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O mais bárbaro crime político de Imperatriz

15 de setembro de 1962. 54 anos hoje.
O prefeito de Imperatriz, João Menezes Santana, do PTB de João Goulart e Brizola, eleito em 1960 com 28 anos de idade, derrotando o candidato do grupo da oligarquia vitorinista local, sofria implacável perseguição do governo de Newton Bello. Era ano de eleições para o Legislativo e os adversários do prefeito faziam tudo para afastá-lo ou eliminá-lo. Nesse dia, logo cedo, o prefeito foi preso, espancado e arrastado pelas ruas, mas salvo pelo juiz de Direito, que o tomou das mãos dos policiais. Mas o que se seguiu foi ainda pior.
Abaixo, trecho do capítulo 12 do livro “Repressão e resistência em Imperatriz”, de Adalberto Fraanklin e Valdizar Lima, a ser lançado em novembro próximo.

* * *
placa-rua-acacio
Em Imperariz, o clima era de muito suspense e temor, por causa das mortes dos policiais, ocorridas no dia anterior, e da prisão do prefeito, ocorrida poucas horas antes. Afastado da área urbana, Mineiro não sabia ainda desses recentes acontecimentos.
Seguindo lentamente pela Rua do Fio com um saco nas costas, Acácio chegou à cidade pouco antes do meio-dia. Tomou a Rua 15 de Novembro e logo dobrou à direita, na Rua Bom Futuro. A duzentos metros dali ficava a casa do prefeito João Menezes, onde trataria com o patrão a recuperação da peça avariada.
Não sabia que a casa estava vazia e o prefeito refugiado.
Pouco antes de chegar à Rua Godofredo Viana, no entanto, a menos de 50 metros do seu destino, foi abordado e preso por policiais, mesmo sem qualquer motivo ou acusação, a mando do capitão Braga, que tomou conhecimento de sua entrada na cidade. Acácio foi levado para a delegacia e trancafiado na cadeia, defronte a Prefeitura. O delegado mandou recado dizendo que somente o soltaria se o próprio prefeito fosse buscá-lo.
Tomado de surpresa, só na delegacia soube do que ocorria. Estivera lá na cerâmica, distante, o tempo todo. Nada tinha a ver com as brigas políticas que ocorriam na cidade. Não tinha motivos para se estar ali. Era apenas um trabalhador, sem qualquer envolvimento com essas disputas.

* * *

Epitácio e Ciro, que mataram os policiais, haviam conseguido fugir e a polícia não tinha sequer pista deles. Alguns diziam, em voz baixa, que eles teriam atravessado o Tocantins e fugido pelas estradas de Goiás.
O sentimento do capitão Braga era de vingança. A morte dos policiais não poderia ficar impune. Epitácio era amigo e correligionário de João Menezes. Era candidato a vereador com apoio do prefeito, portanto, João Menezes era responsável por aquele crime e teria que pagar por ele.
Refugiado na residência do juiz de Direito, João Menezes estava consciente da trama que o delegado preparava, talvez até matá-lo, se possível. Não havia motivos para que o delegado mantivesse preso o gerente de sua cerâmica. Ele nenhum crime cometera, não havia qualquer acusação contra ele. O capitão Braga não poderia cometer o arbítrio de mantê-lo preso sem motivos. Teria que soltá-lo. A quem o delegado queria mesmo era ele, João Menezes, em quem pretendia vingar a morte de seus soldados, mas não se entregaria assim, espontaneamente, como um boi rumo ao matadouro. Além disso, diversos amigos o aconselharam a não ir, pois estavam certos de que o delegado tramava matá-lo.
Tomando conhecimento de que João Menezes não iria à delegacia, o delegado espalhou a informação de que Mineiro seria morto, caso o prefeito não fosse buscá-lo até a meia-noite. Todos na cidade ficaram sabendo. João também soube logo. O clima de suspense antes existente, transformou-se em terror. Teria o delegado a ousadia de matar um inocente em nome de uma vingança que pretendia contra o prefeito?
A perplexidade não dava margem a dúvidas maiores. O capitão Braga era acusado por muitos lavradores de dar apoio a grileiros na expulsão de famílias de suas posses, fora outras arbitrariedades. Eram vários os casos conhecidos de pessoas que tiveram que abandonar suas roças e terras para não serem mortos por jagunços e policiais. E isso tudo com a conivência do governador Newton Bello, que mantinha uma política repressiva contra trabalhadores rurais. A família do próprio governador era uma das mais conhecidas latifundiárias do Maranhão. A polícia maranhense servia como braço armado do latifúndio e das torpezas políticas. No primeiro semestre daquele mesmo ano, uma tropa da Polícia Militar fuzilara e matara oito trabalhadores rurais em Pirapemas, sob as ordens do secretário de Segurança, e tiveram apoio do governador. Não havia muito a duvidar do que era capaz o braço armado do Estado.
Na cadeia, o jovem Mineiro vivia a angústia de estar enjaulado sem ter cometido qualquer delito. Era apenas um trabalhador e cumpria com responsabilidade suas obrigações. Não havia motivos para estar ali, naquela situação injusta e humilhante.
João estava no hotel, refugiado, a apenas trezentos metros da delegacia, sob a proteção do juiz José de Ribamar Andrade, que o salvou das mãos do delegado, na manhã daquele mesmo dia. Não fosse essa intervenção, poderia estar morto.

