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Perdido: recuperando uma história da Belém-Brasília

Não é lenda. A história do trabalhador que se perdeu na mata amazônica, no município de Imperatriz, durante a construção da rodovia Belém-Brasília e foi encontrado dois meses depois por um grupo de índios é verídica. Encontrei o registro desse acontecimento nos arquivos do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, edição de 7 de fevereiro de 1959. Transcrevo-o agora, na íntegra:
belem-brasilia
Gaviões levaram ao Posto do SPI operário da Belém-Brasília perdido na mata
Frente avançada da Rodovia Belém-Brasília, fevereiro

(Edísio Gomes de Matos, enviado especial do Jornal do Brasil)

Luís Gonzaga perdeu-se na mata, junto do Igarapé da Cobra, a 90 quilômetros da cidade de Imperatriz, no Maranhão, e passou dois meses procurando o caminho de volta. Levava uma bala no rifle para se matar.
Um dia, ouviu um barulho de canoas na margem do igarapé e gritou de dentro do mato:
— Tem aí bala para caça?
— Não! Temos flechas — responderam. Eram índios Gaviões.
Sessenta dias depois o cearense Luís se juntava aos outros trabalhadores da estrada Belém-Brasília, entregue pelos funcionários do Posto de Atração Indígena de Canindé-Açu.

O ÚNICO A SE PERDER
Luís, o primeiro dos trabalhadores da estrada a ser perder no mato, fazia parte da turma da topografia, comandada por Hilmar Cluck. Sua missão era fixar estacas ao longo das picadas.
Desapareceu no dia 3 de novembro, no lugar que agora se chama “O Perdido”. Segundo uma testemunha, o inspetor do Serviço de Proteção ao Índio, Benamour Brandão Fontes, Luís saiu do acampamento para perseguir uma vara de porcos do mato. Vestia calção azul, estava descalço e levava uma espingarda com oito balas.

A BUSCA
Como Luís não voltou, o inspetor Benamour formou uma expedição para procurá-lo. Três turmas bateram a mata quatro dias seguidos: nem urubus, nem índios, sem sinal do desaparecido.
Enquanto a turma levada por Benjamin Rondon, filho do marechal Rondon, seguia 76 quilômetros adentro, na floresta, em direção ao Guamá, prosseguindo o levantamento topográfico da região, Luís foi devolvido pelos índios na nascente do rio Gurupi.

A HISTÓRIA
Luís Gonzaga diz que não sabe como se perdeu. Perseguindo a caça, supõe que tenha percorrido, no primeiro dia, oito quilômetros mata adentro. Não soube voltar e reservou uma bala no rifle para se suicidar.
Sessenta dias ficou assim. Conta que chorava de vez em quando e temia os índios. Comia o que encontrava e quando o igarapé estava longe, bebia água do cipó “mucunã”, abundante em toda a Amazônia.
Os Gaviões, que não estão ainda de todo pacificados, levaram Luís até a aldeia dos índios Urubus, que o entregaram ao Posto.

A ESTRADA
Chamam-se aqui de “cassacos” os trabalhadores da estrada. O nome vem de uma apelido dado pelos franceses aos operários que construíram a estrada de ferro Madeira-Mamoré.
O ordenado médio é de 13 cruzeiros por hora. O serviço está entregue a empreiteiros. O abastecimento é feito pela Rodobrás, órgão subsidiário do Serviço de Valorização da Amazônia.
Os trabalhadores não têm em que gastar dinheiro. A comida jogada em paraquedas por aviões da FAB é gratuita.
A estrada, partindo de Brasília, caminha pela margem direita do rio Tocantins e passa pelas seguintes cidades e vilas: Anápolis, Jaraguá, Ceres, Uruaçu, Amaro Leite, Porangatu, Gurupi e Cercadinho, todas em Goiás; Estreito, porto Franco, Imperatriz e Açailândia [na época, apenas um aglomerado de pouquíssimas casas, no município de Imperatriz]], no Maranhão; Campo Bernardo Sayão (onde se encontravam as duas frentes), Guamá e Belém, no Pará.
O trecho entre Guamá e Belém (141 quilômetros) está asfaltado. O resto da estrada, que só será entregue ao tráfego em 1960, não receberá asfalto: será de piçarra, um cascalho fino.

3 Comments

  1. Jaldene wrote:

    Será que esse Luiz Gonzaga ainda existe, Adalberto?

    domingo, janeiro 25, 2015 at 15:26 | Permalink
  2. JOSÉ GERALDO wrote:

    PARABÉNS!
    por este novo espaço de reflexão.
    Meu abraço solidário por mais esse “achado”, fruto de sua dedicação à pesquisa independente… sobre nossa HISTÓRIA comum…

    segunda-feira, janeiro 26, 2015 at 00:45 | Permalink
  3. elinva wrote:

    legal …

    segunda-feira, janeiro 26, 2015 at 14:23 | Permalink

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