Arquivo da Categoria ‘História’

João do Vale – documentário

domingo, 27 de dezembro de 2009

Só agora assisti ao documentário “Muita gente desconhece”, sobre a vida e obra do compositor e cantor maranhense João do Vale, “a personalidade do século XX” no Maranhão. A produção, dirigida por Weriton Kermes, é de 2005, apesar de ter sido iniciada ainda no ano da morte do compositor, em 1996. Foi premiado no Festival de Gramado e exibido na TV Cultura, em 2006.

Através do depoimento de amigos de infância, familiares, parceiros e artistas que com ele conviveram, o filme faz uma retrospectiva da vida e da obra de João do Vale. Apresenta também sua convivência com os amigos de Pedreiras, sua cidade natal, onde foi viver depois do derrame sofrido, e reúne diversos momentos em que canta suas famosas composições que marcaram a música popular brasileira.

Num trecho, Miúcha, irmã de Chico Buarque e uma de suas parceiras, comete uma gafe pouco perceptível: diz que veio com João do Vale fazer alguns shows no interior do Maranhão, e citou uma cidade… “Sobral”… Creio que tenha sido “Bacabal”. Foi exatamente durante essa “turnê” que conheci João do Vale, em 1982.

Ele veio também a Imperatriz com Miúcha, e aqui ficou uns três dias, hospedado no Hotel Schalom, na rua Pará. Em frente, ficava a Gráfica Escriba, minha e de meu irmão Gilberto. Várias vezes ao dia, João saía sozinho, a pé, de chinelo, e ia até um bar ali perto, beber uma dose de cachaça. Passava desapercebido como personalidade.

Não lembro de ele ter voltado a Imperatriz outras vezes, senão quando foi homenageado pelos estudantes do CESI/UEMA, já muito doente e quase sem poder falar.Mas creio que hoje os admiradores da obra de João do Vale em Imperatriz seja muito maior do que quando ele era vivo.

Sobre o documentário, ele está no Youtube com o título “Muita gente desconhece”, dividido em três partes. Vale a pena conferir.

Lançado ontem “Identidades Sul-maranhenses”

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

val_identid-sul-capa-5cmCom o auditório da Academia Imperatrizense de Letras (AIL) lotado, foi lançado ontem à noite o livro “Identidades Sul-maranhenses: subsídios à prática didático-pedagógica no Ensino Médio”, autoria de Larisse Santos, Valdiléia Cardoso e Suely Veloso. Esse estudo foi apresentado como trabalho de conclusão do curso de licenciatura em História no Centro de Estudos Superiores de Imperatriz (CESI/UEMA) no início deste ano e integra agora a série “Dissertações Acadêmicas”, (volume 17), da Ética Editora.

Fizeram considerações sobre o livro e a pesquisa, a professora Margarida Chaves (UEMA), o jornalista e escritor Edmilson Sanches (AIL), o presidente da AIL, Agostinho Noleto, e eu, na condição de editor e historiador.

Transcrevo, abaixo, o texto que escrevi para a quarta-capa desse livro:

Apesar de as frentes colonizadoras terem chegado aos sertões maranhenses ainda na primeira metade do século XVIII, iniciando o processo de ocupação não aborígene da parte meridional do Maranhão, os principais compêndios de história do Maranhão olvidaram o processo dessa conquista, ocupação e povoamento. Essa lacuna historiográfica se reproduz no ensino oficial da história do Maranhão, causando prejuízos à compreensão global da identidade maranhense, sobretudo das singularidades culturais e sociais dessa porção regional.

Essa omissão tem motivado debates, investigações e publicações que evidenciam a singularidade e a importância dessa região no contexto temporal e espacial maranhense.

Constatando que há, atualmente, uma vasta e sólida bibliografia histórica sobre os antigos sertões de Pastos Bons, hoje denominados genericamente de “sul do Maranhão”, as autoras desta obra propõem “uma alternativa para o desenvolvimento da temática História Regional no Ensino Médio”, rompendo com as abordagens tradicionais, que ignoram as identidades sociais e culturais distintas construídas ao longo do processo histórico.