* * *

Às nove da noite, um soldado foi à cela e deu um aviso a Acácio, em nome do delegado:
— Se o teu patrão não vier te buscar até a meia-noite, tu vai morrer. Faltam só três horas.
Começava assim um processo de tortura psicológica imposta pelo capitão Braga.
Uma hora depois, um outro soldado foi à cela.
— Já são dez horas e o teu patrão ainda não veio. Faltam só duas horas.
Às onze da noite, um novo aviso:
— Falta só uma hora para a meia-noite. Acho que o teu patrão não vem. Se ele não vier, tu vai morrer.
Acácio, todo esse tempo, permaneceu calado. Não tinha nada a dizer além do que já dissera ao delegado, de não ter nada a ver com a morte dos policiais nem com disputas políticas. Era apenas um empregado da cerâmica do prefeito. Não entendia nada de política nem se envolvia em confusões.
Seus argumentos, porém, não importavam ao delegado. Mineiro servia como uma valiosa isca para chegar ao prefeito, homem astuto, inimigo do governo, difícil de ser enquadrado. A ordem, naquela circunstância e oportunidade, era eliminar João Menezes. Desde que fora eleito, há quase dois anos, não existira circunstância mais adequada. Fácil seria difundir que os soldados teriam sido mortos a mando do prefeito, da mesma forma que tentaram culpar os lavradores de Pirapemas de terem atacado a polícia, como o fez em discurso o próprio senador Vitorino Freire, da tribuna do Senado, em Brasília, e de aliados seus, na Câmara dos Deputados. João Menezes sabia de tudo isso. Era um jovem de 30 anos, mas muito maduro e astuto.
Na delegacia, o relógio de parede marcou meia-noite.
João Menezes não apareceu.
O capitão Braga foi, ele mesmo, à cela em que estava Mineiro e mandou que um soldado o soltasse. O jovem foi retirado da cadeia e levado até a calçada. O delegado então mandou que fossem retiradas as algemas do preso e ordenou a este que corresse, sem olhar para trás. Desconfiado, e sem esperar piedade daqueles homens truculentos, Acácio não correu; saiu caminhando lentamente pela rua Coronel Manoel Bandeira, naquele momento vazia. Deu poucos passos. Uma bala de fuzil varou-lhe as costas e caiu ali mesmo, inerte.
Momentos depois, os soldados arrastaram o corpo para a calçada da delegacia. Ali o deixaram exposto, ainda na expectativa de que João Menezes saísse do hotel e fosse buscá-lo e esboçasse alguma reação que justificasse também seu fuzilamento.
Amanheceu. Era domingo e o corpo ainda estava ali, exibido como troféu, ao lado da Prefeitura, à vista de todos, mesmo sob protestos da população. Durante todo o dia o corpo ensanguentado de Acácio ficou ali, estedido na calçada. Vários foram os pedidos de liberação do corpo, para um sepultamento digno, mas o delegado manteve-se indiferente aos apelos. Entrou a noite e a situação continuava a mesma. O corpo, exposto ao calor do sol causticante de setembro, já exalava mau cheiro.
Só na manhã seguinte, frustrado na sua expectativa de ver João Menezes ir resgatar o corpo do seu funcionário, o delegado mandou amarrar mãos e pés do morto e o corpo foi jogado, como um animal, na caçamba de uma camioneta. Levado para o cemitério São João Batista, foi arrastado pelo chão por mais de 50 metros e enterrado do lado esquerdo do portão de entrada, como indigente, sem caixão, numa cova tão rasa que parte dos dedos dos pés ficaram expostos. Depois, pessoas solidárias providenciaram o sepultamento digno do corpo de Acácio.

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Acácio Pereira de Castro é nome de rua em Imperatriz.

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