Eu deveria ontem ter ido ao Teatro Ferreira Gular prestar minha homenagem pós-mortem a Luís Brasília. Já havia inclusive mentalizado o breve prenunciamento que pretendia fazer. Fui impedido por dois fatos; um de ordem familiar e o outro de ordem pessoal, que não cabe aqui mencioná-los. Não gosto de ver corpos inertes, mortos. Amo a vida e as pessoas vivas, por isso, gosto também de lembrá-las com vida. Talvez seja isso um bloqueio psicológico, face a traumas de mortes pelos quais passei em família. Mesmo assim, estive, por pouco tempo, no velório do Luís, na Fundação Cultural, na semana passada. Por pouco tempo, para não se fixar em minha mente aquela imagem do amigo sem vida. Luís Brasília apareceu e desapareceu de Imperatriz sob a marca do mistério. Quase ninguém sabia qual era mesmo sua atividade principal; o que ou quem o prendia à cidade. De sua família, ninguém dava notícia. Seu nome verdadeiro, mesmo eu somente soube depois de sua morte. Sabe-se que chegou a Imperatriz na metade da década de ’80, como assessor do então deputado federal Onofre Correa. Logo depois, integrou-se e fincou raízes na TV Mirante, onde o conheci mais de perto, em 1991, quando ali trabalhei durante quase um ano. Mantivemos os primeiros contatos ainda na década de ’80, quando ele produzia o “Arte Nativa”, programa dominical de cultura (especialmente música) da TV Mirante até hoje não superado. Não lembro bem, mas creio que nesse período eu era o editor-chefe do jornal “O Progresso”. Ele gravou uma entrevista comigo para um desses programas.
Ao longo desses quase 25 anos, Luís Brasília nunca arredou dos círculos culturais. Aliás, fez-se editor de Cultura da TV Mirante, que, mesmo se não o exercia plenamente nos últimos tempos, assim os créditos dos telejornais o mantinham como tal. Era homem dos bastidores. Não gostava — nem precisava – de ser notícia. Metia-se em tudo quanto cheirasse a cultura na cidade. Dava opiniões, elogiava e criticava abertamente, sem receio de cometer ofensas; oferecia apoio, abria espaço na TV e às vezes até conseguia viabilizar projetos que envolviam recursos financeiros. Na música, no teatro, na literatura, nas artes plásticas, nas manifestações populares, Luís em tudo se metia. Construía e desconstruía. Era sensível e engajado. Colaborou com tudo, sem demonstrar ou carrear interesse pessoal ou mesmo fazer qualquer exigência de caráter ou apoio político ao grupo ao qual pertencia. Foi essa incondicionada atividade que certamente o fez respeitado por todos os fazedores de cultura de Imperatriz. Esteve presente em praticamente todos os grandes eventos culturais de Imperatriz, desde o FABER, o grande festival de música que Imperatriz sediou a partir de 1986, até o elogiado SALIMP, o Salão do Livro de Imperatriz, em que deu diversas contribuições à organização e inestimável apoio na divulgação, juntamente com Sérgio Macedo. No teatro, tinha cadeira cativa; era personagem permanente, representando a si mesmo em tudo quanto ali se fazia. Na música, foi um dos maiores responsáveis pela projeção interna e externa dos nossos melhores compositores e intérpretes. E garanto que não há, nestas afirmações, qualquer exagero. Quem o conheceu com mais intimidade, sabe-o.
