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Terra, violência e sangue na estrada do arroz: o diário de Irmã Gertrudes

sábado, 14 de janeiro de 2012

Terra, violência e sangue na estrada do arroz: o diário de Irmã Gertrudes é o título provisório de um dos cinco livros que publicarei neste ano para celebrar meus cinquenta anos.
Tem como base os escritos deixados pela missionária católica Irmã Gertrudes, que viveu na zona rural de Imperatriz, na área denominada ‘Estrada do Arroz”, na metade da década de 1970, quando acompanhou o violento processo de expropriação e expulsão dos migrantes nordestinos pioneiros naquelas terras.
É um registro contundente da história regional.
A seguir, dois trechos do “diário”:

15.08.1975
São mais ou menos quatrocentas famílias.
Estas famílias estão sofrendo uma tremenda tortura psicológica por parte do sr. Raimundo Fogoió. Aí no Pequizeiro estão dois pistoleiros do Raimundo Fogoió. Esses homens passam a amedrontar, a intimidar e a prometer fazer horrores com os habitantes. A própria mãe de um deles já se mudou com um filho para Imperatriz, com medo do próprio filho dela e do irmão.
Outras famílias também já abandonaram suas casas e lavouras, preferindo passar miséria em Imperatriz, mas longe desta situação.
Todas as casas provam bem o trabalho deste povo. São casas de barro com bonitos quintais, bem plantados. Árvores bem antigas, dando testemunho do que estou dizendo.
Todos são unânimes em dizer que não querem vender suas terras; querem morar ali, no que é seu. Indenização alguma será capaz de comprar ou pagar o trabalho que já fizeram aí. É o amor dedicado ao lugar.
Esse senhor já conseguiu muita terra com esse método. E para que? Simplesmente porque quer queimar e imediatamente semear o capim o seu gado (que não tem), como se o gado valesse mais que o homem, filho de Deus.
[...]
O problema de terras aqui é muito atual. Os moradores moram normalmente nestas terras desde o ano de 1958. Eles vivem com medo de serem expulsos por ricos fazendeiros. Já foram inúmeras vezes a Imperatriz. Pediram ajuda aos prefeitos, aos delegados de terras, ao Exército, ao Incra… Todos garantem que eles têm direito à terra por usocapião, porque são os posseiros e os pioneiros.
As perseguições são grandes. Os fazendeiros invadem capoeiras, passam o arame no meio das roças já queimadas, semeiam o capim nas roças e soltam o gado para destruir as colheiras dos lavradores. Algumas vezes a polícia aparece e leva para a cadeia estes lavradores, acusados de invasores. São as grandes injustiças do tempo de hoje.
[...]

14.09.1975
Nova e triste notícia do Pequizeiro. os homens de Raimundo Fogoió queimaram as terras perto do povoado, atigindo também algumas casas. [...]
Três famílias, não aguentando a pressão e sabendo inútil o seu esforço em procurar seus direitos, resolveram vender por Cr$ 2.000,00 suas terras, suas casas e seus ricos quintais e foram morar em Imperatriz.
Os outros estão sem saber o que fazer, pois sentem que estão ficando sem forças, sem coragem de lutar. Sabem que o mais forte e o que tem mais dinheiro é quem vai vencer.

Procópio, Santa Teresa e a fundação de Imperatriz

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Abaixo, transcrevo texto que escrevi para ser lido na Missa pelo 159.o aniversário de fundação de Imperatriz, celebrada dia 16 de julho de 2011 na Igreja Matriz de Santa Teresa d’Ávila, padroeira da cidade. Há nele algumas informações inéditas, por isso creio ser importante registro para a história regional.