Adalberto Franklin

O livro já está à venda na loja virtual da Ética Editora  www.eticaeditora.com.br

Celso Barros Coelho e a memória de Pastos Bons

quinta-feira, 23 de julho de 2009

capa_celso-barros_7cmNesta sexta-feira, 24 de julho, o jurista e intelectual Celso Barros Coelho, 86 anos, lança em sua terra natal, Pastos Bons, o livro “Tempo e memória: Pastos Bons”, em solenidade da Academia de Letras, História Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons. O livro reúne 21 artigos do autor publicadas no jornal “Pastos Bons” e é dividido em seis capítulos temáticos, que recebem comentários do João Renôr F. de Carvalho, doutor em história e professor da UFPI: 1) Memórias da infância; 2) Literatura; 3) A história dos sertões de Pastos Bons; 4) Ecologia e Pastos Bons; 5) Impressões de uma viagem; 6) Discursos na Academia. A pedido do autor, escrevi as orelhas do livro (163 páginas), que carrega o selo da Ética Editora.

Homem por excelência acadêmico, Celso Barros Coelho foi presidente da secção piauiense da Ordem dos Advogados do Brasil, da Academia Piauiense de Letras e da Academia Piauense de Letras Jurídicas; é sócio correspondente da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia Carioca de Letras; membr0 do Instituto Histórico e Geográfico Brasilero; é fundador e presidente da  Academia de Letras, História Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons. Tem mais de 50 livros publicados.

Transcrevo, abaixo, o texto das orelhas que escrevi para esse livro:

Tempo e memória: Pastos Bons são escritos que evocam os mais lídimos sentimentos de um homem que volve o olhar para si mesmo e vislumbra passado e presente de sua vida longeva, marcada por situações e acontecimentos de reconhecida expressão social e elevada importância pessoal.
O autor, Celso Barros Coelho, nascido há mais de três quartos de século nos verdes sertões maranhenses de Pastos Bons, galgou as escadarias do mundo; subiu ao pedestal do conhecimento, fez-se mestre e doutor, cidadão honrado em outras terras, sem perder a lembrança do pedaço de chão onde deixou enterrado o umbigo. O magistério, as lides jurídicas, os embates políticos e o fazer literário, cultivados desde a mocidade, não foram suficientes para apagar as marcas do tempo pretérito — esse lapso periódico que estabelece cronologia e idade aos seres e coisas — e olvidar as lembranças guardadas de si mesmo, de lugares, realidades e fatos que marcaram sua existência.
Agora portador do aguçado olhar crítico da ciência e da serena sabedoria da experiência de vida, Celso Barros mergulha no personalíssimo mundo interior e daí volve à tona as recordações da infância, do tempo, lugares e pessoas que cruzaram sua vida e povoaram sua mente, evocados pela memória.
São, na expressão de Carlota Carvalho, “reminiscências históricas” quase esquecidas, que têm “o valor de um monumento, que desperta recordações, umas sentimentais, outras bucólicas; outras prazenteiras, alegres; algumas tristes, dolorosas”. Alegres, como rever os Fortes, palco e cenário da infância, dos banhos de bica na cachoeira; tristes, como a devastação da outrora viçosa vegetação que davam vida aos muitos córregos e riachos perenes, agora filetes d’água a denunciar a ação depredadora do vivente hodierno.
Intelectual orgânico, segundo a concepção de Gramsci, Celso Barros Coelho usa conhecimento e tempo em favor dos ideais que o movem desde sempre, e, no presente, projeta-os para o futuro, entregando às novas gerações as preocupações e responsabilidades que o porvir exige.

Adalberto Franklin
Membro da Academia Imperatrizense de Letras e da Academia de Letras, História e Ecologia da Região Integrada de Pastos Bons.

Imperatriz, 157 anos: uma história bem contada

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Na quinta-feira, 15 de julho, véspera do aniversário de Imperatriz, assumi a tarefa de selecionar em minha biblioteca alguns livros que abordam a história de Imperatriz, para apresentá-los durante entrevista no “Bom dia Tocantins”, programa da TV Difusora Sul (SBT).

Claro que antemão sabia que chegam a dezenas as obras, dos diversos gêneros, que relatam aspectos históricos da cidade. São pesquisas históricas propriamente ditas, crônicas, biografias, relatórios, ensaios, monografias, artigos científicos e jornalísticos etc. Sou o editor de grande parte delas.

Esse exercício, porém, serviu-me para reafirmar que Imperatriz é uma das cidades mais retratadas em obras literárias. São mais de cinco dezenas de títulos.

