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A um velho índio que deixou a taba

Neste dia 20 faz um mês que o velho Timbira se foi. Mas creio que avançou o sinal e morreu antes do tempo, embora um dia depois. Para um velho índio, deveria ter-se ido no 19, dia da raça, e não 20, mas não neste ano, só bem depois, porque estava em busca do elixir da juventude e creio que bem perto de encontrá-lo. Há mais de dois anos encontrava-se esporadicamente com um outro pajé, um sábio Guajajara que conhecia como ninguém as propriedades medicinais da diamba e, juntos, faziam infusões milagrosas com as quais curavam até médicos ilustrados que não conseguiam curar a si mesmos.
Eu, índio mais novo, descendente em sexta geração da velha etnia Acaroá — extinta há mais de duzentos anos pelo mal afamado João do Rego Castelo Branco, o cabo-de-guerra do extermínio dos Timbira do médio Parnaíba, em que se incluía ainda os Gueguê e os Caicaí –, conheci-o há mais de duas décadas, num momento em que praguejava contra a falsa santidade do padre Antônio Vieira em suas andanças pelo Maranhão e o Grão-Pará. Se os jesuítas eram defensores de índios, também eram seus algozes, porque presidiam tribunais que autorizavam a “guera justa” de extermínio dos índios.
Pois bem, admirei-o por seus conhecimentos e histórias. Um caboclo sabido, mas sabido mesmo, que conhecia as coisas do sertão e as das cidades. Tanto quanto! Ou até mais! Até mais que,aqueles tupinambás que os fundadores do Maranhão levaram à França para se avistarem com o rei e se vestirem de cristãos. Sim. Porque o velho Timbira do Maranhão, ainda jovem, também foi à França, e lá não ficou apenas dançando e desfilando rituais no palácio do rei para franceses verem. Ele se internou foi na escola da Sorbonne – que existe há mais de 500 anos e onde os tupinambás nem entraram – e de lá só saiu doutor. Deixou a França e foi a Portugal revirar documentos da Amazônia e do Maranhão que os gajos haviam guardado há séculos numa antiga torre.
Vi que poderia aprender muito com aquele abusado caboclo Timbira e me meti a com ele ler velhos documentos, ouvir histórias e a publicar nossas descobertas. Et donc ils ont passé les années…
Renor Bilhete
Em janeiro último, eu o recebi em casa, cedo da manhã, como quase sempre, com cara de ressaca do dia anterior, quando estivera no Bar do Gil, ao lado da Uema. Trazia-me alguns livros de presente, como costumava fazer. Contou as novidades do Piauí, falou das pesquisas em andamento, disse da saúde e labutas diárias do Celso Barros, que, mesmo carregando o peso dos seus mais de 90 anos, não queria saber de aposentadoria e dava expediente diário no escritório de advocacia… Aliás, Celso Barros era para ele uma inspiração, porque, cassado duas vezes por tribunais de ditaduras, sepultara todos os seus julgadores e estava ali, de pé, diante do curso da história.
Nesse dia eu era recém-chegado em casa, depois de mais de dois meses de ausência, em tratamento cardíaco em São Luís, onde fui submetido a um extenso corte cirúrgico para implantação de três pontes de safena. Era eu um ser convalescente desde o início do ano anterior, quando, por complicações de diabetes, passei a ser hóspede de clínicas e hospitais mais do que de minha própria casa.
Ele demonstrava muita preocupação com minha saúde, falando em seu nome e no de nosso amigo comum Celso Barros. Receitava cuidados e remédios para minha cura. Nós não poderíamos morrer ainda, pois prometêramos viver ainda muito tempo para mijarmos nas sepulturas daqueles que pretendiam pegar nas alças dos nossos caixões e ficarem com nossas cadeiras nas academias de letras às quais pertencíamos. Ele também vinha adoentado há cerca de um ano, sob tratamento com um parente médico em Teresina e, por precaução, também com o velho pajé Guajajara.
Acredito, porém, que ele me imaginava mais propenso a cair nos braços de Maíra, porque deixou, dentro de um dos livros que me deu nesse dia, um bilhete que escrevera no final da tarde do dia 13 de janeiro, em cima de uma mesa do Bar do Gil. Esse bilhete, que esqueci de ler, esqueci-o e somente agora o li. Diz:
“Confrade e velho amigo. 13-01-16. 17.35h. Se você acredita no receituário dos velhos pajés, eu e eles vamos te curar do diabetes em 12 meses. É assim: INFUSÃO DE VEREDA (um mês no litro). Beber como água quando sentir sede. Sem contraindicação. Renôr. Bar do Gil* / *Perdemos a velha Dolores sexta-feira.
Renôr faleceu em São Luís no dia 20 de março de 2016. Determinou que o cremassem e jogassem suas cinzas no encontro dos rios Solimões e Tapajós, região que lembra a resistência do grande guerreiro Ajuricaba, nome de um de seus filhos. Frustrou alguns porque não deixou sepultura nem que pegassem na alça do seu caixão.
PS: Ele não percebeu que eu estava sob orientação de uma cardiologista, um angiologista, e os cuidados, ervas e rezas da índia Iracema, que nada tem a ver com aquela do romance de Alencar, mas é uma legítima Timbira Acaroá de 82 anos, que me acolheu de volta à taba. Fiquei para cumprir nossa promessa. (Adalberto Franklin)

2 Comments

  1. Ilma Maria de Oliveira Silva wrote:

    Adalberto, você sempre contribuíndo com belas reflexões. João Renor, não poderia ter ido agora, deixou um vazio.

    quarta-feira, abril 20, 2016 at 09:13 | Permalink
  2. Assis Nobre wrote:

    Caro amigo…
    É um prazer ter notícias tuas ,e a novidade de sabe-lo descendente da honrada raça.
    Saúde, paz e muitas alegrias!

    Abraços.

    quarta-feira, abril 20, 2016 at 12:54 | Permalink

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