Imperatriz: sob a proteção de Santa Teresa

*Texto de Adalberto Franklin

Até o dia 12 de junho de 1852, apenas 34 dias antes da chegada de Frei Manoel Procópio, estas terras do sudoeste maranhense, desde o atual município de Campestre, até o rio Gurupi, eram território paraense. Mas nem o frade carmelita fundador de Imperatriz nem o governo do Maranhão sabiam disso ainda.
Essa região era denominada pelos colonizadores do sul do Maranhão de Matas Gerais, território em que eles não se atreviam a entrar, porque eram protegidas e defendidas por dois povos indígenas da grande nação Timbira, muito temidos: os Gavião e os Krikati, que dominavam as margens e os sertões próximos ao rio Tocantins até a confluência com o rio Araguaia. Durante 40 anos, esses povos indígenas derrotaram as expedições de bandeirantes e soldados que quiseram exterminá-los e ocupar suas terras.
Nem mesmo os experientes navegadores do rio Tocantins, que faziam viagens de comércio entre Goiás e Belém, se atreviam a navegar pela margem esquerda quando viajavam subindo o rio nesta região. Isso é o que testemunha em seu relatório de viagem o conde Francis Castelnau, um europeu que por aqui passou em 1844 comandando uma expedição científica.
Nesse mesmo ano de 1844, o governo da Província do Pará decidiu constituir cinco expedições para criar, nos muitos rios do seu território, colônias militares e aldeamento indígenas para acelerar a ocupação e dar suporte às navegações. Uma dessas expedições subiria o rio Tocantins, com a missão de aldear os índios do então chamado Alto Tocantins, nas proximidades das cachoeiras de Itaboca, lugar onde fica hoje a hidrelétrica de Tucuruí. Nessa mesma resolução, ficou decidido que a povoação a ser fundada pela expedição do Alto Tocantins se chamaria “Santa Teresa”.
Vê-se, então, que não foi Frei Manoel Procópio quem deu o nome nem estabeleceu a devoção dos habitantes da nova povoação a Santa Teresa de Ávila. Isso já estava previamente determinado.
Por falta de missionários experientes em missões indígenas, a expedição do Alto Tocantins somente foi iniciada em 1849, cinco anos depois de definida. O presidente da Província do Pará, Jerônimo Francisco Coelho, recorreu ao bispo de Pará e este ao bispo da Bahia, para que se buscasse um sacerdote experiente na lida com os indígenas. O indicado foi Frei Manoel Procópio do Coração de Maria, um jovem sacerdote carmelita, de pouco mais de trinta anos, que vivia num convento da Bahia.
Chegando a Belém, Frei Manoel Procópio foi nomeado capelão da expedição do Alto Tocantins, contratado e pago com recursos do Tesouro do Pará. O comando era do tenente-coronel reformado Ayres Carneiro, um respeitado militar. A expedição partiu de Belém em junho de 1849. Dela faziam parte onze embarcações e quase duzentas pessoas no total, entre comandantes, tripulantes, e famílias de colonos.
Em pleno verão, quando o rio apresentava suas belas praias, a expedição chegou ao Remansão, localidade logo abaixo das grandes corredeiras das cachoeiras de Itaboca, lugar previamente determinado para a fundação da colônia militar e aldeamento indígena. Ali se estabeleceram os colonos e frei Manoel Procópio começou os contatos com os indígenas. Ficou fundada aí a Colônia Militar de Santa Teresa, como determinara o governo do Pará.
Poucos meses depois, em dezembro, chegou um forte inverno. O rio Tocantins encobriu as belezas de suas margens, trazendo muitas febres. Quase a metade dos colonos morreu de febres. Os sobreviventes foram levados de volta para Belém. A colônia se desfez, mas Frei Manoel Procópio não desistiu: continuou sua missão. Com alguns soldados e poucas famílias de colonos, subiu ainda mais o rio e estabeleceu-se em São João do Araguaia, no encontro das águas dos rios Tocantins e Araguaia.
Sediado em São João do Araguaia, Frei Manoel Procópio iniciou contatos com os índios Apinagé, ocupantes da margem esquerda do rio Tocantins. Conseguiu aldear esses índios por cerca de um ano, em meses de 1950 e 1951, nas margens do rio Tocantins, mas logo depois os indígenas se desentenderam com ele e voltaram para as matas. Certamente nesse lugar, mesmo que em território aparentemente goiano, o frade tentava refundar a colônia militar de Santa Teresa, da qual fora incumbido.
Havendo desistido de aldear os Apinagé, Frei Manoel Procópio inciou contatos com os temidos Gavião e Krikati, mais conhecidos na época como Caracatigês, que habitavam na margem direita do Tocantins, acima da confluência do Araguaia, ainda território paraense — o território do Pará ia até o Seco do Curuá, defronte à hoje cidade de Campestre do Maranhão. Sabia-se que os indígenas dessa área – gavião e krikati – eram arredios e defendiam ferozmente suas terras, além de terem derrotado várias expedições de bandeirantes colonizadores desde o começo do século XIX, por isso eram muito temidos.
Alheio a tudo isso, o jovem frade carmelita embrenhou-se nas matas e visitou, primeiramente, as aldeias dos índios Gavião. Convenceu-os de que seria melhor viver em paz, aldeados, que morrer nos enfrentamentos com os bandeirantes. Assim, conseguiu o frade aldear 800 índios Gavião no lugar então chamado de Campo dos Frades, nas margens do rio Tocantins, hoje povoado Frades, no município de Cidelândia.
Depois disso, visitou cada uma das aldeias dos índios Krikati, nos sertões, e também convenceu-os a aldearem-se. Estes, porém, não concordaram em ficar num só aldeamento, mas em dois, ambos nas margens do Tocantins, embora não muito distantes uma da outra. Um aldeamento Krikati ficou, então, próximo à embocadura do rio Cacau e o outro da confluência do então chamado rio Embira Branca, que se supõe ser o rio Barra Grande.
Estabelecidos esses aldeamentos, Frei Manoel Procópio resolveu deixar São João do Araguaia e finalmente refundar a colônia de Santa Teresa, missão que abraçara três anos antes e, sob a proteção de Virgem de Ávila, se dedicara sem temor e sem tréguas. Não seria mais uma colônia militar, como pretendera o governo do Pará, mas uma povoação para dar suporte e guarida aos navegadores do rio Tocantins, que até então percorriam centenas de léguas sem qualquer lugar de pouso ou acolhimento.
Acompanhado então de dois soldados e duas famílias de colonos que com ele viviam em São João do Araguaia, e levando consigo a imagem da santa de Ávila, que desde sua partida mantinha como patrona da missão, Frei Manoel Procópio subiu o rio e estabeleceu-se entre os dois aldeamentos dos Krikati, a partir de onde melhor poderia acompanhá-los e promover sua catequese. O dia de sua chegada foi o 16 de julho de 1852, que hoje se completam 159 anos.
Estava assim fundada a missão de Santa Teresa d’Ávila, que no começo passou a ser denominada oficialmente pelo governo do Pará de Povoação de Santa Teresa do Tocantins, e depois passou a se chamar Vila Nova da Imperatriz e, por fim, Imperatriz. Passaram-se mais de dois anos para que o governo do Maranhão tomasse conhecimento da fundação de Santa Teresa.
O governo do Pará rescindiu o contrato com Frei Manoel Procópio dois anos depois de ter sido fundada a povoação. Mesmo assim, o frade carmelita resolveu permanecer na vila, onde viveu durante dez anos, protegendo, defendendo e catequizando os índios, estimulando famílias a se estabelecerem na região e promovendo o desenvolvimento da nova povoação.
Assim, pela Providência Divina, aqui floresceu a povoação de Santa Teresa, fruto do amor, do trabalho, da ousadia, da determinação e da persistência do jovem frade carmelita Manoel Procópio do Coração de Maria, um baiano que como muitos outros migrantes nordestinos e outras pessoas de todas as regiões brasileiras, para cá vieram buscar abrigo e prosperidade sob o patronato da Virgem de Ávila.

