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A astúcia da raposa e a força do leão: um enfrentamento político no Maranhão

Há 110 anos, o Maranhão viveu uma ferrenha luta política contra o domínio despótico do senador Benedito Leite. Um editorial do jornal “A Campanha”, de fevereiro de 1903, traduz as nunces desse embate. Uma lição para a história.

Um erro da oposição
Aproximam-se os pleitos eleitorais, ambas as facções políticas trabalham no sentido de conquistar o poder, que, como a miragem incerta do deserto, encanta a vista dos partidários políticos.
Apresenta o senador [Benedito] Pereira Leite diversos candidatos que espera sejam eleitos, para eterna vergonha do Maranhão, que já pouco falta para rolar no abismo da humilhação e da morte.
O dr. Costa Rodrigues, por sua vez, apresenta candidatos que, à exceção do dr. Barbosa de Godois, inspiram inteira confiança a seus adeptos.
Na risonha esperança de conseguir montar o seu partido no alto do poder tem muito trabalho; mas não podemos calcular ainda para que lado pende essa vitória que, se a fraude não ganhar, talvez propenda para o do dr. Costa Rodrigues, que não se deixou tombar em negras violências no tempo em que governo foi neste infeliz Estado que tão cedo caiu nas garras rancorosas da tirania cruel que nos destrói.
[…]
A situação dominante enfraqueceu de certo. Diante dos atentados monstruosos, bárbaros, de que foi cenário esta cidade pacífica, desapareceu de repente a popularidade do chefe; não pode mais o povo duvidar da veracidade terríveldos quadros de Parsondas.
A decadência crescente da situação dominante em tudo se manifesta, desde as mais pequenas coisas às maiores. O fato de ter podido o senador conseguir patentes da guarda nacional para alguns amigos que o cercam, nada significa, pois é sabido por todos a nenhuma importância que atualmente se liga a semelhante coisa.
[…]
Exploradores, como são os corvos do governo, propalaram com certeza que tamanho valor tem ele neste estado que ninguém o procura combater. Convém que a oposição jamais se esqueça que se debate agora contra uma facção fraquíssima, cujas armas prediletas são o charlatanismo e a fraude.

[…] É mister não desviar as vistas, nunca, das traições e das fraudes que acompanham sempre os estadistas matreiros que, como a chuva de gafanhotos do Egito, ultimamente caíram sobre esta plaga infeliz.
Se o senador Benedito Pereira Leite, confiado no seu valor político e no grande mérito individual que julga ter, se abstivesse das fraudes costumeiras, passaria neste futuro pleito eleitoral pela triste humilhação de uma derrota completa.

[…]
Um príncipe para poder governar necessita da astúcia da raposa e da força do leão, dizia Maquiavel. O senador Pereira Leite não possui uma nem outra coisa: é príncipe porque despoticamente domina o nosso estado; e raposa porque foge sempre do perigo; e é leão porque derrama o sangue dos adversários que não consegue calar por meio da corrupção!

[“A Campanha” (jornal). Maranhão,, quarta-feira, 11 de fevereiro de 1903]

2 Comments

  1. CARLOS OCIRAN wrote:

    Belo texto. Atualíssimo. É só trocar os nomes e por a data de agora.

    sexta-feira, março 7, 2014 at 02:38 | Permalink
  2. Francisco Vieira Jr wrote:

    O Benedito Leite foi o responsável pela deposição do primeiro governador republicano do Maranhão, Lourenço Sá e Albuquerque, em 1892, só porque a família dele mantinha laços com a monarquia. Fez parte da “junta governativa” do Estado logo em seguida. Bastante astuto.

    terça-feira, abril 8, 2014 at 17:24 | Permalink

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