uma estradinha de chão, para se deslocar nos momentos de necessidade ou de socorro nas emergências. E também de uma previsão regular sobre o nível das águas, antes conhecida pela constância e intensidade das chuvas, por eles prevista pelos sinais da natureza ou movimentação de insetos, pássaros e animais. Até estes seres buscam prévio abrigo e se preparam para a chegada das chuvas e das águas…
Quando, porém, as águas chegam sem qualquer sinal ou aviso, todos sofrem: homens, animais, insetos… Toda a natureza.
Casas são inundadas ou submersas; caminhos são alagados; canoas e barcos ancorados e amarrados submergem; famílias ficam ilhadas… Animais morrem. Inúmeros prejuízos acontecem.
Este cenário, presenciei ontem e hoje, nas margens do rio Tocantins, desde a Ponta da Ilha, navegando pelo braço esquerdo do rio, naquele trecho que, da manhã de sábado para a tarde do domingo, dobrou sua largura.
Todos foram surpreendidos. Talvez, até, a Defesa Civil dos municípios a jusante da hidrelétrica.
Certo mesmo é que a Ceste, empresa privada controladora da hidrelétrica de Estreito, abriu as comportas e alagou meio mundo Tocantins abaixo, desde Estreito até o Araguaia, a seu bel-prazer, como se fosse o todo-poderoso dono das águas e da situação. Salve-se quem puder!
E nessa inconstância e incertezas vivem hoje os ribeirinhos do Tocantins nesta região. Afligidos pela força de um ente que não reconhece seus direitos de viver em segurança e em paz; de ter conhecimento prévio dos perigos que os ameçam; de ter preservado seu parco patrimônio.
Nas cidades, o mesmo vem ocorrendo. Agora, não por evento da natureza, mas por ação direta de uma empresa privada, que, para garantir sua lucrativa atividade, massacra e engole o patrimônio do povo.
Algo está errado nisso. As câmaras municipais se calam. Os prefeitos se omitem. Os governo municipais gastam milhões de reais do próprio povo, seja através de verbas federais, estaduais e mesmo municipais, para promover o socorro de desabrigados e recuperar danos materiais, sobretudo a infra-estrutura da cidade, enquanto os donos desses empreendimentos elétricos nada pagam, e continuam sem ônus a vender energia cara à população.
Em seus estudos de impacto ambiental, esses não entram. Não estão contabilizados. Não foram e dificilmente serão cobrados. Mas os municípios deveriam cobrar. Acioná-los na Justiça. Obrigá-los à responsabilidade. Assim deveriam fazer verdadeiros representantes do povo.
O cidadão não pode continuar assumindo e sofrendo tantos danos para garantir os lucros dessas empresas. Não é justo!
Isso é também corrupção. O que se paga por isso com dinheiro público, bem poderia estar sendo empregado em saúde, educação, infra-estrutura…
Poderíamos começar, por exemplo, com o levantamento dos prejuízos que Imperatriz passou a ter nós últimos anos com o fim das praias do Cacau e do Meio. Quanto de perda de movimentação turística e financeira, de postos de trabalho, de serviços… de evasão recursos, de alta-estima da população? E o que mais?
O futuro cobrará desta geração. Com certeza.

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