Música maranhense em Teresina

sábado, 27 de novembro de 2010

Anteontem (quinta, 25.11), o recém-inaugurado Cine-Teatro da UFPI (Campus Petrônio Portella), abriu as portas para a apresentação da comédia musical “Véspera de Reis” e um concerto sinfônico da Orquestra de Câmara da UFPI, acompanhada do vocal do Departamento de Música e Artes Visuais e do Coro Letitia et Spes, sob regência do jovem maestro Cássio Martins.

O concerto foi resultado de uma pesquisa desenvolvida pelo Núcleo de Pesquisa em Música da UFPI, coordenado pelo professor doutor João Berchmans de Carvalho Sobrinho, e contou com a publicação de dois livros de sua autoria: Músicas e músicos em São Luís: subsídios para uma história da música no MaranhãoTexto e contexto: a comédia musical Véspera de Reis, de Francisco Libânio Colás, ambos com o selo da Ética Editora (Imperatriz, MA).

O programa, dividido em três partes, teve, inicialmente, a execução do Glória da Missa n. 1, de Francisco Libânio Colás (São Luís, 1830-Recife, 1885). Depois, o Divertimento n. 11 (Alegro), de Mozart, e a Sinfonia n. 27, de Haydn. Na última parte, foi apresentada a opereta “Véspera de Reis”, que tem música de Francisco Colás e texto do também maranhense Arthur Azevedo, uma comédia de costumes muito apresentada no século XIX em diversas capitais brasileiras, cuja partitura se perdera e foi agora recuperada pelo professor João Berchmans Sobrinho. Essa partitura vai integralmente reproduzida no livro “Texto e contexto:…”.

Estive presente ao evento, ao lado de vários amigos professores da UFPI. Berchmans me informou que já recebeu vários convites para a reapresentação da opereta em São Luís e outras cidade.

Equívocos na história de Imperatriz

domingo, 18 de julho de 2010
Meu amigo João Rodrigues, esforçado repórter da sucursal de “O Estado do Maranhão” em Imperatriz, procurou-me às vésperas do aniversário da cidade para que eu comentasse alguns fatos que tenho contestado em relação à história do município. Seria uma matéria para a edição de “O Estado” no dia do 158º aniversário de fundação de Imperatriz, ocorrido na sexta-feira, 16 de julho.
Como eu estava em São Luís, pedi-lhe que enviasse as perguntas por e-mail que eu as reponderia até a manhã seguinte (na quinta-feira, 15). Assim ele fez  e respondi aos questionamentos ainda cedo da manhã, com tempo para que ele escrevesse e encaminhasse seu texto até as 11h para a redação.
Não sei se ele leu atentamente o texto, porque me telefonou logo em seguida para perguntar sobre coisas que estavam escritas no e-mail. Mas tornei a explicá-las por telefone. E sempre finalizava, preocupado: “Entendeu?”. E ele assegurava que sim.
As informações foram publicadas em box de duas colunas, ao lado de uma longa matéria de três quartos de páginas sobre o aniversário da Imperatriz, na página 3 do caderno “Cidades”, edição do dia 17. Li-a na tarde desse mesmo dia. Mas… que decepção!
Não sei se por culpa do João ou do pessoal da editoria, em São Luís, que costuma cortar matérias para reduzir o espaço a ser ocupado (no caso, talvez, para caber num “box”), minhas informações se transformaram em desinformação. Três importantes fatos ficaram completamente distorcidos, comprometendo a informação histórica que se pretendia. E, com isso, comprometendo a minha credibilidade de historiador, que tanto prezo. Como o jornal é o de maior circulação no Estado, essas informações podem ser reprozidas com erro por outras pessoas, aqui e em outros lugares, causando prejuízos também à história imperatrizense. Também, os leitores de meus livros podem se assustar em eu dizer uma coisa nos livros e afirmar outra em uma matéria de jornal.
Diante disso, faço aqui um pequeno reparo sobre esse pequeno texto publicado em “O Estado”:
1) O jornal publicou que “o frei [Manoel Procópio, fundador de Imperatriz] contatou com os índios gaviões e krikatis, do Maranhão. Com o aldeamento de 800 índios gaviões no lugar onde hoje fica o povoado de Cidelândia [...]“.
— Eu afirmei, na verdade (e isso está escrito em meu livro “Breve história de Imperatriz”), que o frei Manoel Procópio aldeou 800 índios Gavião e Krikati na localidade Frades, nas margens do rio Tocantins, hoje povoado do município de Cidelândia. Veja-se que não foi em Cidelândia, hoje sede do município desse mesmo nome, e sim em Frades, a mais antiga localidade desta região, que existia já antes mesmo da fundação de Imperatriz. Dizer que na metade do século XIX frei Manoel Procópio tenha aldeado índios em Cidelândia é um absurdo, pois o povoado que deu origem a essa cidade foi fundado a menos de 50 anos.
2) O jornal publicou: “disse o historiador [Adalberto Franklin], acrescentando que Imperatriz foi fundada às margens do riacho Cacau.”
— Outro grave equívico. Transcrevo o que escrevi no e-mail enviado ao João Rodrigues:
Não é verdade que inicialmente a povoação de Santa Teresa tenha sido instalada na confluência do rio Cacau com o Tocantins e depois transferida para as imediação da hoje praça da Meteorologia, em face de uma cheia no Cacau. O primeiro sítio onde frei Manoel Procópio estabeleceu a “Colônia de Santa Teresa”, em setembro de 1849, foi no lugar chamado Remansão, no rio Tocantins, após as antigas cachoeiras de Itaboca, onde hoje fica a hidroelétrica de Tucuruí. No final do ano, houve uma grande cheia e morreram de febres muitos colonos levados para lá por frei Manoel Procópio, desistindo ele desse local. Frei Manoel Procópio, com alguns colonos, seguiu dali e se estabeleceu na confluência do rio Araguaia com o Tocantins (São João do Araguaia), de onde passou a fazer contato com os índios Apinajé (e conseguiu aldeá-los por algum tempo), do lado de Goiás; depois contactou com os Gavião e os Krikati, do Maranhão. Depois de conseguir aldear 800 índios Gavião no lugar Frades (hoje povoado de Cidelândia), e os Krikati em duas aldeias (uma nas margens do rio Cacau e outra no Barra Grande), resolveu então refundar a Colônia de Santa Teresa, entre essas duas aldeias, para acompanhar os índios aldeados e formar a nova povoação.
Então, essa história de que inicialmente Imperatriz foi fundada nas margens do rio Cacau não é verdade; isso é uma versão deturpada do acontecido no Remansão.
3) Mais outro: “[...] Adalberto Franklin concluiu que a fundação foi mesmo em 1852 e, ainda, que Frei Manoel Procópio era um capelão da Polícia Militar.”
Em momento nenhum eu afirmei que frei Manoel Procópio fosse capelão da Polícia Militar. O que eu disse foi que a expedição que deixou Belém em 1849 para fundar a colônia de Santa Teresa era comandada por um militar, e que frei Manoel Procópio era o capelão dessa expedição [naquela época, todas as expedições desse tipo eram obrigadas a ter um capelão, um sacerdote católico, na equipe].
Antes de escrever este texto, enviei um e-mail ao João Rodrigues pedindo que ele fizesse algo para reduzir os prejuízos dessas informações equivocadas.
Tomara que pelo menos minimizem o prejuízo histórico que pode causar.

