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Meu encontro com Dom Paulo Evaristo Arns

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Era 1989. A Igreja promovia uma série da encontros em cada um de seus regionais para conhecer e discutir os problemas das cidades médias. O Maranhão e o Piauí formavam o Regional Nordeste 4. Em Teresina, estavam presentes mais de 100 membros das pastorais sociais, incluindo-se os 12 bispos desse regional e outros bispos brasileiros que atuavam nesse setor, dezenas de cientistas sociais — alguns de renome nacional por suas atividades e publicações. Duas figuras, no entanto, eram as “estrelas” do evento: dom Eugênio Sales, cardeal-arcebispo do Rio de Janeiro, e dom Paulo Evaristo Arns, cardeal-arcebispo de São Paulo. Imperatriz e São Luís eram as únicas cidades maranhenses em discussão.
Eu estava lá, a convite de dom Affonso Gregory, então presidente da Cáritas Internacional o do Ceris, o Centro de Estatísticas Religiosas e Investigações Sociais, bispo de alto conceito na Igreja do Brasil e da América Latina, membro do Pontificio Conselho “Cor Unum”, o conselho do papa para a caridade.
Há menos de dois anos empossado como primeiro bispo de Imperatriz, dom Gregory deveria fazer a terceira palestra do encontro, às 11h da manhã, tratando da realidade de Imperatriz e seus conflitos sociais. Homem de muitos compromissos internacionais, não tivera tempo ainda de se debruçar sobre o histórico e a vivência da realidade de sua diocese. Convidou-me, um mês antes, para substitui-lo nessa tarefa. Faria a introdução ao tema e me apresentaria ao público como o palestrante. Sentti-me confiante e aceitei. A organização do evento não sabia dessa mudança.
Dia e hora chegados. O auditório repleto e eu sentado lá pelo meio, discretamente. Dom Gregory é chamado e assume a tribuna. Havia uma grande expectativa, pois ele era um sociólogo reconheciddo, ex-bispo auxiliar do Rio de Janeiro, considerado da ala progressista da Igreja, que tivera diversos atritos com o cardeal Eugênio Sales, considerado um conservador renitente. Estava então numa diocese de muitos conflitos sociais — sobretudo agrários —, onde três anos antes havia sido assassinado o padre Josimo Moraes Tavares, crime de repercussão internacional. Dom Gregory falou por um cinco minutos e disse que não se sentia ainda em condições de fazer uma análise mais aprofundada da realidade de sua diocese, e que confiara essa tarefa a um jovem jornalista que atuava nas pastorais sociais — mais generosidade do que verdade nessa afirmação. Saí lá do meio da plateia e pus-me ao seu lado. Ele me apresentou e eu comecei a exposição, a partir de um roteiro escrito de mais de dez páginas, que preparara com aprofundada pesquisa e análise.
Eu tinha então apenas 27 anos, mas com a experiência de ter sido editor de um jornal católico, manter colaboração com vários outros jornais de circulação nacional e, por três anos, ter sido editor-chefe do jornal O Progresso, o principal diário de Imperatriz. Não tremi. Estava tranquilo e compenetrado naquela missão. Além disso, dom Gregory permaneceu todo o tempo sentado ali ao meu lado. Nem mesmo a presença de dom Paulo Evaristo Arns, sentado na primeira fila, logo à minha frente, me intimidou. Ele se mostrava muito atento ao que eu dizia. Falei do processo de migração para Imperatriz, dos conflitos de terras, do inchaço das periferias, dos baixos índices de desenvolvimento social, da pobreza, da fome e da falta de serviços públicos eficientes. Depois uma sessão de perguntas, duas delas feitas pelo cardeal Arns. Respondi-as prontamente e com segurança. Recebi muitos aplausos.
Depois da palestra, o almoço. Fui um dos primeiros a me servir e procurei uma mesa vazia e distante para sentar-me. Poucos minutos depois, percebo dom Paulo Evaristo equilibrando um prato na mão esquerda, vindo em minha direção. Parou em minha frente, do outro lado da mesa, e perguntou-me se poderia sentar-se ali. Eu apenas disse: “Claro!” Ele colocou o prato na mesa, puxou a cadeira e sentou-se bem à minha frente. Percebi que não fora por acaso. Havia sido uma escolha sentar-se ali. Como se não soubesse, perguntou-me:
— Foi você quem fez esta última palestra, não foi?
Eu, agora um pouco nervoso, apenas respondi que sim.
Ele, secamete, disse:
— Parabéns! Foi a melhor palestra que tivemos nesta manhã.
Perguntou em seguida sobre as minhas atividades profissionais e minha atuação na Igreja. Conversamos por uns quinze minutos, já ladeado por alguns curiosos que queriam saber do interesse do famosos cardeal por um jovem jornalista do Maranhão.
Dom Paulo percebeu que eu estava com um livreto sobre ele, escrito por um jornalista de São Paulo. Fez um rápido comentário sobre essa publicação e nela escreveu, de caneta de tinta preta: “Adalberto, continue com sua missão. Paulo Evaristo, card. Arns.” Até hoje guardo esse livreto como uma relíquia. Essa conversa e esse elogio gratuito me estimularam a abraçar a comunicação como profissão e opção de vida. Mesmo que não profissionalmente, nunca deixei o jornalismo como missão — apenas como profissão, pois propus-me a nunca me dobrar às vontades e manobras dos proprietários dos meios, das empresas que os mantêm e dos políticos que defendem.
Vale dizer que nessa época eu já era um fã incondicional de dom Paulo, sobretudo por seus trabalhos e sua atuação em defesa dos direitos humanos. Ele e dom Hélder Câmara, o arcebispo de Olinda e Recife, eram referências para mim desde minha juventude, quando eu ainda secundarista, sequer tinha ligações com a Igreja. Aliás, dom Paulo é personagem do meu próxmo livro, a biografia de Manoel Conceição, o lider camponês. Dom Paulo acolheu, protegeu e salvou Manoel da tortura e da morte durante o regime militar.

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