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Papai Noel, o velhinho do mal

Adalberto Franklin

Nos tempos da minha infância, construí na imaginação a figura do Papai Noel como a de um velhinho bondoso, caridoso, amoroso, sensível aos apelos e anseios materiais da humanidade; o avô que nunca tive a graça de ver. Uma espécie de Robin Hood dos livros de minha adolescência, com a vantagem de atender aos pedidos dos pobres sem ter de recorrer ao saque dos bens dos ricos (se bem que eu achava isso muito interessante). Via-o, ainda, como um emissário de Jesus, vagueando pelo mundo a distribuir presentes e a consolar as crianças (as pobres, principalmente) desamparadas da sorte. Claro, eu sabia que o Papai Noel era uma invenção humana, mas, mesmo assim, ele existia no meu mundo imaginário, como personagem de um ideário desejado. Era necessário existir Papai Noel; uma esperança e uma afirmação da existência do bem entre os homens. Um ícone da solidariedade e do amor.
No Natal, o Papai Noel era mostrado como a figura humana do amor gratuito e solidário, consequência dos valores do Jesus que nascia e irradiava em todos atitudes de bondade e partilha. O menino Jesus, então mostrado nos muitos presépios, era a causa de tudo; da admiração, das comoções e do sentimento de piedade e compaixão que se estabelecia nas pessoas “de boa vontade”. Esse frágil e pobre menino da manjedoura, que chegava para promover o bem e a bondade, tinha o poder de acalentar nobres inspirações e influir nos humores dos mais duros corações, em favor dos mais fracos e desprotegidos. Jesus era o motivo, a causa, a inspiração; Noel era o consequente, o diligente apóstolo do Divino, a espalhar pelo mundo a alegria e a festividade, em nome do Senhor.
Há tempos, entretanto, venho cismando com as atitudes desse velhinho simpático de barbas brancas e roupas vermelhas. Desconfiei que ele poderia estar falseando sua conduta, por interesses escusos; transformado de cordeiro em lobo; de homem em lobisomem; de gente em vampiro. Fiz até a idéia de que ele tivesse bandeado para os lados de Herodes, o rei que queria matar o menino Jesus. Ou então resvalado para o comportamento de Judas, o traidor. Como mau político, o velhinho Noel começou a ocupar todos os espaços nos meios de comunicação, no lugar de Jesus, o legítimo e verdadeiro dono do Natal. Patrocinado pelos comerciantes que não gostam das ideias de caridade e partilha, tomou conta de todos os jornais, revistas, folhetos e outdoors; da internet e da televisão, e espalhou uma nova concepção sobre o Natal; agora, não mais uma festividade cristã gratuita, aberta a todos; não mais a celebração do menino da manjedoura, porém, uma comemoração restrita, com ingressos pagos e caros, vendidos principalmente nas lojas de grife. E o velhinho Noel foi clonado, transformado em centenas de noéis, que se espalharam nas ruas, praças e portas das lojas, para repetir de viva voz e presença essa nova e lamentável notícia. O plano, baseado na afirmação de que uma mentira repetida mil vezes toma o lugar da verdade, funcionou. Os corações e as mentes das pessoas apreenderam que o Natal é o tempo e a festa de Papai Noel; que viver o Natal significa comprar; comprar, mesmo que não se tenha dinheiro; comprar, mesmo criando dívidas a longo prazo; comprar a qualquer custo. Comprar… comprar… comprar… Principalmente nas grandes lojas que financiam o Papai Noel.
O abusado Noel, então, usurpou o lugar do menino Jesus. Instalou sua tenda no meio de nós, usurpando o lugar de seu antigo senhor, impondo-se pelo poder da riqueza e pelo brilho da ilusão; ídolo que tem pés de barro e se desfaz com a verdade.
Eu vi. E foi minha última indulgência com Papai Noel. Eu vi!
Uma suntuosa “casinha de Papai Noel”, armada na praça de Fátima, frente à catedral, ornada com tapetes vermelhos, enfeites cintilantes, luzes multicolores; um presépio com esculturas das figuras natalinas de pessoas e animais… a manjedoura, o Menino, Maria, José e os reis magos… e uma cerca de madeira. Tudo cercado de madeira! Em praça pública! Tudo cercado! Inacessível!
Era a “casa do Papai Noel” dos lojistas. Cobrava oito reais para se tirar uma fotografia com o Papai Noel. Em praça pública! Oito reais! Exatamente 32 moedas prateadas de 25 centavos (as duas devem ser juros, que eles tanto gostam).
As crianças pobres passavam ao largo, encantadas, olhos reluzentes, mas impotentes, decepcionadas, desiludidas… discriminadas. O cínico e desavergonhado Papai Noel exigia pagamento para passar o braço no pescoço de uma criança e deixar–se fotografar! E mostrava-se insensível mesmo ao choro de algumas criancinhas que, em prantos, pediam aos pais essa imaginada glória. E estes, sem dinheiro ou indignados, tratavam de retirar dali seus filhos, diante da situação vexatória e infame a que se viam expostos.
Papai Noel tornou-se o servo mau que matou o menino patrão, encobrindo o sangue latente das mentes e corações mutilados em seus sonhos de feliz natal. Despedaçou e aniquilou inspirações que poderiam florir nas crianças, de um mundo menos desigual, mais justo e solidário. Morreu de vez, em mim, essa personagem dúbia e charlatã, um acessório que não mais me é grato.
Fica-me, entretanto, o essencial, o fundamento e fundamental, agora prisioneiro escondido nessa trama do consumismo ilusório: o menino Jesus, pobre, solidário, fraterno e verdadeiro.
Mas, quem sabe, o verdadeiro Noel esteja escondido, calado, censurado, também prisioneiro desse sistema de exploração?
[Publicado no livro “Coletânea: contos, crônicas, poesias”. Imperatriz, MA: AIL, 2012]

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