Meu amigo João Rodrigues, esforçado repórter da sucursal de “O Estado do Maranhão” em Imperatriz, procurou-me às vésperas do aniversário da cidade para que eu comentasse alguns fatos que tenho contestado em relação à história do município. Seria uma matéria para a edição de “O Estado” no dia do 158º aniversário de fundação de Imperatriz, ocorrida na sexta-feira, 16 de julho.Como eu estava em São Luís, pedi-lhe que enviasse as perguntas por e-mail que eu as reponderia até a manhã seguinte (na quinta-feira, 15). Assim ele fez  e respondi aos questionamentos ainda cedo da manhã, com tempo para que ele escrevesse e encaminhasse seu texto até as 11h para a redação.Não sei se ele leu atentamente o texto, porque me telefonou logo em seguida para perguntar sobre coisas que estavam escritas no e-mail. Mas tornei a explicá-las por telefone. E sempre finalizava, preocupado: “Entendeu?”. E ele assegurava que sim.As informações foram publicadas em box de duas colunas, ao lado de uma longa matéria de três quartos de páginas sobre o aniversário da Imperatriz, na página 3 do caderno “Cidades”, edição do dia 17. Li-a na tarde desse mesmo dia. Mas… que decepção!Não sei se por culpa do João ou do pessoal da editoria, em São Luís, que costuma cortar matérias para reduzir o espaço a ser ocupado (no caso, talvez, para caber num “box”), minhas informações se transformaram em desinformação. Três importantes fatos ficaram completamente distorcidos, comprometendo a informação histórica que se pretendia. E, com isso, comprometendo a minha credibilidade de historiador, que tanto prezo. Como o jornal é o de maior circulação no Estado, essas informações podem ser reprozidas com erro por outras pessoas, aqui e em outros lugares, causando prejuízos também à história imperatrizense. Também, os leitores de meus livros podem se assustar em eu dizer uma coisa nos livros e afirmar outra em uma matéria de jornal. Diante disso, faço aqui um pequeno reparo sobre esse pequeno texto publicado em “O Estado”:
1) O jornal publicou que “o frei [Manoel Procópio, fundador de Imperatriz] contatou com os índios gaviões e krikatis, do Maranhão. Com o aldeamento de 800 índios gaviões no lugar onde hoje fica o povoado de Cidelândia [...]“.— Eu afirmei, na verdade (e isso está escrito em meu livro “Breve história de Imperatriz”), que o frei Manoel Procópio aldeou 800 índios Gavião e Krikati na localidade Frades, nas margens do rio Tocantins, hoje povoado do município de Cidelândia. Veja-se que não foi em Cidelândia, hoje sede do município desse mesmo nome, e sim em Frades, a mais antiga localidade desta região, que existia já antes mesmo da fundação de Imperatriz. Dizer que na metade do século XIX frei Manoel Procópio tenha aldeado índios em Cidelândia é um absurdo, pois o povoado que deu origem a essa cidade foi fundado a menos de 50 anos.
2) O jornal publicou: “disse o historiador [Adalberto Franklin], acrescentando que Imperatriz foi fundada às margens do riacho Cacau.”— Outro grave equívico. Transcrevo o que escrevi no e-mail enviado ao João Rodrigues: Não é verdade que inicialmente a povoação de Santa Teresa tenha sido instalada na confluência do rio Cacau com o Tocantins e depois transferida para as imediação da hoje praça da Meteorologia, em face de uma cheia no Cacau. O primeiro sítio onde frei Manoel Procópio estabeleceu a “Colônia de Santa Teresa”, em setembro de 1849, foi no lugar chamado Remansão, no rio Tocantins, após as antigas cachoeiras de Itaboca, onde hoje fica a hidroelétrica de Tucuruí. No final do ano, houve uma grande cheia e morreram de febres muitos colonos levados para lá por frei Manoel Procópio, desistindo ele desse local. Frei Manoel Procópio, com alguns colonos, seguiu dali e se estabeleceu na confluência do rio Araguaia com o Tocantins (São João do Araguaia), de onde passou a fazer contato com os índios Apinajé (e conseguiu aldeá-los por algum tempo), do lado de Goiás; depois contactou com os Gavião e os Krikati, do Maranhão. Depois de conseguir aldear 800 índios Gavião no lugar Frades (hoje povoado de Cidelândia), e os Krikati em duas aldeias (uma nas margens do rio Cacau e outra no Barra Grande), resolveu então refundar a Colônia de Santa Teresa, entre essas duas aldeias, para acompanhar os índios aldeados e formar a nova povoação. Então, essa história de que inicialmente Imperatriz foi fundada nas margens do rio Cacau não é verdade; isso é uma versão deturpada do acontecido no Remansão.
3) Mais outro: “[...] Adalberto Franklin concluiu que a fundação foi mesmo em 1852 e, ainda, que Frei Manoel Procópio era um capelão da Polícia Militar.”Em momento nenhum eu afirmei que frei Manoel Procópio fosse capelão da Polícia Militar. O que eu disse foi que a expedição que deixou Belém em 1849 para fundar a colônia de Santa Teresa era comandada por um militar, e que frei Manoel Procópio era o capelão dessa expedição [naquela época, todas as expedições desse tipo eram obrigadas a ter um capelão, um sacerdote católico, na equipe].
Antes de escrever este texto, enviei um e-mail ao João Rodrigues pedindo que ele fizesse algo para reduzir os prejuízos dessas informações equivocadas.Tomara que pelo menos minimizem o prejuízo histórico que pode causar.

