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Há 50 anos: Caparaó e o foco guerrilheiro de Imperatriz

Completam-se 50 anos do início das pretendidas ações guerrilheiras do Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR), comandado por Leonel Brizola, Neiva Moreira, Darcy Ribeiro e outros, com o intuito de retomar o governo após o golpe civil-militar de 1964. Caparaó e Impertriz eram os dois principais focos da resistência guerrilheira.
A seguir um trecho do livro inédito “Repressão e resistência em Imperatriz”, de autoria de Adalberto Franklin e Valdizar Lima, que será lançado no próximo Salimp, no final de novembro. Texto ainda sem a correção final.

caparao-guerrilheiros

Os quinze jovens estudantes recrutados no Planalto Central por Flávio Tavares, o Dr. Falcão, foram instalados na cidade de Imperatriz e na zona rural às margens do rio Tocantins, até Marabá, estabelecendo uma rota de comunicação e o território em que se daria o início da ação guerrilheira.
Não dispunham ainda de armamento suficiente para as ações planejadas, mas tinham promessa de recebimento de 200 submetralhadoras a serem enviadas pelo governo cubano.
Não era muito pacífico, porém, o relacionamento entre os dois líderes do foco da região tocantina. Em Brasília, durante o período de recrutamento e preparação do pessoal que seria enviado para Imperatriz, Jesnem Moraes e Vera Kassow, uma gaúcha judia, esposa de Flávio, se apaixonaram. Esse acontecimento criou uma inimizade irreconciliável entre os dois, que, no entanto, apesar disso, mantiveram-se na missão que lhes fora dada pelo alto comando do MNR.
Vera, que tinha uma filhinha, Isabela, com o jornalista gaúcho, seguira com Jesnen para Imperatriz.
O jornalista Flávio Tavares, que permanecia maior parte do seu tempo em Brasília, foi informado de que o carregamento de armas não poderia sair de Cuba, porque a ilha estava sob intensa vigilância aérea dos Estados Unidos. Assim, as armas sairiam da Guiana Inglesa, enviadas pelo então ex-primeiro-ministro Chedi Jagan, líder socialista de origem indiana que lutava pela independência de seu país.
Flávio Tavares ficara responsável pela construção de uma pista de pouso no meio da floresta, com 600 metros de comprimento, porque o carregamento deveria chegar num avião DC-3 sigilosamente, voando baixo para não ser detectado por radares. Além disso, a aeronave não poderia retornar. Deveria ser desmontada e dado sumiço às suas peças e fuselagem.
Tavares contratou Zezé, um sertanejo muito “entendido”, acostumado em lutas contra grileiros na região, que assumiu a responsabilidade da construção da pista, em área do extremo-norte de Goiás, perto de Imperatriz, e ele a construiu, com apenas 500 metros de comprimento, em seis meses.
Carlos Lima, que assumira o comando dos negócios e fazia as tarefas deterninadas por João Menezes, retido em Brasília pelos militares, cumpria a missão de guardar as armas dos guerrilheiros, enterrando-as em caixas de flandres num bosque nas proximidades da embocadura do rio Cacau, em Imperatriz. Foi contatado para receber as 200 submetralhadoras que chegariam da Guiana. Temendo a guarda desse volume tão grande de armamento, disse que não tinha condições de armazená-las, pois um carregamento desse porte chamaria muita atenção. Conflitos políticos internos na Guiana, porém, que envolveram Chedi Jagan, impossibilitaram o envio do carregamento das armas.
Segundo alguns líderes do MNR, em outubro de 1966, quando os focos estavam sendo implantados, o guerrilheiro cubano Che Guevara, que retornara derrotado da guerrilha do Congo e preparava seu projeto de promover o levante das Américas a partir da Bolívia, teria sido levado ao Uruguai para encontrar-se com Brizola. Antes, teria se encontrado em São Paulo com Carlos Mariguella e Joaquim Câmara Ferreira, principais líderes da Aliança Libertadora Nacional (ALN), que estava em negociações de apoio com o governo cubano. O coronel Dagoberto Rodrigues, do MNR, teria acompanhado Che do Uruguai à Bolívia.
O foco de Caparaó seria o primeiro a entrar em ação. Em outubro de 1966, 14 homens do MNR ali chegaram para darem início às ações de preparação para a guerrilha. Outros já se encontravam ali ou chegaram depois, formando um grupo de 22. Pelo menos quatro deles haviam feito treinamento em Cuba.
A maioria era composta de ex-integrantes das Forças Armadas, militares expulsos após o golpe. Treze haviam sido militares — um ex-capitão, sete ex-suboficiais e sargentos, além de cinco ex-marinheiros.
Durante cinco meses, isolados, instalados precariamente em barracas e com dificuldades de alimentação, alguns caíram doentes. No início de abril de 1967, o grupo foi derrotado por sua própria ineficiência, sem sequer ter entrado em combate. Doentes, fragilizados física e psicologicamente, foram presos facilmente pela Polícia Militar de Minas Gerais sem terem tido condições de fazer qualquer resistência.
Preso esse pequeno grupo, o Exército foi informado da existência de guerrilheiros na Serra, foram mobilizados cerca de dez mil soldados do Exército e dezenas de aviões com homens e armas, da Aeronáutica, além de agentes do Centro de Informações da Marinha (Cenimar). A disparidade de forças era tão grande que causava comoção, tanta a ingênua pretensão do confronto.
Todos eles foram presos e condenados.
Em Imperatriz, as condições não eram diferentes. Havia também dificuldades financeiras, carências de material e estrutura e dificuldades de adaptação à floresta, com incidência de malária entre os militantes. Temos depois, o próprio Jesnen relatou essa situação:

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Diante da vergonhosa derrota em Caparaó e das dificuldades do foco de Imperatriz,
Leonel Brizola percebeu que o seu projeto guerrilheiro era demasiadamente frágil. Meses depois, em outubro, com a morte de Che Guevara, na Bolívia, desiste do projeto e dá ordem para desmobilizar o que havia do foco de Imperatriz, onde, desde o ano anterior, começara a chegar militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) para organizar a Guerrilha do Arguaia.

One Comment

  1. leopoldo gil dulcio vaz wrote:

    Excelente, Adalberto. Parabéns…

    quarta-feira, outubro 26, 2016 at 14:51 | Permalink

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