Quero, do Luís Brasília, guardar algumas passagens de nossa convivência ao longo desse quase um quarto de século:
1) Notívago, Luís Brasília nunca foi de acordar cedo. Em 1991, eu chegava cedo – antes da seis da manhã — à redação do telejornalismo da Mirante para escrever o noticiário do Bom Dia Imperatriz. Por volta das 8h da manhã, logo após o café (ali mesmo no prédio), encontro-o sentado frente a uma mesa de edição extasiado olhando umas imagens feitas no final da tarde anterior pelo cinegrafista Raimundo Bezerra. Vai até à redação e me chama para vê-las. Era uma revoada de andorinhas num pôr de sol (agora se escreve assim mesmo, sem hífen) flagrada em João Lisboa. Creio que tenha passado parte da noite vendo e revendo aquelas imagens. Pediu então que eu fizesse um texto para um clipe que ele queria editar, com a música “Ave cantadeira”, do Paulinho Pedra Azul. Parece-me que ele mesmo editou. Ficou muito bonito. Sei que esse clipe encerrou o telejornal do meio-dia e foi muito comentado na cidade. Ganhou reexibição na mesma semana. Assim era o Luís, quando se determinava a uma tarefa. [Margarete, será que esse clipe ainda existe nos arquivos da Mirante?]
2) Num dia, ou melhor, numa madrugada, por volta das 2h da manhã, estávamos eu, o Luís e o Wilson Zara, no Caneleiros, antigo reduto imperatrizense da MPB, na rua Frei Manoel Procópio, num bate-papo sobre músicas e músicos da cidade. Fiz então um comentário sobre a relação entre a música “Sarará”, do Erasmo Dibel, e a história sul-maranhense, a “saga” dos migrantes piauienses que atravessavam o Parnaíba e vinham viver nas margens do Tocantins. Luís ficou impressionado com minha exposição. Começou a telefonar seguidamente para o Erasmo e o Gilberto Freire de Santana para que, naquela hora, fossem até o Caneleiros participar da conversa. Uns trinta minutos depois, o Gilberto chegou; o Erasmo, que parece ter prometido ir, não apareceu. Ficamos ali até umas quatro da manhã, jogando conversa fora. Assim era o Luís: entusiasmado e inoportuno.
3) No final do ano passado, o Luís cismou em fazer o registro da obra musical do Erasmo Dibel. Queria produzir um livro com as letras das composições do Erasmo e me pediu que organizasse esse trabalho. Parecia, porém, que o homenageado não sabia dessa movimentação do Luís. Decidimos que deveria ser feito um song-book. Com a ajuda da Margarete Valente, foi levantado algum material escrito; o próprio Erasmo me enviou arquivos com as letras. Acertamos que eu selecionaria e organizaria e o material, com apoio da Margarete, e ainda escreveria textos. Luís me telefonava, às vezes, cinco ou mais vezes por dia, para fazer a mesma pergunta: “Como está o livro?”. Toda vez eu dava a mesma resposta: “Isso é um processo lento, não se faz de um dia para o outro; ainda temos pouco material”. No dia anterior à sua morte, verifiquei no meu telefone uma ligação sua, não atendida (costumo, às vezes, abandonar o telefone nos finais de semana). O Luís se foi; o telefone silenciou. O seu último projeto ficou pela metade. Mas o Luís era assim: determinado e persistente.
Este será o Luís do qual me lembrarei: incomum, insólito, ousado, audacioso, atrevido, desaforado, altivo e por vezes inconveniente. Nunca arrogante nem insensível nem traiçoeiro.
É certo que a cultura de Imperatriz muito deve a ele, inclusive a existência da Fundação Cultural de Imperatriz, que em 1995 ele convenceu o então interventor Ildon Marques a constituir (em lei enviada à Câmara) e a construir (o prédio, onde ficava uma construção abandonada do Estado). Eu, ele, o Henrique Guimarães, o Erasmo Dibel e o Gilberto Freire nos reunimos durante três meses para criar o texto da lei de incentivo à cultura (depois extinta pela Câmara a pedido do próprio Ildon Marques, já prefeito) e o Estatuto da Fundação. Fui o primeiro presidente da FCI, por dois anos, em conflito político e administrativo permanente, primeiro com o interventor Dorian Menezes, que recusou-se a fazer qualquer repasse à Fundação, e depois com o próprio Ildon, que, eleito prefeito, quis extinguir a FCI, “reduto” de seus adversários políticos.