Documentos inéditos sobre a história do Maranhão

terça-feira, 29 de junho de 2010

Havia algum tempo eu desejava publicar em livro um artigo do historiador alemão Franz Obermeier, da Universidade de Kiel, que trata dos capítulos censurados da obra do capuchinho francês Yves d’Evreux, impressa em 1615, sobre a fundação de São Luís. Originalmente, foi publicada sob o título de “Suitte de l’histoire des choses plus memorables advenues em Maragnan és annes 1613 & 1614”.

Já impresso, em Paris, mas ainda na tipografia do impressor François Ruby, o livro foi censurado pela Corte francesa, pois continha críticas aos portugueses, e, nesse mesmo período, o rei francês Luís XIII havia se casado com a princesa Ana d’Áustria, filha do rei da Espanha, que era, na época, soberano também de Portugal. Não seria politicamente adequado deixar circular uma obra francesa com críticas a Portugal, agora um aliado. Com isso, o livro do padre Yves d’Evreux foi guilhotinado, sem circular, mas providencialmente salvos alguns exemplares. Pelo menos dois, que se saiba, se conservaram. Um, na Biblioteca Real de Paris; o outro, na Public Library de Nova York.

O exemplar de Nova York é o mais completo, embora faltem nele algumas partes. A partir deste, o historiador francês Ferdinand Denis publicou a primeira e mais conhecida edição que circulou dessa obra. A partir da obra de Denis, foram feitas as traduções em português. O militar francês François Rasily, que participou da expedição que fundou São Luís, sob o comando de Daniel de la Touche, teria guardado as partes censuradas.

Em 2005, Franz Obermeier publicou, pela primeira vez, em artigo no Boletim do Museu Emílio Goeldi, de Belém (MA), as partes desconhecidas da obra de Yves d’Evreux, que foram encontradas e por ele analisadas em sua tese de doutorado, publicada em Bonn (Alemanha), em 1995. Obermeier analisa o trabalho de Ives d’Evreux no contexto dos documentos franceses e brasileiros da época — os livros de Jean de Léry e André Thevet sobre a tentativa de se estabelecer uma colônia francesa no Rio, em 1555-1560 e, sobretudo, as cartas dos jesuítas brasileiros, entre os quais José de Anchieta. O trabalho é particularmente rico em informações inéditas como o tema das migraçoes indígenas, dos pagés, da situação dos escravos e dos bastardos, da mitologia indígena e da iconografia dos documentos franceses sobre a colônia.

Tomei conhecimento dessa pesquisa através do artigo publicado no Boletim do Museu Emílio Goeldi. Copiei e digitalizei o arquivo. Mantenho-o guardado há mais de dois anos. Encontrei o e-mail do professor Obermeier e tentei contato. Há pouco menos de um mês temos trocado e-mails sobre a publicação desse artigo, ampliado e ilustrado com os desenhos da edição original. Acordamos com a publicação, que terá o título de Yves d’Evreux e a fundação de São Luís: documentos inéditos sobre o Maranhão em 1615. O autor já trabalha na revisão e ampliação do texto. O lançamento está previsto para novembro, na Feira do Livro de São Luís.

Outra novidade: o Dr. Franz Obermeier está escrevendo uma edição crítica do livro de Yves d’Evreux, com a íntegra dos textos censurados. Deverá ser publicada na Alemanha, em francês, provavelmente em 2011. Acertamos sua publicação em português pela Ética, provavelmente no final de 2011 ou início de 2012, quando São Luís completa 400 anos.

Dois presentes à história do Maranhão.

o.