Procurei estabelecer as principais obras que, a meu ver, compõem a bibliografia básica da história do município. Relaciono, abaixo, as doze obras que considero indispensáveis à compreensão da história de Imperatriz (a ordem é cronológica):

1. Eu, Imperatriz, de Edelvira Marques de Moraes Barros. Goiânia: Rio Bonito, 1972.

2. História do Sul do Maranhão, de Eloy Coelho Neto. Belo Horizonte: São Vicente, 1979.

3. Imperatriz: subsídios para a história da cidade, de Mílson Coutinho. São Luís: Sioge, 1994.

4. Imperatriz: memória e registro, de Edelvira Marques de Moraes Barros. Imperatriz: Ética, 1996.

5. Simplício Moreira: precursor do desenvolvimento de Imperatriz, de Zequinha Moreira. Imperatriz: Ética, 1997.

6. Imperatriz, 18 anos: o que vi, li e ouvi, de Livaldo Fregona. Imperatriz: Ética, 1998.

7. Imperatriz: 150 anos. [Coletânea de textos de membros da AIL]. Imperatriz: AIL, 2002.

8. Enciclopédia de Imperatriz, de Edmilson Sanches (org.). Imperatriz: Instituto Imperatriz, 2002.
9. O Sertão, de Carlota Carvalho. [1. ed.: Rio: 1924] 3. ed. Imperatriz: Ética, 2006.

10. Breve história de Imperatriz, de Adalberto Franklin. Imperatriz: Ética, 2006.

11. A ocupação do solo no centro urbano de Imperatriz, de Cristina Silva e Elaine Gomes. Imperatriz: Ética, 2008.

12. Apontamentos e fontes para a história econômica de Imperatriz, de Adalberto Franklin. Imperatriz: Ética, 2008.

As outras vítimas da Guerrilha do Araguaia

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Li agora, na Folha de S. Paulo, uma notícia em que o major Sebastião Curió revela ter o Exército executado 41 pessoas ligadas à Guerrilha do Araguaia, depois de presas e sem condições de oferecerem resistência. Noutra matéria, um morador da região do Araguaia afirmava ter presenciado a execução de alguns outros.

Rememorei um texto deixado por meu pai, parte de um pacote de umas quinhentas páginas de memórias, escritas à mão, em papel almaço pautado, entregues a mim um ano antes de sua morte, ocorrida há três anos.

Em 1970, trabalhando em Brasília como agente da extinta Companhia de Seguros Aliança Gaúcha, “seu” Martinho foi transferido para Imperatriz em 1971, para dirigir uma sucursal que essa empresa abria na cidade, a que mais despontava ao longo da rodovia aberta dez anos antes por Juscelino Kubitschek. Aqui, na primeira metade dos anos ’70, ele era também — soube disso mais de duas décadas depois — informante do governo militar, especialmente da Polícia Federal e do Exército. Ao contrário de muitos, com o passar do tempo e a posição política dos filhos, ele foi tomando outro caminho, passando, já na década final da vida, a fazer campanha ativa para candidatos do PT.

Não sei se tomado por esse novo espírito político, ou até mesmo por possíveis remorsos, ele registrou em suas memórias, escritas a meu pedido, alguns casos “escabrosos” daqueles tempos de arbitrariedades e torturas, dos quais ele foi testemunha.

O texto ao qual me referi acima, fala de uma vinda a Imperatriz do então delegado Sérgio Fleury, famoso delegado do DOPS, em São Paulo, à procura de uma pessoa que dava apoio à guerrilha, com base na cidade. Localizou, prendeu, torturou a matou o “infeliz”. Meu pai escreveu que, depois de torturá-lo e, mesmo assim, não ter conseguido as informações que desejava, Fleury colocou o pobre homem num helicóptero, sobrevoou as matas paraenses do Araguaia com ele dependurado por horas. E nem assim conseguindo mais informações, jogou-o do avião abaixo, na mata, de uma grande altitude.

Este é, certamente, apenas um dos muitos casos ocorridos na repressão à guerrilha. Aqui na região, dezenas de outros homens e também de mulheres foram torturados e mortos. Muitos eram apenas ribeirinhos, capiaus, sertanejos. Normalmente não são contados. Não eram filiados a partidos nem tinham sobrenomes ilustres. Não vieram de famosas faculdades nem conheceram pessoas importantes.

Muitos deles, hoje velhos e ainda anônimos, pobres, andam cabisbaixos por nossas ruas, e ainda não se atrevem a falar sobre esse passado aterrador, porque os torturadores também estão aí, nas ruas, geralmente em boa posição econômica, social e política… e ainda provocam medo. Veja-se o Curió, homem poderoso e temido no sul do Pará.

É como disse meu pai em outra crônica:

“Eu ainda vou escrever alguma coisa sobre esse episódio do qual fiz parte em serviços reservados. Às vezes penso em tanta coisa que já vi, ajudei e até participei [...] que para muitos sequer existiram, mas aconteceram [...] e quase todos os que participaram já não existem mais.”

Pena que ele tenha morrido antes de relatar tudo o que desejava.