O circo-teatro e o cinema: um valioso depoimento

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Sula Mavrudis, depois de ler um despretensioso texto que escrevi sobre o circo-teatro, fez um comentário e enviou-me mais dois e-mails falando sobre o tema. Como nos últimos meses quase não tenho tido condições me dedicar a este blog, e como considerei que o texto dela equivale a um documento sobre a cultura regional (e, por extensão, nacional), publico aqui o inteiro teor de seu depoimento, cheio de riquezas de detalhes e revelações que por certo ainda não foram registradas em nenhuma publicação. É uma leitura que, mesmo extensa, vale a pena ser feita.

Olá, Adalberto, como vai?
Você é do Maranhão? (Eu morei em Pindaré Mirím aos 12 anos, e tenho muitas saudades!!! do Piauí e do Maranhão!!!!) Lá vi muitos circos e os espetáculos ainda tinham a segunda parte, que eram os dramas e comédias…
Gostaria de converar mais com voce sobre o circo-teatro, mas por e-mail que é mais fácil para mim (ainda estou pelejando para aprender a utilizar os demais recursos da internet!!!. Um amigo meu de São Paulo é que viu o seu Blog e repassou para mim) . Fiquei super contente em encontrar mais alguém que gosta do circo, em especial o circo-teatro.
Moro em Minas desde 1986 e  Minas teve várias companhias que brilharam na época de ouro do circo-teatro, a  maioria delas tinha um ponto em comum: o encenador J. Silva, uma espécie de Antunes do circo-teatro. No circo onde ele estivesse trabalhando formavam-se filas e filas!!!! Dizem que ele era “brabo” demais com o elenco, que este tinha que se dedicar e ensaiar exaustivamemnte e até o contra regra tinha seu roteiro por escrito e tinha que passar todas as ações pelo menos dez vezes para J. Silva ficar satisfeito e ter certeza de que ele não iria errar.
Tinha muita cultura e da noite para o dia adaptava qualquer livro, filme ou rádio-novela para o circo-teatro.
Gostaria muito de publicar as peças que tenho recolhido, para devolvê-las para os circenses e disponibilizar para os demais interessados, mas para aprovar o projeto na lei federal de incentivo à cultura o Miniistério da Cultura exigiu a autorização dos “autores”. Assim esbarrei na minha falta de recursos financeiros para  viajar ao encontro dos familiares de autores/adaptadores explicar a importancia de recuperar este repertório e conseguir autorização. Nem a SBAT quiz ajudar neste intento.

Inspirada em sua matéria – que só agora vi que foi escrita no ano passado!!!! – resolvi escrever-lhe sobre como o cinema entrou em nossas vidas assim como o circo:
Meu pai, desde sua chegada ao Brasil, trabalhava nas construções de hidroelétricas.  E era responsável pela parte elétrica das obras e dos acampamentos onde morávamos, ao lado das construções das hidroelétricas.
Foi nessas obras que tivemos a oportunidade de ver muitos e muitos circos, pois era nas obras e nos acampamentos onde viviam os operários com suas famílias que os circos se instalavam, afinal, eram milhares de pessoas isoladas, sem lazer, e com dinheiro para comprar ingresso!!! – Como era meu pai quem ia instalar a energia elétrica para eles e, vendo as suas dificuldades, ajudava em muitas outras coisas, acabava ganhando muitos ” convites” como agradecimento, vivíamos indo aos circos (O Circo Orlano Orfei foi o primeiro a subir a Transamazônica enquanto ela era construída!…)

Mas voltando ao cinema, dos meus 8 aos 11 anos  morei na hidroeletrica de Boa Esperança, na divisa do Piauí com Maranhão, perto de Floriano, onde foi trabalhar o meu pai, que além de eletricista, ficou também com a função de “passar” os filmes (acho que só ele sabia utilizar o projetor!!!).
Assim, os rolos de filme chegavam em nossa casa toda semana e eu acompanhava meu pai que ia “passar” o filme nos clubes dos dois acampamentos e  na casa de hóspedes. Mas tinha também uma sessão especial no quintal de nossa casa: lençol branco sobre o muro, a vizinhança inteira com seus banquinhos ou cadeiras, era uma festa. E tinha às vezes uma sessão especial só pre ele e minha mãe, tarde da noite, na sala de casa, e eu ficava chorando no quarto porque eles não me deixavam assistir!!!.
(Nos circos o repertório variava entre “Coração materno” e as sátiras dos bang-bangs italianos!)
Bom, como eu via pelo menos umas 3 ou 4 vezes cada um, eu “decorava” os filmes, principalmente as coreografias – assim como “decorava” os dramas e comédias circenses. E tinha também os mais belos filmes de circo de todos os tempos!!!
Como era época de musicais, meus primeiros professores de dança, canto e teatro foram as estrelas dos filmes das décadas de 60 e 70 e os atores circenses, em especial, os palhaços.
No cirquinho do fundo do quintal, nas apresentações da escola, um eclético espetáculo: coreografias copiadas das telas de cinema, imitações de dramas, reprises, comédias circenses, e, para completar nosso tão variado repertório, a cópia da “Escolinha do Gordurinha”, que eu ouvia todos os dias em uma rádio de Recife, que terminava sempre assim:
“Voltaremos amanhã, se a bomba atômica permitir”!
Antes de morarmos no acampamento de Boa Esperança, moramos em Floriano e lá tinha um grande cinema, e era época de Hércules e Maciste – muito encenados nos circos na época. Moramos lá quase um ano e íamos ao cinema cada vez que trocava o filme; minha mãe nos levava – eu mais dois irmãos  (desde a Grécia mamãe adorava cinema).
Em Floriano, o Circo Gran Bartholo ficou quase um ano – e Rui Bartholo conta em seu livro que o sucesso foi tão grande que o prefeito ofereceu para eles a sede do mercado da cidade, para que eles se instalassem definitivamente na cidade, mas o sangue nômade falou mais alto.
Mas quando mudamos para o  Maranhão não construíram acampamento; colocaram as famílias em duas cidades: Santa Inês e Pindaré-Mirím. Só em Santa Inês tinha cinema, assim era uma felicidade quando podíamos ir até lá.
(Os circos – e os ciganos-  ficavam num terreno em frente à escola e assim eu seguia a tradição aprendida em Boa Esperança: saía da escola e ficava conversando com os circenses, mais com os palhaços).
Mas um  pouco antes de mudarmos inauguraram uma “sala de cinema” em Pindaré – era 1969. Algumas tábuas sobre caixas serviam de bancos e uma projeção na parede clara – eu acho, não lembro bem… Mas foi o maior acontecimento da cidade.
Em 1970, meu pai foi transferido para uma hidroelétrica em Cochabamba/ Bolivia. Eu fiquei estudando em um internato, em BH, e só fui à Bolívia nas férias, conclusão: um ano sem circo.)
Mas na Bolívia uma ótima novidade: nas sessões de cinema  eram  projetados dois filmes, e eram filmes argentinos em sua maioria, que não conhecíamos mas eram em sua maioria musicais, talvez por isso adoramos. Era a época da Jovem Guarda aqui, e lá também tinha uma banda que se chamava “Jovem Guardia”, e os integrantes estrelavam vários filmes… E, estranhamente, nenhum circo no pedaço.
Mas acho que “falei “demais!!!

Obrigado, Sula!

Cidades. Memória, história e geografia

terça-feira, 20 de abril de 2010

Organizado por Francisco Alcides do Nascimento e Regianny Lima Monte, respectivamente doutor e mestranda em História na Universidade Federal do Piauí, o livro Cidade e memória foi lançado no dia 8 de abril último, no Auditório Noé Mendes, do Centro de Ciências Humanas e Letras (CCHL) da UFPI, em Teresina.
A obra, de 294 páginas, foi publicada pela Ética Editora, de Imperatriz (MA), e reúne 12 artigos de professores do Piauí, Ceará, Paraíba e Santa Catarina, discute o tema cidades “de uma forma bem variada e multidisciplinar”.

Também fez lançamento de seu livro A cidade na região e a região na cidade: a dinâmica socioeconômica de Imperatriz e suas implicações na região tocantina, nesta terça-feira, 20 de abril, em Minas Gerais, o professor do CESI/UEMA (Imperatriz) Jailson de Macedo Sousa, doutorando em Geografia na Universidade Federal de Uberlândia. Essa obra, de 308 páginas, é um dos mais ricos estudos sobre a geografia econômica e o reordenamento espacial da cidade de Imperatriz, que, por sua consistência. se insere entre as principais obras de referência sobre este município. A publicação, fruto da dissertação de mestrado do autor na Universidade Federal de Goiás, é também da Ética Editora.

Carlota Carvalho: de Imperatriz para o Brasil

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

No início desta noite, telefona-me de Teresina o professor João Renôr, recém-aposentado como docente do curso de Mestrado em História da UFPI, devendo vir até o final do ano residir em sua chácara no povoado Cumaru, a quarenta quilômetros de Imperatriz. É para dar “uma boa notícia”: o Conselho Editorial da UFPI acabava de eleger o livro que lhe cabe indicar anualmente para publicação na “Coleção Nordestina”, da ABEU (Associação das Editoras Universitárias Brasileiras). Trata-se de “O sertão: subsídios para a história e a geografia do Brasil”, de Carlota Carvalho, que teve sua primeira edição publicada no Rio de Janeiro, em 1924, quando a autora residia no território de Imperatriz.

Até 2000, quando eu e Renôr organizamos e publicamos a segunda edição desse livro, 76 anos após sua primeira edição, era ele uma obra considerada raríssima, mesmo porque em 1924 haviam sido impressos somente 500 exemplares. No Maranhão, conheciam-se apenas dois exemplares dele, em mãos de particulares. A partir dessa edição de 2000, o livro de Carlota começou a popularizar-se, inclusive no meio acadêmico, regional e brasileiro, já existindo diversos artigos científicos e dissertações de pós-gradução tratando dele.

Esgotada a segunda edição, resolvi, em 2006, organizar uma edição comentada, acrescida de um perfil biográfico da autora, um “índice onomástico explicativo-remissivo” e ainda 101 notas explicativas ao texto, num total de mais de 60 páginas, todas elaboradas por mim, mantendo ainda a Apresentação de João Renôr, feita para a segunda edição, com 52 páginas. O conjunto desses acréscimos deu a esse importante livro regional maior consistência, fazendo-o ainda mais estimado no meio acadêmico.  É exatamente esta terceira edição, da mesma forma em que foi publicada pela Ética, a versão escolhida para publicação pela ABEU.  Será mantida até mesmo a editoração, com 442 páginas, que coincide com o formato da “Coleção Nordestina”.

Com mais de 60 títulos publicados, a “Coleção Nordestina” reúne obras indicadas pelas instuições de ensino superior que integram a ABEU, que as difunde em livrarias universitárias e eventos literários em todo o país, como as bienais e feiras de livros. Dentre os autores publicados estão Joaquim Nabuco, Gilberto Freire, Pedro Américo, Adolfo Caminha, Manoel Correia de Andrade, Câmara Cascudo, Gilberto Amado, Patativa do Assaré, Francisco Julião, Miguel Arraes e muitos outros. João Renôr teve um trabalho seu editado em 2007, “Resistência indígena no Piauí colonial”, que também havia sido publicado antes pela Ética.

De acordo com informativo da Universidade Federal de Pernambuco, a “Coleção Nordestina” “foi lançada com o objetivo de publicar ou republicar obras representativas da produção intelectual do Norte e Nordeste do Brasil, nas áreas de Literatura, Ciências Sociais, Antropologia, Folclores e outras, de modo a constituir-se, no futuro, em repositório bibliográfico da Arte, da Cultura e da Ciência regionais, apto a preservar esse patrimônio e difundi-lo permanentemente em escala nacional.”

Colinas e o Arraial do Príncipe Regente

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Dílson Guimarães, um leitor deste blog, informa que está escrevendo um livro sobre o antigo e extinto Arraial do Príncipe Regente, fundado pelo militar português Francisco de Paula Ribeiro na primeira década do século XIX, por ordem do Governo do Maranhão, com o fim de proteger os criadores que começavam a ocupar com fazendas os sertões do leste maranhense e favorecer a navegação do rio Itapecuru. O Arraial existiu por pouco tempo, sendo devassado pelos índios.

A questão que ainda indaga muitos pesquisadores é: onde ficava mesmo o Arraial?

Dílson afirma ter encontrado vestígios e artefatos de antigos moradores numa área no município de Mirador e acredita ter sido nesse local o antigo Arraial do Príncipe Regente.

A partir de pesquisas que venho fazendo há anos e de documentos cartográficos do século XIX que me chegaram às mãos ultimamente – o mapa do roteiro de Sebastião Gomes da Silva Berford, que publiquei no livro “Viagem da cidade de S. Luís do Maranhão até a Corte do Rio de Janeiro” (do mesmo Berford) e do “Mappa Geographico da Capitania do Maranham”, de 1919, primeiro mapa que descreve com detalhes a parte sul do Maranhão, desenhado por Francisco de Paula Ribeiro e que se imaginava desparecido (encontrado e digitalizado agora pela Biblioteca Nacional, em excelente estado) – posso afirmar que o velho Arraial localizava-se pouco abaixo da confluência dos rios Alpercatas e Itapecuru, exatamente onde fica hoje a cidade de Colinas.

Destaquei, em resposta a recente comentário de Dílson Guimarães feito a postagem que fiz meses atrás neste blogo, o argumento abaixo:

“Para mim, [...] depois de avaliar o mapa elaborado por Francisco de Paula Ribeiro  (fundador do Arraial), recentemente digitalizado pela Biblioteca Nacional, fica evidente que o Arraial do Príncipe Regente ficava pouco abaixo da confluência dos rios Alpercatas e Itapecuru, próximo à margem deste rio, praticamente o mesmo local em que a cartografia atual indica a cidade de Colinas.

“Também, pelo relatório de Sebastião Berford, que esteve no Arraial de 26 de outubro a 2 de novembro de 1809 e fez um relato detalhado do lugar, verifica-se que a distância que ele contabiliza, saindo daí até chegar a Pastos Bons, é de cerca de 20 léguas, a distância aproximada hoje entre Colinas e Pastos Bons, enquanto a distância para Mirador é menos que a metade disso.

“Outra evidência é que no dia 3 de novembro Berford anota que chegou ao riacho “Minador”, quando já teria viajado oito léguas desde a saída do Arraial do Príncipe Regente. Essa é a distância aproximada entre Colinas e Mirador. E a grafia “Minador”, constante no roteiro de Berford impresso pela Imprensa Régia, em 1810, na verdade, pode ser um equívoco de leitura do revisor, visto que a grafia do “r” e do “n” eram muitos parecidas.

“Assim, não tenho nenhum medo em afirmar hoje que o Arraial do Príncipe Regente fica no mesmo local em que hoje é a cidade de Colinas.”

João do Vale – documentário

domingo, 27 de dezembro de 2009

Só agora assisti ao documentário “Muita gente desconhece”, sobre a vida e obra do compositor e cantor maranhense João do Vale, “a personalidade do século XX” no Maranhão. A produção, dirigida por Weriton Kermes, é de 2005, apesar de ter sido iniciada ainda no ano da morte do compositor, em 1996. Foi premiado no Festival de Gramado e exibido na TV Cultura, em 2006.

Através do depoimento de amigos de infância, familiares, parceiros e artistas que com ele conviveram, o filme faz uma retrospectiva da vida e da obra de João do Vale. Apresenta também sua convivência com os amigos de Pedreiras, sua cidade natal, onde foi viver depois do derrame sofrido, e reúne diversos momentos em que canta suas famosas composições que marcaram a música popular brasileira.

Num trecho, Miúcha, irmã de Chico Buarque e uma de suas parceiras, comete uma gafe pouco perceptível: diz que veio com João do Vale fazer alguns shows no interior do Maranhão, e citou uma cidade… “Sobral”… Creio que tenha sido “Bacabal”. Foi exatamente durante essa “turnê” que conheci João do Vale, em 1982.

Ele veio também a Imperatriz com Miúcha, e aqui ficou uns três dias, hospedado no Hotel Schalom, na rua Pará. Em frente, ficava a Gráfica Escriba, minha e de meu irmão Gilberto. Várias vezes ao dia, João saía sozinho, a pé, de chinelo, e ia até um bar ali perto, beber uma dose de cachaça. Passava desapercebido como personalidade.

Não lembro de ele ter voltado a Imperatriz outras vezes, senão quando foi homenageado pelos estudantes do CESI/UEMA, já muito doente e quase sem poder falar.Mas creio que hoje os admiradores da obra de João do Vale em Imperatriz seja muito maior do que quando ele era vivo.

Sobre o documentário, ele está no Youtube com o título “Muita gente desconhece”, dividido em três partes. Vale a pena conferir.